Capítulo XXVI

16 0 0
                                        

Após longos minutos contemplando a mesma fotografia, Elise ajeitou os objetos em seu devido lugar e caminhou lentamente até a porta. Abriu-a com cautela e, pela fresta, sondou o corredor. Nada além de silêncio.

Bateu então à porta do escritório e ouviu a voz grave do duque:

— Entre!

Ao adentrar o cômodo, encontrou Vossa Graça sentado em sua poltrona habitual, imerso em uma pilha de papéis.

— Vossa Graça desejava falar comigo?

— Ah, Elise. Estávamos à sua procura. Fui até o seu quarto, mas não a encontrei.

— Eu... estava na biblioteca.

— Sem problemas. Mas já deveria estar descansando. Sente-se, por favor. — Seu tom estava mais ameno, distante da tensão de antes.

Ela se acomodou diante dele, tentando parecer animada. Na verdade, estava — mas de forma inquieta.

— Gostaria de conversar sobre os preparativos do casamento — disse ele.

— Claro... — murmurou, forçando um sorriso.

— Imagino que preferisse algo mais íntimo e familiar, estou certo?

— Sim, senhor.

— Mas, considerando o alvoroço em torno da notícia... seria quase um escândalo não abrir as portas a uma multidão de curiosos. — A palavra "curiosos" parecia pesar-lhe nos lábios; a raiva ainda devia arder sob a superfície.

— Já imaginava que seria algo grandioso, Vossa Graça. Sinceramente, nunca considerei uma cerimônia discreta.

— Ainda temos uma lista extensa de tarefas: documentos, convidados, menu, orquestra, vestido, decoração... Minha esposa conhece esses temas melhor que eu, mas acredito que vocês conseguirão resolver tudo...

Elise já vislumbrava o caos à frente. Como havia deixado passar tantos detalhes? Ela, sempre tão metódica. Mas ultimamente andava distraída demais — perdida em boatos, silêncios e sentimentos difusos.

O estalar de dedos do duque a trouxe de volta à realidade.

— Está bem, minha querida? Talvez essa conversa devesse esperar.

— Estou bem, Vossa Graça. Apenas percebi quanto deixei de lado.

— Sei que se casar agora — ainda mais com meu filho — não fazia parte dos seus planos. Mas ainda assim... tenho esperança de que vocês façam bem um ao outro. Quem sabe... até se apaixonem. Assim como...

Ele pigarreou, mas não concluiu. Não precisava. Ela compreendia o que ele queria dizer. A diferença era que ele não amava outra pessoa. Já ela...

Ao abrir a porta, parou por um instante e disse:

— Seu amor por sua esposa é admirável. Uma das minhas citações preferidas de Shakespeare diz: "O amor só é amor se não se dobra a obstáculos, nem se curva às vicissitudes... é uma marca eterna, que sofre tempestades sem jamais se abalar."

E então saiu. Cada passo de volta ao quarto era uma confirmação: ela não conseguiria amar James. Por mais encantador que fosse, seu coração já era de outro.

Para Elise, o amor não era um gesto. Era sensação. Era estar inteira — e vulnerável. O amor vinha com a alegria, mas também com o medo, com a dor e os silêncios pesados. A vida não era um conto de fadas, e ninguém era feito apenas de sorrisos. Havia lágrimas escondidas, vazios camuflados, e solidões que nem mesmo a companhia alheia preenchia.

Mas quando se ama, há paz. Os fantasmas se recolhem, mesmo que temporariamente, e há um motivo para continuar. Ainda assim, Elise sabia: não se deve depender de alguém para ser feliz. A felicidade precisa ser sua — antes de ser compartilhada. O amor verdadeiro nasce entre dois inteiros. E mesmo que dure pouco, se for sincero, será eterno na memória.

A Proposta (EM EDIÇÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora