Capítulo Doze - A matéria

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  Agora sim, vou acordar.

  Abro os olhos, certa de que, dessa vez, verei o teto familiar do meu quarto. Demora alguns segundos até minha visão focar, mas as luzes claras demais já entregam a verdade antes mesmo que meu cérebro aceite: Não estou no meu quarto.

  O teto é branco, tomado por lâmpadas embutidas. As paredes também são brancas. Não há janelas. O ar parece… controlado demais. Um arrepio percorre minha espinha. Será que me levaram para um hospício?

  Me sento na cama com esforço, sentindo o corpo pesado, mole, como se cada músculo tivesse sido drenado de energia. O que fizeram comigo? Não há absolutamente nada no quarto além de uma cama, uma mesinha e uma cadeira. Nenhuma porta. Nenhuma saída visível.
E é isso que faz o pânico ameaçar explodir dentro do meu peito.

  — Ottokeee?* (O que eu faço?) — choramingo, apoiando a testa nas mãos.

  Então percebo. Algo está errado com elas. Minhas mãos estão cobertas por uma fina camada emborrachada preta, aderida à pele como uma segunda epiderme. Prendo a respiração e começo a girá-las diante dos olhos, analisando cada detalhe.

  Meu coração dispara.

  São as luvas do meu sonho!

  — Então foi isso que aconteceu… — sussurro, enquanto o quebra-cabeça de memórias começa, enfim, a se encaixar. — O futuro do qual eu estava me lembrando não era o meu tempo… era este.

  E se já estou vivendo isso, então significa que...

  Uma das paredes se acende de repente, interrompendo meus pensamentos. Fico imóvel, observando enquanto a superfície branca se transforma em algo parecido com uma tela gigantesca. Dou alguns passos à frente, intrigada, até que ela se dissolve diante dos meus olhos, tornando-se um vidro transparente.

  Do outro lado, há pessoas. E o que vejo não me surpreende nem um pouco.

  Eu já havia deduzido.

  De acordo com o sonho, foi aqui que Jong Wook me conheceu. E é por isso que ele está do outro lado do vidro neste exato momento.

  O cabelo negro está um pouco mais curto, perfeitamente alinhado. Ele veste um terno elegante da mesma cor, nada parecido com as roupas rasgadas da primeira vez que o vi. Seus olhos escuros me observam com curiosidade, quase fascinados — mas é só isso. Não há reconhecimento neles, nenhum lampejo, nenhuma reação além daquela observação distante, como se nunca tivesse me visto.

  E, de fato... ele nunca me viu, não é?

  Esse Jong Wook ainda não me conhece.

  Mesmo assim, aproximo-me do vidro e pressiono as mãos contra ele, como se assim pudesse alcançá-lo.

  — Sou eu! Yoo Nah! — grito, desesperada, tentando forçar minhas lembranças a entrarem nele.

  Mas ele apenas se vira, indiferente, e começa a conversar com um ahjussi* (senhor) que acaba de entrar. Não é possível ouvir nada. Acho que ele também não me ouviu.

  Aguardo pacientemente até que a conversa termine. Então o ahjussi se volta para mim, exibindo um sorriso largo. Ele toca algumas vezes o que parece ser um relógio tecnológico preso ao pulso, e o som finalmente se ativa.

  — Annyeonghaseyo. Meu nome é Kim Dong Man. Qual é o seu nome?

  Seguro o impulso de gritar outra vez. Preciso entender o que está acontecendo.

  — Kang Yoo Nah — respondo, sem sorrir.

  — Bem-vinda ao futuro, Kang Yoo Nah.

  Arregalo os olhos.

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