"Um amigo de verdade aparece na hora certa, não com palavras suaves, mas sim com verdades que muitas vezes não temos coragem de admitir."
Simone Tebet:
Os dias passaram e volta e meia eu discutia com Soraya.
Nos primeiros dias eu não tinha forças nem para brigar com ela, mas desde que ela passou a me obrigar a fazer as atividades, isso mudou.
Eu não sou idiota, posso ver que ela está dando tudo que pode, e arrisco dizer que até o que não pode. Não posso negar que tenho sentido medo de Soraya estar sacrificando sua própria saúde para tentar cuidar da minha.
Ambas estávamos no limite, e eu assumo que não estava colaborando muito.
Mas isso são pensamentos para outra hora, porque dessa vez quem está em minha frente é outra pessoa.
— Veio jogar alguma coisa em minha cara também? Pode falar, já estou me acostumando a isso.
Encarei Rodrigo, que me analisava de cima a baixo.
— No fundo eu sei o que está sentindo. — disse calmamente.
— Sabe mesmo? — perguntei em tom de deboche. Ele com certeza não sabia. — Você se lembra de já ter sido espancado ou torturado alguma vez?
— Não, mas eu sei como é se sentir frustrado. No começo não estava te entendendo. Mas eu sou seu amigo, e por mais que não pareça, te conheço melhor do que pensa, então não foi tão difícil adivinhar qual o seu problema.
— Ah é? Então vamos lá, qual o meu problema? — cruzei os braços.
— Você quer se recuperar, mas não consegue. É orgulhosa demais para pedir ajuda, não consegue fazer exercício algum, e isso te mata por dentro. Acho até que tenta fazê-los quando ninguém está por perto, mas desanima rápido porque você tem a necessidade de ver o resultado instantaneamente. Desde que te conheci notei que é uma mulher imediatista em tudo que faz, só que…
Parou, parecendo escolher as palavras certas.
Eu estava com minhas sobrancelhas arqueadas. Como ele sabia de tudo isso?
— Essa batalha da sua vida não será assim. — retomou. — Você precisa ter algo que odeia, e isso se chama paciência. Você não irá andar de um dia para o outro, isso é impossível, Simone. Também não irá melhorar seu humor amanhã, não irá ter forças o suficiente nos braços agora, não irá completar o circuito que foi proposto a você depois de amanhã. Posso listar tantos "não irá" que fariam você desistir de tentar agora.
A maneira com que ele falava estava diferente. Nunca o vi conversando assim, tão sério, logo Rodrigo que era todo sorridente e exageradamente feliz.
— Só você tem o poder de se recuperar. Eu, Soraya, Maria Fernanda, Isabella, Sirlei e outras pessoas que estão te ajudando não podemos fazer nada, no fim das contas. No fundo você sabe que ninguém pode fazer absolutamente nada por você. Só você mesma.
— Olha, Rodrigo…
— Dar forças a alguém que não quer ajuda é a pior coisa do mundo, e por isso estou dizendo que essa batalha depende mais de você. Agora, se quisesse a nossa ajuda seria diferente. Mas você se acostumou tanto a ser "A Simone Tebet", — deu ênfase no "A" — a mulher durona, sem sentimentos, que nunca precisou de ninguém, que isso está acabando com você, te matando aos poucos por dentro.
Engoli em seco.
— Eu não preciso ouvir isso. Você… não sabe o quão é difícil não conseguir fazer essas merdas de exercícios ridiculamente simples! — me enraiveci, porque ele tem razão. Rodrigo está coberto de razão em tudo. Absolutamente a respeito de tudo.
— Você acha que não precisa ouvir, mas vai. — chegou mais perto e colocou uma das mãos em meu ombro esquerdo. — O que eu sei é que se fosse a Simone Nassar Tebet que eu conheci há anos, aquela mulher feliz e gentil que se importava com a família em primeiro lugar, tenho certeza de que ela faria isso não só por si mesma, mas também por suas filhas. E sabe o que é pior? É que você perdeu Maria Eduarda, mas há uma garota aqui que te considera mãe dela, e está chocada por ouvir você gritando com as pessoas que só querem te ajudar. Maria Fernanda então… eu realmente não sei se ela terá a mãe novamente.
— O que você está dizendo é muito…
— Grave? Verídico? Sincero? Eu não me importo com o que irá pensar sobre mim após ouvir tudo isso, Simone. Se para melhorar você precisa me detestar, que seja! E olha, preste atenção em mim, a Soraya é boa demais com você… — sua face se tornou mais séria. — Se for para agir desse modo, não enfrentando suas batalhas de frente, eu vou te dizer a verdade agora: você não a merece!
Ficamos por alguns segundos nos encarando, mas voz alguma saia da minha boca pra respondê-lo. Falaria o quê, afinal? Ele mais uma vez estava certo.
— Ela te ama. — seu indicador tocou forte em meu ombro, fazendo voltar minhas atenções a ele. — Aquela mulher que está na porra daquela cozinha indo de um lado para o outro, correndo atrás de outros fisioterapeutas, ligando para psicólogos para tratar de você e dos seus funcionários que entraram em choque, cuidando das crianças, chorando todos os dias por não conseguir te ajudar, lidando com o fato de que o pai de Isabella morreu por mexer com coisas erradas, se culpando por você ter sido torturada… sabe, essa mulher te ama e está fazendo tudo sozinha! TUDO! E sabe o que você está fazendo? Nada. — balançou a cabeça, contrariado.
— Quer dizer, engano meu, você está sim, Simone. Está fazendo a porra de tudo ao contrário, a levando ao limite e acabando com Soraya! É isso mesmo que quer? Quer ser um fardo a mais para ela carregar? Porque na minha opinião, não duvido nada que ela consiga, mas e se não? Como vai dormir todas as noites sabendo que nem mesmo a mulher que te ama deu conta de suportar suas birras? E, antes de falar qualquer coisa, ninguém precisou me dizer que ela te ama, eu só preciso observar os olhos dela quando estão perto de você que percebo.
Tentei me conter, mas foi inútil. De repente as palavras pareceram demais para aguentar intacta e eu comecei a tremer, logo depois rompendo em um choro profundo.
Eu não esperava esse choque de realidade, e nem sei como deveria agir. Rodrigo era duro em suas palavras, mas eu até entendia a importância de ser assim. Eu não precisava de mais alguém para sentir pena de mim agora, era exatamente o contrário.
— Eu sinceramente não posso dizer que de fato sinto a sua dor, Simone, pois não foi eu quem perdeu uma parte de si há anos atrás, e não fui eu quem foi torturado aquele dia. Posso apenas tentar imaginar quão difícil é, mas sua atitude de negligência não justifica, por isso não vou passar a mão em sua cabeça. Você tem uma escolha, e acho bom se decidir rápido, pois o tempo está passando, e se não tomar uma atitude, os danos serão irreversíveis. Pare de viver no passado e se preocupe com o presente, senão, minha amiga… você irá se arrepender do futuro que te aguarda.
Soraya Tronicke:
Não faço ideia do que Simone e Rodrigo conversaram há alguns dias atrás, mas nos três dias seguintes Simone se esforçou para fazer os exercícios.
Eu finalmente pude respirar aliviada de novo, estava feliz, animada com sua força de vontade, mas então...
A partir do quarto dia ela mais uma vez se recusou a tentar. Simplesmente isso.
Não fazia sentido.
Eu vi o seu esforço, durante três dias percebi uma Simone compenetrada, séria, dedicada, tentando fazer tudo que era proposto, mas algo a desanimou, e eu logo descobri o que foi: a falta de avanço!
Ela infelizmente estava na mesma, mesmo depois de tanto esforço. Eu vi quando o brilho de esperança em seus olhos foi se esvaindo mais uma vez.
Realmente não sei mais o que faço. Parece que a cada passo para frente, são dois para trás.
Tudo está se tornando muito cansativo, eu a vejo sem esperanças, e quero reanimá-la, mas depois de tanto tentar fazer isso, eu mesma já estou ficando desanimada.
Receio que esteja chegando ao meu limite, assim como Simone está chegando a estaca zero novamente, e me dói saber que ela está assim porque nos ajudou. Me ajudou.
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THE LOST - Simone & Soraya.
RomanceCom qual olhar você encararia a vida se perdesse sua esposa e filha em um acidente de carro? Simone Tebet é uma mulher marcada por uma das piores dores do mundo: a dor de enterrar um filho. Após a grande tragédia em sua família, ela se fechou para t...
