Não tenho certeza, mas acho que é outro dia. Quando Jong Wook entra no pequeno quarto, eu já estou acordada. Seu cabelo está mais alinhado do que ontem, dando-lhe um ar ainda mais inteligente — o que, infelizmente, combina demais com ele.
— Venha comigo — ordena, sem sequer me cumprimentar.
Enquanto o sigo, meus olhos caem automaticamente em suas mãos. Estão nuas. Sem luvas. As minhas, porém, continuam ali, presas à minha pele como parte de mim. Um detalhe me inquieta ainda mais: a cicatriz dele não existe. Não é que esteja escondida — ela simplesmente ainda não foi feita.
Atravessamos outra sala até ele parar diante de uma porta. Ele a abre e faz um breve gesto para que eu entre. Seu rosto permanece impassível — ainda assim, bonito de um jeito irritante.
Dou um passo à frente e me deparo com um banheiro. Em um canto, uma arara com roupas limpas e produtos de higiene; no outro, a ducha. Ah... Então perceberam que eu já devo estar fedendo. Que gentileza.
— Você tem quinze minutos — avisa Jong Wook, já começando a fechar a porta.
— Espera — falo rápido — pode me ajudar a tirar as luvas antes? Eu… não consegui sozinha.
Ele nem hesita.
— Não. Você nunca deve tirá-las.
— Por quê?
— Porque não.
— Mas...
A porta se fecha na minha cara antes que eu consiga concluir a frase. O som seco ecoa, confirmando o que eu já sabia, mas relutava em aceitar: sou uma prisioneira.
Balanço a cabeça, afastando o nó que se forma no peito, tiro a roupa e entro no banho. A água quente escorre pelos meus ombros, trazendo um alívio temporário, quase enganoso. O vapor embaça o espelho, assim como meus pensamentos. O medo não desaparece — mas se cala. Por enquanto.
Ao sair, encontro Jong Wook à minha espera, exatamente no mesmo lugar, como se não tivesse se movido um centímetro. Ele segura uma bandeja com um recipiente retangular e a estende na minha direção.
— Passou de quinze minutos — reclama assim que a pego.
— Qual é o seu problema? — pergunto, a irritação escapando antes que eu consiga conter.
Ele dá um passo à frente, reduzindo a distância entre nós até quase encostar na bandeja que seguro contra o corpo. O gesto é calculado. Instintivamente, recuo um passo.
— Eu trabalho com regras, senhorita Kang — diz, a voz baixa e firme. — Um atraso, por menor que seja, interfere no meu cronograma. E quando isso acontece… as consequências raramente são agradáveis.
Seus olhos se fixam nos meus, frios e atentos, como se estivessem me medindo.
— Sugiro que tenha isso em mente daqui pra frente — completa. — Pontualidade não é opcional aqui.
Engulo em seco e assinto. Só quando ele se afasta percebo que estava prendendo a respiração. O ar entra de uma vez, pesado, junto com a constatação que aperta meu peito. Ele não é apenas diferente — é praticamente o oposto do Jong Wook que eu conheço. Do Jong Wook por quem me apaixonei. Como isso é possível?
Em silêncio, sigo seus passos até uma mesa metálica no centro da sala. Ele indica a cadeira com um gesto breve. Obedeço, me sentando. Coloco a bandeja sobre a superfície fria, o metal gelado contrastando com o vazio que se forma dentro de mim. Assim que abro o recipiente, o cheiro da comida me atinge com força, me fazendo fechar os olhos. Meu estômago ronca, quase dolorido. Eu não fazia ideia de quanta fome estava sentindo… até agora.
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PARADOXO
Science FictionKang Yoo Nah é uma jovem estudante da Coreia do Sul, que tem vivido com amigos da família desde que seu pai desapareceu sem deixar vestígios. O problema é que Yoo Nah não vê o filho da sua tutora como irmão, e precisa esconder isso. Mas sua vida se...
