Capítulo XXIII

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 Thomas entrou na cozinha e avistou Elise recostada contra a parede de azulejos, os braços cruzados, o olhar distante. Colocando a chaleira sobre o fogo, ele soltou sem rodeios:

— Está me seguindo?

— Jamais. Por quê? - disse preguiçosamente se reencostando em uma das paredes 

— Tem feito isso nos últimos dias.

— Sério? — respondeu ela com ironia. — Você é quem parece me cercar em todos os eventos.

Apesar do rubor em suas bochechas, manteve o tom debochado:

— Só queria garantir à sua irmã que não correria atrás da senhorita Agatha.

— Eu jamais transformaria aquela mulher em minha esposa. Por mais insistente que meu pai tenha sido... e agora, com as revelações, creio que não precisarei me preocupar com ela.

— Revelações? — arqueou uma sobrancelha, sorrindo. — Sua irmã é uma excelente fofoqueira.

— De fato — disse ele, rindo. — Como foi o piquenique?

A pergunta fez o coração de Elise tropeçar.

— Foi... divertido. Bom, enfim conversar com ele sem cochichos a cada passo.

— Foram até o campo de crisântemos?

— Como sabe disso?

— Ele me perguntou o que você preferia além dos livros. Notei o quanto aprecia flores.

— Foi uma ótima escolha de lugar — murmurou. Então foi Thomas quem sugeriu... Ela se sentiu corar ainda mais.

— Sou apenas um observador, Elise — disse, ao pegar uma xícara de porcelana no armário.

— Ainda em busca do amor? — escapou dos lábios dela antes que pudesse evitar. Por que eu perguntei isso?

— Essa busca tem sido difícil.

— Me lembro de você ter dito... que é difícil quando se ama alguém.

Thomas parou, ficou tenso. Por um instante, sequer respirou.

— Eu não disse isso.

— Me lembro perfeitamente das suas palavras, Thomas.

— Deveria se concentrar no seu noivado em vez de levar minhas palavras tão a sério.

Aquela resposta a feriu como um corte.

— E você deveria parar de gritar com sua irmã por sentimentos que não consegue encarar. Ou talvez apenas... deixar de ser tão grosseiro — retrucou, irritada.

Thomas se virou, lentamente.

— Você está certa. Parece mesmo invisível. Ouviu toda a nossa conversa no dia do seu desmaio.

— Eu não me lembro. E como você mesmo disse, talvez eu devesse focar no meu maravilhoso casamento em vez de perder tempo tentando ajudar os outros.

Ela se virou e saiu — as palavras tão duras que soaram estranhas até para ela. Caminhou até o jardim, guiada pelos próprios passos até o início de tudo: o labirinto. Reconheceu o caminho pelas flores, pelo aroma, pela memória do chafariz. As borboletas dançavam entre os arbustos, indiferentes à turbulência humana. Elise sentou-se num banco e permaneceu ali até o entardecer, antes de voltar para seu quarto.

Mas, ao abrir a porta, parou surpresa.

Thomas estava lá, diante da janela, de costas.

— O que está fazendo aqui?

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