Capítulo Seis - Segura

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  Enquanto atendo uma das mesas do Home Coffee, escuto a porta se abrir. Levanto os olhos e vejo Sang Hoon acenar para mim, um sorriso aberto no rosto. Sorrio de volta, mas termino de atender o casal antes de ir até ele.

  Quando finalmente me aproximo, ele já está acomodado, observando o movimento do café com curiosidade.

    — Olá, chingu* (amigo) — cumprimento, inclinando levemente a cabeça. — O que deseja?

  — Você.

  Arregalo os olhos, e ele imediatamente cai na gargalhada.

  — Estou falando da sua companhia, chingu — se apressa em explicar, divertido.

  — Ah, é mesmo… — puxo a cadeira e me sento à sua frente, estreitando os olhos numa falsa repreensão. — Você gosta de me fazer passar vergonha.

  — Então você notou?

  — Notei — respondo, lembrando da vez em que o questionei ali mesmo e ele fez toda aquela cena. Balanço a cabeça, rindo, quando algo me ocorre. — Já que agora somos amigos... você poderia me explicar o que aconteceu aquele dia?

  — Que dia? — pergunta, franzindo levemente a testa.

  — Aquele em que você entrou aqui todo molhado, com as roupas rasgadas — explico, baixando um pouco a voz. — Acho que foi a primeira vez que nos vimos.

  — Ah… aquele dia. — Ele se cala. O sorriso some aos poucos, substituído por um olhar distante, pesado. Seus dedos batucam de leve na mesa, num ritmo nervoso. — Podemos deixar isso para outra hora?

  — Por quê? — pergunto, intrigada.

  Ele suspira, desviando o olhar.

  — Não quero falar sobre isso, Yoo Nah.

  O silêncio que se segue é diferente do anterior. Mais denso. Consigo sentir o quanto a lembrança o incomoda, e isso me faz recuar. Engulo a curiosidade e assinto, respeitando o limite que ele acaba de impor.

Mudamos de assunto. Falamos sobre o clima, a escola, sobre coisas bobas. Ele faz piadas, me fazendo rir mais do que eu achava ser possível. Até que novos clientes chegam e o chamado do trabalho me puxa de volta à realidade.

  Levanto-me a contragosto, prometendo voltar assim que puder.

  Mesmo após me afastar, não consigo evitar o sorriso bobo que insiste em ficar no meu rosto diante daquela situação tão inusitada.

  Meu primeiro amigo feito na escola... é um professor. Aigo!

  Mais tarde, quando já estou quase encerrando meu expediente, minha chefe me pede para fazer uma última entrega, em um bairro distante. Não fico nada animada — vou precisar pegar dois ônibus para chegar até lá. Mesmo assim, não recuso. Afinal, faz parte do meu trabalho.

  Já estou caminhando pela calçada, concentrada nos meus próprios pensamentos, quando Sang Hoon surge ao meu lado, acompanhando meus passos como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

  — Pensei que você já tivesse ido. O que faz aqui? — pergunto, surpresa.

  — Eu fui — responde. — Mas depois estava passando por aqui e, por coincidência, vi você saindo.

  Há algo em seu tom que não soa totalmente convincente. Parece… ensaiado. Se ele estiver mentindo, onde esteve desde que saiu do Home Coffee? A pergunta me vem à mente, mas acaba ficando ali. Como sempre, ele provavelmente não responderia. Além disso, sinto-me bem com sua companhia — e, no fim, isso basta.

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