Capítulo Três - Substituto

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  Assim que entro na sala, escuto os risos abafados dos alunos. Suspiro. Instintivamente, procuro Na Bi com os olhos, mas ela conversa animadamente com a amiga, exibindo aquela expressão ensaiada de inocência. Finjo não ligar e vou até minha mesa, examinando a cadeira e a superfície antes de sentar. Nada de tinta ou cola... Então o que é?

  Me sento, os risos aumentam. Levanto o olhar devagar e vejo, bem à frente, uma caricatura grotesca desenhada na lousa — com meu nome escrito logo abaixo. Aish.

  Caminho até a lousa e apago tudo em silêncio, sentindo os olhares queimarem minhas costas. Quando volto e me sento outra vez, escuto um "crack", seguido por um estalo seco.

  Me levanto no mesmo instante. Migalhas de casca e a clara viscosa de um ovo quebrado escorrem pela cadeira. Boa parte da sujeira agora mancha a saia do meu uniforme. Os risos explodem, ecoando pela sala como se fosse um espetáculo. Sinto o rosto queimar, o nó na garganta apertar.

  Eu realmente não entendo o que há de tão engraçado nisso.

  Respiro fundo, contando até três, e pego da bolsa a toalha de mão que sempre carrego. Começo a limpar o que dá, tentando manter o mínimo de dignidade.

  — Todos sentados — anuncia a professora, entrando na sala.

  Todos obedecem. Menos eu.

  — Sentados! — repete, agora me encarando.

  Lanço um olhar rápido ao redor. Os alunos estão sérios demais — curiosos, atentos — esperando para ver se eu finalmente vou dizer alguma coisa.

  Não... não vou.

  Volto a me sentar, sentindo a saia sujar de novo. Alguns tentam conter o riso. A professora percebe.

  — O que é tão engraçado? — questiona, a voz dura. O silêncio é a única resposta. — E que cheiro horrível de ovo é esse?! — completa, franzindo o nariz.

  Ninguém diz uma palavra. Covardes.

  — Sou eu, sonsengnim* (professora) — digo, levantando devagar. — Posso ir me limpar?

  — Outra vez, Yoo Nah? Que tipo de garota traz ovo cru para a escola? — exclama, indignada. — Saia agora. Só volte quando se livrar disso.

  As gargalhadas aumentam enquanto caminho até a porta. Assim que saio, corro para o banheiro feminino e me tranco em uma das cabines. A humilhação pesa tanto que tenho vontade de ficar ali até o fim da aula. Mas, infelizmente, consigo limpar tudo. Até o cheiro desaparece. Então sou obrigada a voltar.

  * * *

  Nos dias seguintes, não encontrei mais o stalker no trabalho. Ele deixou de frequentar o Home Coffee desde o dia em que pedi que parasse de me deixar desconfortável. Apesar da vergonha que me fez passar, ao menos parece ter atendido ao meu pedido.

  Com isso, os dias seguiram normalmente. Ou quase. Em uma manhã qualquer, enquanto eu e Ji Soo caminhamos para a escola, três garotas do nosso ano surgem no nosso caminho.

  — Annyeong, Ji Soo oppa! — diz uma delas, abrindo um sorriso exagerado enquanto se coloca bem à frente dele, como se eu não estivesse ali. Nem sequer me lança um olhar. — Eu… eu gostaria de te entregar isso.

  Ela estende um envelope com as duas mãos. Uma carta. Meu olhar vai direto para Ji Soo, tão ansiosa quanto as garotas pela reação dele. Por um segundo, o tempo parece suspenso... Até que Ji Soo devolve o envelope à menina.

  — Sinto muito, mas não posso aceitar.

  Isso!

  Sorrio involuntariamente enquanto o sorriso da garota se desfaz. Só então ela parece se lembrar de que eu existo e se vira para mim.

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