Capítulo Dois - O estranho

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  No dia seguinte, logo após a aula, sigo direto para o meu trabalho de meio período. Não é muito longe de casa, então Ji Soo me acompanha por boa parte do caminho.

  — Não chegue muito tarde — pede ele, quando paramos em frente ao café.

  Olho para ele com a testa franzida. Jisso trabalha como entregador em uma pizzaria e quase sempre chega tarde.

  — Não sou eu quem deveria dizer isso? — questiono.

  — É diferente. Eu já estou acostumado. Você não. — Ele dá de ombros, mas em seguida me encara com mais seriedade. — E você... tem que se cuidar.

  Controlo a vontade de suspirar ao ver a preocupação nos olhos dele. Ao em vez disso, sorrio.

  — Eu vou. Pode deixar.

  Ji Soo sorri de volta e despenteia meu cabelo com a mão. Um gesto que me irritava profundamente quando éramos crianças. Mas agora… é o completo oposto.

  Antes que eu diga qualquer coisa, ele pega minha mochila com um gesto automático e começa a se afastar, andando despreocupado, sem imaginar o estrago que um ato tão simples causa no meu coração.

  Respiro fundo, observando-o se afastar. Ji Soo trabalha desde muito novo. Não por escolha, mas por necessidade. É só ele e a mãe, e o salário dela como cozinheira mal cobre as despesas. Às vezes me sinto culpada por não poder ajudar mais com a minha fortuna, e talvez por isso eu tenha insistido tanto em trabalhar também. No começo, eles foram contra. Mas quando fiz 18 anos, eles acabaram cedendo. Meu salário é pequeno, quase simbólico… ainda assim, indispensável.

  Entro no café e logo avisto minha chefe atrás do balcão.

  — Está atrasada, Yoo Nah.

  — Sinto muito, o ônibus atrasou.

  Ela bufa, impaciente, e faz um gesto para que eu comece logo. Corro para os fundos, passo pela pequena cozinha onde ficam os aventais e cumprimento a ajumma* (senhora) que trabalha comigo. Em seguida, volto para o balcão da recepção. Não demora muito até minha chefe me estender a caderneta de pedidos.

  — Você fica de garçonete hoje.

  — Ok.

  Há apenas um casal sentado em uma das mesas, então sigo até eles.

  Normalmente, esse horário é quase sempre vazio. Mas, conforme o céu começa a escurecer, os clientes vão aparecendo aos poucos — alguns para comer algo rápido, outros apenas para tomar um café quente. Pessoas cansadas do trabalho entram em busca de alguns minutos de descanso antes de voltar para casa. Amantes de leitura escolhem o silêncio do lugar como refúgio. E, quase sempre, casais em encontros discretos. Não os culpo. Há algo naturalmente romântico aqui — talvez a luz baixa, o cheiro de café ou o ambiente aconchegante.

  Depois de atender os dois pombinhos, volto ao balcão e passo a atender alguns telefonemas. O Home Coffee pode não ser grande, mas é conhecido o suficiente para receber pedidos de entrega. Quando junto alguns endereços, levo tudo até minha chefe, a senhora Hong.

  — Aish… são todos longe. Vou ter que ir dessa vez — reclama, levantando-se da poltrona enquanto pega a chave do carro. — Quando você vai aprender a dirigir, Yoo Nah? — pergunta, lançando-me um olhar quase suplicante.

  — Não faço ideia, sajangnim.* (chefe)

  — Então trate de dar um jeito, ou vou acabar contratando um entregador! — bufa, antes de sair pisando duro.

  Não entendo por que ela está tão brava. Sempre faço as entregas quando o endereço é aqui pelo bairro. Se não está satisfeita, por que não contrata alguém de uma vez?

PARADOXOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora