Capítulo Oito - Explosão

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  Vejo Sang Hoon surgir no quarto em que estou, aquele separado por um vidro grosso e frio, que reflete meu próprio rosto sempre que me aproximo demais. A iluminação branca é constante, agressiva, não deixa sombras — nem descanso.

  É mais um dia de treino e análise.

  Espera… treino para quê? Análise do quê? Dentro do sonho, parece que eu sei exatamente o que está acontecendo — mas a minha consciência, fora dele, não acompanha.

  Me levanto com o corpo pesado, os músculos rígidos, como se eu não tivesse dormido de verdade há dias. Não sei mais quanto tempo vou aguentar permanecer nisso sem enlouquecer.

  Nisso o quê, exatamente?

  Estamos na esteira outra vez. O chão vibra sob meus pés, o som ritmado da máquina invade meus ouvidos. Estendo as mãos e consigo gerar um pouco mais de matéria do que ontem. Mas ela se desfaz rápido demais. Ainda não é suficiente.

  Gerar... matéria... outra frase que não faz sentido.

  Por fim, me deixo cair na cadeira de metal. Ela é dura, desconfortável, mesmo assim fecho os olhos por um instante, ofegante, enquanto Jong Wook faz anotações.

  Jong Wook não! Esse é Sang Hoon! Que sonho mais louco é esse que me faz mudar o nome das pessoas?!

  Seus cabelos negros escondem as rugas que se formam em sua testa quando está concentrado. Não sei por quê, mas vê-lo assim me conforta. Talvez porque seja a única coisa minimamente familiar — ou interessante — nesse lugar.

  Que lugar? O que está acontecendo comigo?

  — Por que não me tira daqui? — pergunto, quebrando o silêncio.

  Ele ergue os olhos sérios em minha direção, mas não responde.

  — Você é inteligente — insisto. — Sei que conseguiria, se quisesse.

  — Quem disse que eu quero?

  A frieza da resposta não machuca como deveria. Eu já esperava. Jong Wook sempre foi assim: rígido, disciplinado, completamente devoto ao trabalho. Sua postura deixa claro que isso vem antes de mim, antes de qualquer coisa.

  Mas Sang Hoon não é assim. Ele não é rígido, nem frio. Então quem é esse homem que tem a mesma aparência, mas parece alguém completamente diferente?

  — E se eles não nos soltarem, mesmo depois que conseguirem o que querem? — arrisco, a voz mais baixa.

  — Eles vão soltar.

  Suspiro, frustrada com a convicção quase cruel da resposta. Ele não hesita nem por um segundo quando acredita estar certo. Tenho vontade de questionar, de confrontá-lo, mas não consigo. Em vez disso, mais uma vez deixo minha vulnerabilidade à mercê do meu carcereiro — frio e irresistivelmente lindo.

  — Você promete?

  Ele me encara de verdade agora. O tempo parece desacelerar. Seus olhos escurecem levemente, como se compreendesse o peso daquela palavra, o que ela significa para alguém que não tem mais nada além disso.

  Mesmo assim, responde sem hesitar:

  — Eu prometo.

  O alívio me atravessa como uma onda quente, fazendo meus ombros relaxarem, a respiração finalmente se estabilizar. Um sorriso pequeno, involuntário, surge em meus lábios.

  Jong Wook desvia o olhar, visivelmente embaraçado, e volta a se concentrar nas anotações, como se aquele momento não tivesse existido.

  E, apesar de tudo… eu escolho acreditar nele.

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