Vejo Sang Hoon surgir no quarto em que estou, aquele separado por um vidro grosso e frio, que reflete meu próprio rosto sempre que me aproximo demais. A iluminação branca é constante, agressiva, não deixa sombras — nem descanso.
É mais um dia de treino e análise.
Espera… treino para quê? Análise do quê? Dentro do sonho, parece que eu sei exatamente o que está acontecendo — mas a minha consciência, fora dele, não acompanha.
Me levanto com o corpo pesado, os músculos rígidos, como se eu não tivesse dormido de verdade há dias. Não sei mais quanto tempo vou aguentar permanecer nisso sem enlouquecer.
Nisso o quê, exatamente?
Estamos na esteira outra vez. O chão vibra sob meus pés, o som ritmado da máquina invade meus ouvidos. Estendo as mãos e consigo gerar um pouco mais de matéria do que ontem. Mas ela se desfaz rápido demais. Ainda não é suficiente.
Gerar... matéria... outra frase que não faz sentido.
Por fim, me deixo cair na cadeira de metal. Ela é dura, desconfortável, mesmo assim fecho os olhos por um instante, ofegante, enquanto Jong Wook faz anotações.
Jong Wook não! Esse é Sang Hoon! Que sonho mais louco é esse que me faz mudar o nome das pessoas?!
Seus cabelos negros escondem as rugas que se formam em sua testa quando está concentrado. Não sei por quê, mas vê-lo assim me conforta. Talvez porque seja a única coisa minimamente familiar — ou interessante — nesse lugar.
Que lugar? O que está acontecendo comigo?
— Por que não me tira daqui? — pergunto, quebrando o silêncio.
Ele ergue os olhos sérios em minha direção, mas não responde.
— Você é inteligente — insisto. — Sei que conseguiria, se quisesse.
— Quem disse que eu quero?
A frieza da resposta não machuca como deveria. Eu já esperava. Jong Wook sempre foi assim: rígido, disciplinado, completamente devoto ao trabalho. Sua postura deixa claro que isso vem antes de mim, antes de qualquer coisa.
Mas Sang Hoon não é assim. Ele não é rígido, nem frio. Então quem é esse homem que tem a mesma aparência, mas parece alguém completamente diferente?
— E se eles não nos soltarem, mesmo depois que conseguirem o que querem? — arrisco, a voz mais baixa.
— Eles vão soltar.
Suspiro, frustrada com a convicção quase cruel da resposta. Ele não hesita nem por um segundo quando acredita estar certo. Tenho vontade de questionar, de confrontá-lo, mas não consigo. Em vez disso, mais uma vez deixo minha vulnerabilidade à mercê do meu carcereiro — frio e irresistivelmente lindo.
— Você promete?
Ele me encara de verdade agora. O tempo parece desacelerar. Seus olhos escurecem levemente, como se compreendesse o peso daquela palavra, o que ela significa para alguém que não tem mais nada além disso.
Mesmo assim, responde sem hesitar:
— Eu prometo.
O alívio me atravessa como uma onda quente, fazendo meus ombros relaxarem, a respiração finalmente se estabilizar. Um sorriso pequeno, involuntário, surge em meus lábios.
Jong Wook desvia o olhar, visivelmente embaraçado, e volta a se concentrar nas anotações, como se aquele momento não tivesse existido.
E, apesar de tudo… eu escolho acreditar nele.
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PARADOXO
Science FictionKang Yoo Nah é uma jovem estudante da Coreia do Sul, que tem vivido com amigos da família desde que seu pai desapareceu sem deixar vestígios. O problema é que Yoo Nah não vê o filho da sua tutora como irmão, e precisa esconder isso. Mas sua vida se...
