"Escreva sua autobiografia."
Leio a frase duas vezes, piscando lentamente. A ordem escrita na lousa é clara, simples para qualquer um. Mas não para mim. Autobiografia. Um relato sobre a minha vida. Justamente a última coisa que eu gostaria de fazer.
— Aish, isso é uma droga! — Bagunço o cabelo, percebendo tarde demais que pensei em voz alta.
— Qual é o problema, Yoo Nah?
Viro o rosto e vejo Kim Na Bi caminhando em direção à minha mesa. Suspiro, já antecipando o que vem a seguir. Assim que se aproxima o suficiente, a garota alta bate a mão com força sobre minha mesa, numa tentativa clara de intimidação. No mesmo instante, as conversas ao redor cessam.
Ótimo. Plateia formada para o pequeno espetáculo.
— O quê? Sua vida é muito impressionante para caber numa redação escolar? — provoca, voltando-se para a sala, arrancando risadinhas cúmplices.
Tento ignorar, mas Na Bi bate na mesa outra vez. Ergo o olhar, impaciente, e encontro o sorriso satisfeito em seu rosto. Uma de suas amigas se aproxima e entra na conversa:
— Pobre Yoo Nah… Boa demais para esta escola. Deve ser um verdadeiro insulto ter que estudar com pessoas que não estão à altura dela. — A garota para diante de nós, cruza os braços e inclina levemente a cabeça, como se aguardasse alguma reação.
Deve ser por hábito. Ela sabe que não vou reagir.
Volto a escrever, fingindo indiferença. Na Bi arranca a caneta da minha mão e a arremessa para longe.
— Ia! — escapa de mim, e o sorriso dela se alarga, já que esse é o mais longe que eu sempre vou.
Depois de concluir que me irritou o bastante, a garota alta de cabelos pretos e sedosos desfila de volta para o seu lugar, arrancando alguns assobios dos garotos da sala. Eles se divertem com tudo o que ela faz. Afinal, ela é bonita, e isso parece bastar.
Minutos depois, a professora retorna, e a sala lentamente volta ao normal. Respiro fundo. Não pelas provocações — a isso eu já estou acostumada —, mas porque ainda preciso escrever aquela maldita autobiografia. Aish.
Encaro a folha em branco, pensativa. Na verdade, eu gosto... ou melhor, amo escrever. Mas não sou do tipo que relata fatos, prefiro inventá-los. Sorrio ao me lembrar da minha última história. Já estou com saudades de Min Hee e Sang Hoon...
— Essa redação é para hoje, então se apressem — avisa a professora, puxando-me de volta à realidade.
Certo. Concentre-se.
“Meu nome é Kang Yoo Nah. Tenho 18 anos e sou aluna do Renowned School. Quando me formar, pretendo cursar literatura. Ainda não escolhi uma universidade, mas gostaria de estudar fora do país, já que faz tempo desde a última vez que saí da Coreia.”
Paro. Leio novamente e faço uma careta. Isso parece mais uma apresentação formal do que uma autobiografia, penso, decepcionada.
O papel diante de mim parece zombar da minha hesitação. O quê? Acha que eu não consigo? Você vai ver!
"Quando eu era pequena, amava viajar com meu pai. Ele era apaixonado pelo trabalho como cientista espacial. Não, ele não trabalhava na NASA — embora bem que pudesse. Mas viva explorando o céu e me ensinando a enxergar a beleza em tudo o que estudava.
Infelizmente, nosso tempo juntos não durou muito. Eu o perdi quando tinha treze anos. Ele não morreu… pelo menos, não há um corpo que comprove isso. Tudo o que sei é que embarcou em uma viagem a trabalho e nunca mais voltou. Ninguém o viu novamente. Ninguém conseguiu encontrá-lo. E, depois de muito tempo… bem, você sabe o que acontece."
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PARADOXO
Fiksi IlmiahKang Yoo Nah é uma jovem estudante da Coreia do Sul, que tem vivido com amigos da família desde que seu pai desapareceu sem deixar vestígios. O problema é que Yoo Nah não vê o filho da sua tutora como irmão, e precisa esconder isso. Mas sua vida se...
