Alfonso
UM ANO DEPOIS, BLACKWOOD PARK
— Está ocupado — falei mal-humorado, para a ruiva que se aproximou, sorridente.
Sorridente demais para o meu gosto.
Inferno. Eu estava no lugar mais privativo dos jardins de Blackwood Park, mas precisava lidar com aquilo. Claro, não precisaria se minha namorada fizesse o favor de me encontrar na hora marcada.
Anahi sempre me alertava de que pontualidade era regra rígida dos ingleses. E por isso ela estava livre do encargo.
Mas, ainda assim, eu não contava com um atraso de meia hora.
Principalmente naquela noite. Meus trinta e três anos sendo celebrados do
jeito que menos me agradava: uma grande festa para a alta sociedade
britânica.
Yolanda tinha ficado perplexa quando propus a ideia. Minha avó me
olhou como se uma segunda cabeça tivesse nascido no meu pescoço. Mas ela não poderia imaginar minhas reais intenções.
Aliás, ninguém poderia. E todos ficariam extasiados quando descobrissem o real motivo daquela comemoração.
Entretanto, o êxtase só poderia começar se minha namorada chegasse.
Falei para mim mesmo que esperaria por apenas mais dois minutos, e
fiquei acompanhando o ponteiro do meu Rolex. Quando o tempo foi
concluído, levantei-me e atravessei o jardim.
Tomando o cuidado de não ser visto, fiz uso de uma das passagens secretas que me permitiam sair atrás do hall de entrada e subi as escadas.
Com passadas largas, eu já estava no corredor e logo diante da porta do nosso quarto.
— Anahi — chamei, abrindo a porta.
Maite, que estava sentada na cama, pulou dela e correu para a porta do banheiro.
“Ela não está aqui.” Ela sinalizou, montando guarda com os bracinhos
abertos e me fazendo rir.
O afeto entre minha irmã e Anahi florescia cada vez mais e elas tinham se tornado defensoras ferrenhas uma da outra. Quase cúmplices, na
verdade.
— Ah, ela não está? — Cruzei os braços.
Minha irmã cruzou os dela e deu um passo ameaçador para frente.
Dessa vez, eu tive que gargalhar.
— Tudo bem, tudo bem — ergui as mãos em sinal de rendição — Eu não vou brigar pelo atraso. Apenas preciso vê-la, estou com saudades.
Maite não se comoveu nem um pouco. Mesmo quando levei minha mão ao peito.
Suspirei e enfiei a mão no bolso.
— Cinco libras dão uma caixa daqueles dinossauros de chocolates.
—Tentei.
Nada.
— Sete libras, então.
Minha irmã me dirigiu o mesmo olhar duro. O mesmo que eu usava
quando negociava.
Deus. A Blackwoods teria um futuro glorioso pela frente.
— Certo. Você tem a vantagem nessa negociação. — Enfiei a mão no bolso novamente. — Dez libras de crédito, um passeio completo em Londres na segunda-feira e deixo você colocar aquelas borboletinhas azuis no meu
cabelo.
Maite sorriu largamente e veio correndo me abraçar.
— Agora desça e fique com Yolanda — pedi, depois de beijar sua testa.
Minha irmã concordou e deixou o quarto.
Aproximei-me da porta, cuidadoso.
— Ah, Deus... — ouvi Anahi murmurar, preocupada — Ah, Deus.
Esse é o quarto. Não tem como ser engano. Como eu vou contar isso para ele?
Abri a porta em um movimento rápido.
— Contar o que, miss atraso?
— Alfonso!
Anahi gritou e pulou na frente do lavabo, mantendo as mãos atrás
das costas, em seu tentador vestido rosa claro.
— O que você está escondendo de mim?
— N-nada — saiu estrangulado, o que provava o contrário.
— Ah, é? — falei, me aproximando.
Ela recuou.
— Alfonso, por favor... É melhor discutirmos isso depois da sua festa.
Parei.
Anahi parecia mesmo aflita.
— Por favor? — ela pediu com os olhos azuis ansiosos.
Assenti. Mas terminei o caminho e a beijei, tentando afastar a tensão em seu rosto. Quando a senti entregar-se, estendi uma das mãos e alcancei o que
parecia ser um pequeno tubo de plástico, no lavabo atrás dela.
— Mas o quê... — falei quando afastei meus lábios dos dela.
— Alfonso, por favor, não...
Mas já era tarde. O tubinho plástico já estava nas minhas mãos. E percebi que não era tubo nenhum. Era um teste de gravidez. Com duas riscas no pequeno mostrador de resultados.
— Eu... Eu não planejei. Sei que o nosso relacionamento ainda está no início... — Anahi começou. — Não sei o que aconteceu. Eu tomei a
pílula religiosamente e...
— Mas tomou antibióticos para a inflamação de garganta — relembrei,
sem tirar os olhos do teste. — Há um mês e meio. Silêncio.
— Nós vamos ter um filho — saiu do meu coração direto para a boca.
— Me desculpe — Anahi sussurrou e baixou a cabeça.
— Não, meu amor — ergui o queixo dela — Não peça desculpas quando está me dando o melhor presente de todos essa noite.
Senti uma lágrima deslizar pela minha bochecha.
— Então, você quer isso? — Anahi também tinha os olhos marejados — Porque você me disse antes que nunca planejou ter uma
família, Alfonso...
— Não mesmo. Porque não planejaria isso com mais ninguém. Apenas com você, Angel. — Coloquei o teste de volta no lavabo. — Eu planejava fazer isso um pouco mais tarde e no jardim. Na verdade, isso era a única razão para toda a festa que está acontecendo lá embaixo.
Ajoelhei-me no chão de marfim do banheiro da minha suíte.
— Alfonso...?
Quando tirei a caixinha, o brilho de reconhecimento nos olhos de Anahi acendeu-se.
— Na primeira vez que fiz isso, foi de uma forma estúpida. Porque eu
era um homem estúpido — Ela riu, mas de seus olhos caíram mais lágrimas.
Também sorri e abri a caixinha de veludo — Não posso garantir que ainda
não terei meus momentos de estupidez. Talvez você faça uma bela contagem
deles nos anos que estão por vir para nós. Se eu tiver a sorte de ouvir a
resposta dos meus sonhos agora.
— Ah, meu amor...
— Mas houve uma coisa que eu disse certa, naquele dia. Só há um lugar para esse anel estar. Com a mulher que eu amo e que escolhi para passar a minha vida — Engoli minha própria emoção enquanto capturava a mão dela.
— Você me daria a honra de ser seu marido? Aceita se casar comigo,Anahi Portilla?
— Sim! — Ela sequer pegou fôlego, fazendo meu coração retumbar no peito
— Sim, sim, sim, Alfonso! Eu aceito ser sua esposa!
Deslizei o anel para o lugar que ele nunca deveria ter deixado.
— De verdade e para sempre — prometi enquanto a tomava nos braços em seguida.
— De verdade e para sempre — Anahi me respondeu quando deixamos de nos beijar — Eu amo você!
— E eu amo vocês, também — falei, pousando minha mão no abdômen
ainda sem sinal do bebê.
E então, não consegui mais conter minha gargalhada.
Anahi ficou me olhando confusa, mas também sorria.
— O que foi, Alfonso?
— Yolanda sempre quis um bisneto, mas agora que começamos, duvido
que nos deixe parar.
Minha futura esposa riu e colocou a mão sobre a minha em sua barriga.
— Pelo menos temos a chance de conseguirmos dois em uma só jogada.
Isso nos deve dar alguns anos de descanso.
Ri ainda mais.
Meu Deus. Eu nunca tinha sido tão feliz. Nunca havia imaginado sequer ser possível.
— Sabe — falei, envolvendo Anahi nos meus braços outra vez
—Estou feliz que Giovanna tenha me roubado. Você é a melhor coisa que já me
aconteceu, Anahi Portilla.
— Sou? — Ela fingiu descrença, mas apenas para me ouvir repetir.
— Sim. — Beijei-a — Mas ficarei encantado em mostrar sempre. Em todos os anos que teremos.
Ela me deu o sorriso mais lindo do mundo.
— Acho que vou aceitar a oferta — brincou. Mas em seguida seus olhos
ficaram sérios — Mas apenas se antes de descermos para a festa encontrarmos aquelas algemas de diamantes...
— Ah, seu desejo será sempre uma ordem para mim, senhora Herrera
— E com um único movimento, Anahi estava nos meus braços e nós dois caminhávamos para a nossa cama. — Vamos. Temos muitos Herreras para trazermos a esse mundo e encher essa casa enorme.
Anahi suspirou, parecendo cansada, mas depois sorriu, maliciosa, e beijou meu nariz. Uma mistura perfeita de sensualidade e inocência.
Eu era um maldito sortudo.
— Ainda bem — Ela passou os braços pelo meu pescoço —, porque eu mal posso esperar para recomeçar, e recomeçar, e recomeçar...
FIM!
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
