Capítulo Dez - Uma pessoa do futuro

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  — Por que você veio para o passado? — pergunto enquanto caminhamos pela calçada de mãos dadas.

  Mesmo com as luvas cobrindo sua pele, sinto o calor do toque. É ridículo — depois do beijo, depois de admitir que estou me apaixonando, segurar a mão dele não deveria ser nada. Ainda assim, meu coração reage como se fosse algo imenso.

  Quando os olhos dele voltam a pousar em mim, desvio o olhar, fingindo atenção no caminho à frente, como se essa nova intimidade não estivesse bagunçando tudo dentro de mim.

  — Precisava resolver algo.

  Outra resposta vaga.

  Ele continua se esquivando com a mesma facilidade que me deixa inquieta. Mas há algo diferente agora. Ele parece menos fechado, como se baixar a guarda tivesse sido inevitável. Tenho que aproveitar.

  — Resolver o quê?

  — É um assunto pessoal.

  Continuamos andando, nossos passos sincronizados, o silêncio se esticando entre nós antes de eu tentar outra vez.

  — De quanto tempo no futuro estamos falando?

  Ele não responde. O aperto em minha mão muda, quase imperceptível.

  — Uns dez anos? Vinte? — insisto, até fazê-lo parar e me lançar um olhar impaciente.

  — Você não pode me contar ao menos isso? — suspiro, sentindo a frustração me dominar.

  — Não é bom saber demais sobre o futuro.

  — Mas eu estou sonhando com esse futuro. Uma hora ou outra, eu vou saber.

  O rosto dele se contrai, como se minhas palavras doessem. Em seguida, ele balança a cabeça, empurrando o assunto para escanteio.

  — A propósito… o que significa gerar matéria?

  Ele me encara de novo, agora visivelmente horrorizado. Solto minha mão da dele e ergo as palmas no ar, ansiosa para explicar.

  — Eu usava luvas iguais às suas. E todo o tempo em que estávamos juntos era para gerar essa tal matéria. O que é isso?

  Jong Wook passa a mão pela testa, cansado, os ombros levemente curvados.

  — É o que torna a viagem no tempo possível — admite, por fim, com a voz mais baixa. — Por favor, não faça mais perguntas.

  Mordo os lábios, tentando me conter. Ele aparece dizendo que veio do futuro e não quer que eu faça perguntas. Hor...

  — Só mais uma.

  Ele bufa, claramente contrariado, mas concorda com um aceno resignado.

  — Você… tem que ir embora para lá?

  O ar entre nós pesa outra vez, como se o mundo tivesse diminuído de tamanho.

  — Sim.

  A resposta esmaga meu coração, mas me esforço para não deixar transparecer.

  — Mas vamos nos encontrar de novo, não vamos? Assim como no sonho?

  Ele para. Sem dizer nada, entrelaça nossos dedos outra vez, como se aquele gesto fosse uma promessa silenciosa.

  — Vamos nos concentrar no agora, está bem? — pede, com uma suavidade que me acalma. — Eu não vou embora enquanto você me quiser aqui.

  Sorrio. Não era exatamente a resposta que eu queria, mas ainda assim… basta.

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