Capítulo Cinco - Amigo

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  Fico revirando a pequena pedra negra do meu colar entre os dedos, sentindo sua superfície fria e levemente áspera. Um hábito que carrego desde pequena, sempre que o sono não vem. Lembro-me claramente do dia em que meu pai me deu essa pedra, anos atrás, com um sorriso sereno e palavras que, até hoje, ecoam na minha memória.

  — Ela veio mesmo do espaço, papai? — perguntei, os olhos brilhando de empolgação.

  Enquanto isso, meu pai ajustava cuidadosamente o nó, garantindo que a pedra ficasse bem presa ao cordão, para que nada pudesse soltá-la.

  — Sim, Yoo Nah, não é incrível? Aqui está. — Ele segurou o cordão aberto diante de mim, e eu, sem pensar duas vezes, enfiei a cabeça por dentro, sentindo a pedra tocar meu peito.

  — Wuaaa! É lindo! — exclamei, maravilhada, deslizando os dedos pela superfície irregular da pedra, que na minha infância me lembrava uma uva passa gigante.

  — Que bom que gostou, estrelinha. Essa pedra é muito importante para o papai, então cuide bem dela — disse, com a voz suave, quase reverente, como se compartilhasse um segredo antigo.

  — Você também tem uma? — perguntei, curiosa.

  — Sim, mas a minha é enorme! — respondeu, gesticulando com as mãos de um jeito que sempre fazia minha imaginação disparar quando ele contava histórias. — Eu tive que escavar um meteoro gigante para conseguir extraí-la!

  — Extra... o quê? — perguntei, franzindo a testa, confusa.

  Ele riu, um riso caloroso que encheu o quarto, envolvendo-me em conforto.

  — Ah, estrelinha… outra hora o papai te explica. — E, com delicadeza, me deu um beijo de boa noite na testa antes de sair, deixando um calor suave e reconfortante no meu coração.

  Desde então, nunca mais tirei o colar, nem depois que ele se foi. Sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto, enquanto a mesma pergunta de sempre volta a rondar minha mente: Onde você está, papai?

  * * *

  Minha cabeça dói. Não sei dizer se estou dormindo ou acordada, mas a sensação é turva, como se eu estivesse presa entre os dois. Tudo parece um sonho — e, ao mesmo tempo, real demais.

  No meio dessa névoa, vejo Choi Sang Hoon. Por que estou sonhando com ele?

  O cenário é estranho. Ele veste um jaleco branco, muito parecido com os de médicos, e há um vidro espesso nos separando. Um daqueles vidros frios, clínicos, que parecem existir mais para impedir do que para proteger.

  Dou alguns passos à frente e apoio as mãos na superfície transparente, tentando sentir sua textura. É então que algo me chama a atenção.

  Minhas mãos... estão cobertas por luvas pretas. Idênticas às luvas do professor Choi. Meu coração dá um pequeno salto, e eu as encaro por alguns segundos, confusa.

  Instintivamente, ergo o olhar para ele — mais precisamente, para suas mãos. E o choque vem em seguida.

  Ele não está usando luvas.

  Um arrepio percorre minha espinha. A cena não faz sentido algum. Tudo parece fora do lugar, deslocado, como se as peças tivessem sido trocadas de propósito.

  Que tipo de sonho estranho é esse?

  Abro os olhos de repente e me sento na cama, o peito subindo e descendo rápido demais. O quarto está escuro, silencioso, mas o sonho permanece nítido na minha mente, fresco demais para ser ignorado.

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