36. Sacrifício

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"O ato de amor mais puro e verdadeiro, sempre será estar disposto a abrir mão da própria vida com o único objetivo de garantir a segurança daqueles que se ama."

Soraya Tronicke:

As crianças se assustaram após o barulho do tiro, pulando. Meu coração estava batendo tão forte que por um momento quase parou.

Imediatamente olhei para Simone, procurando qualquer sinal de dor em sua expressão, mas ela estava de pé, sem nenhum ferimento aparente. Respirei aliviada.

Graças a Deus!

Simone abriu os olhos, também olhando para os lados assustada, observando logo depois onde a bala se alojou. O tiro foi na direção do sofá.

— Espero que isso as tenha lembrado de quem manda aqui. — o homem disse abaixando a arma. — Da próxima vez que não me obedecerem, o tiro será diretamente na cabeça de uma das quatro.

— Mãe, eu tô com medo. Que barulho alto foi esse?

Simone refutou por alguns segundos, mas se abaixou ficando do tamanho da filha. Logo depois me olhou de uma forma diferente. Ela parecia estar com alguma ideia em mente, e eu temi por isso, já que Flávio estava com a arma em punhos, e qualquer movimento em falso seria arriscado demais.

Disfarçadamente e quase inaudível, Simone sussurrou para Maria Fernanda:

— Lembra da passagem secreta, filha? Nós costumávamos brincar com a sua irmã naquele local. Faz parte do jogo encontrar essa passagem. — Maria Fernanda fez que sim com a cabeça. — Lá é seguro. Quando eu falar, preciso que vá…

— Saia daí agora e pare de cochichar com a pirralha! — gritou a interrompendo e Maria Fernanda se alarmou, mas Simone novamente tapou seus ouvidos e se levantou.

— Adriano, vasculhe a mansão, e marque os pontos que há objetos de mais valor, como combinamos ontem. — disse ao seu capanga, que nos observava de longe.

— Sim, chefe.

Todos nós estávamos apreensivos.

Já Flávio passeava na sala de estar, mexia em alguns objetos e sorria na maioria das vezes.

— Irei lucrar demais. Essa loira vadia me trouxe á uma mina de ouro.

Simone trincou o maxilar e fez menção de dar um passo à frente, mas segurei seu braço.

— Não faça isso. Deixe ele falar. — disse, tentando conter de alguma forma Simone, para que ela não reagisse às suas provocações. Isso seria péssimo para nós.

— Visto que Adriano e Iago estão demorando, nessa mansão há coisas de muito valor mesmo. Faremos uma festa…

De repente tudo aconteceu rápido demais.

Aproveitando a distração do homem, assim que Flávio virou levemente o corpo, Simone correu e se jogou em cima dele, os derrubando no chão antes de que eu pudesse impedi-la.

Eles se engalfinharam, Simone aparentemente dando tudo de si para que o homem permanecesse no chão, mas ele claramente era mais forte e o revólver ainda estava em uma de suaa mãos, a qual Simone prensava no chão e tentava retirar a todo custo o material metálico.

— Corra para o meu quarto e use a senha, Maria Fernanda! Rápido! — Simone gritou.

Eu estava desesperada, sem saber o que fazer, mas ver Simone lutando contra o homem me deu coragem para reagir e não tornar seu esforço em vão. Corri até as crianças, retirando suas vendas o mais rápido possível e reforçando o que Simone disse. Não tínhamos tempo, o tal Adriano poderia voltar a qualquer momento.

Assim que me assegurei que as meninas tinham corrido, tentei voltar para trás e ajudar Simone, mas o que ouvi em seguida me fez estancar no lugar em um pulo.

Outro tiro foi disparado, fazendo eco em meus ouvidos, e dessa vez, a arma estava no meio dos dois corpos deitados no chão, Simone por cima.

Meu coração parou quando vi a morena caindo para o lado, as mãos prensando um ponto específico da barriga e seu lindo rosto contorcido em aparente dor.

Tudo parecia girar e eu não conseguia me mecher, era como se meus pés estivessem colados no chão.

— Vá, Soraya! — a voz de Simone saiu abafada, com grande dificuldade.

Não, eu não quero, eu não posso deixá-la sozinha, isso não...

Até mesmo meus pensamentos cessaram quando vi de soslaio Flávio fazendo menção em se levantar com a arma ainda na mão.

— Corra! — a voz de Simone ecoou novamente.

Finalmente meu corpo pareceu ganhar adrenalina novamente e movida quase que mecanicamente, corri. Tudo era borrão em minha volta e quando dei por mim, já estava ao lado duas crianças correndo pela mansão…

— O que foi aquele barulho, tia Soraya?

— Onde é a sala secreta que sua mãe mencionou? — perguntei esbaforida enquanto corríamos, ignorando a pergunta de Maria Fernanda.

Eu não podia dizer isso agora a elas. Só tinha que mantê-las seguras enquanto rezava para Simone aguentar firme até que eu possa de alguma forma voltar para ajudá-la.

— É dentro do quarto dela.

Merda!

É na direção oposta que estávamos.

Tentei cortar caminho, mas há cerca de vinte metros de nós avistei um dos capangas de Flávio parado em nossa frente. O tiro deve ter o alertado.

— Quem é aquele homem, mamãe?

Ignorei a pergunta de minha filha também e peguei na mão das duas, indo em direção oposta, mas antes me virei para ver se ele corria em nosso encalço. O homem estava sorrindo e andando tranquilamente, ele sabia que não tínhamos para onde correr.

A culpa é minha de ter deixado isso acontecer. É tudo por causa da dívida de Carlos César.

Aqueles pensamentos vinham e iam em minha mente, mas logo tratei de afastá-los, não posso pensar nisso agora, tenho que proteger as crianças, Simone se colocou em perigo por nós.

Simone…

Não paro de pensar no barulho ensurdecedor do tiro que ouvi, o zunido em meu ouvido... estou morrendo por não saber se pegou em um local sério, se ela está bem, se ainda está respirando...

Preciso pensar em algo, e rápido.

Entramos no quarto de Simone, e rapidamente tranquei a porta.

— Onde fica a passagem, Mafê? — perguntei já no quarto.

— Ah, é aqui!

Esse é o local que entrei há vários dias atrás, onde Simone trabalhava em seus projetos, só que naquele dia mal reparei que era necessário uma senha para entrar.

— A senha é o dia e o mês do aniversário da minha mãe. Acho que é 22-02.

Tentei desesperadamente usar essa senha, mas ela não deu certo.

Que merda!

Ela deve ter mudado.

— Se lembra de mais alguma senha que ela poderia colocar, Maria Fernanda?

— Não. Eu só me lembro dessa, Soraya!

— Eu vou achar vocês... — um dos capangas cantarolava, provavelmente no corredor, pela distância de sua voz.

— Faz parte da brincadeira, mamãe?

Não respondi novamente, estava concentrada.

Pense, pense, pense!

— Vamos tentar o contrário.

Digitei 02-22. Instantaneamente a porta se abriu e eu suspirei aliviada.

Pelo menos por agora estamos salvas.

THE LOST - Simone & Soraya.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora