18. Me perdoe

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"Pior que a dor de uma magoa, é magoar a pessoa amada, assistir seu sofrimento e não poder mudar o passado."

Simone Tebet:

Estou em um dos quartos de hóspedes da mansão.

Soraya adormeceu em minha cama, e não achei bom ficar no mesmo quarto que ela.

Ela mexe comigo, e iria observá-la a todo tempo se permanecesse por lá. Não posso ficar a mercê de mulher alguma, e essa aproximação está ficando perigosa demais.

O problema é que a lembrança do corpo de Soraya não sai da minha cabeça. Ela gemendo e tentando se segurar para não gritar nem se fala.

Tenho que pensar em outro assunto, já que não está me ajudando em nada relembrar essa noite "animal" que tivemos.

Ainda são 5h, e não consegui pregar o olho. Se antes achava Soraya gostosa, agora tenho a mais absoluta certeza do que falo. Além de tudo é uma safada...

- Pare de pensar nisso! - me virei, tentando dialogar com meu cérebro que insistia em fazer com que meus pensamentos focassem exclusivamente nela, em seu corpo...

Caralho!

Seu corpo pequeno tão conectado ao meu, seu cheiro, sua boca, a forma que seus pelos se eriçavam quando eu tocava seus pontos mais íntimos...

Essa mulher é perigosa, e quanto mais eu fico perto dela, mais medo eu tenho de que ela consiga despertar sentimentos adormecidos em meu peito.

Preciso parar de pensar nela, amanhã é um novo dia, dia o qual farei aquilo que me propus a fazer desde a tragédia com a minha família.

[...]

Estar aqui é como um ritual para mim.

Visitar esse homem se tornou uma parte da minha vida, a parte que tento esquecer, mas não faço por onde. Falando dessa maneira parece masoquismo, mas é necessário reviver algumas dores, sentir que estou viva de alguma forma por um erro que alguém cometeu.

Sei que não estão entendendo quase nada do que estou falando, e nem precisam se preocupar com os detalhes, só eu sei bem o que passei, o que passo diariamente...

Novamente estou em sua frente, e nem preciso fazer o mínimo de força para um imenso ódio brotar em minha face.

- Como tem passado?

- Acho que sabe. - falou, não me observando diretamente, como me acostumei.

- Sei, e tenho prazer nisso.

Levantou seus olhos pela primeira vez, e logo depois levemente meneou sua cabeça, em desacordo.

- Você nunca irá parar de vir aqui. - falou baixinho.

- Se foi uma pergunta, acho que sabe a resposta. Farei as duas visitas que tenho no mês.

- Eu não quero sua visita! - pela primeira vez gritou, me surpreendendo um pouco.

- Então... você quer ir por esse lado? Já não dei amostras do que sou capaz? - questionei, e logo após o homem mudou o seu semblante.

- Me desculpe.

- Não. Você não sofreu nem a metade do que reservei, e de uma forma ou outra você vai pagar por toda a dor que causou em mim.

- Eu sinto muito. - baixou a cabeça, e percebi uma pequena lágrima descendo pelo seu rosto, lágrima esta que me fez rir no exato momento que a notei.

- É tão bonito te ver chorando. Eu fico até comovida, sabe?

- Simone...

- Não me chame pelo nome! - apontei o indicador em sua direção.

- Eu... sinto muito por tudo.

A raiva que sentia nas repetidas vezes que ele falava palavras assim não pode ser medida.

[...]

Estou encarando a lápide da minha filha há 30 minutos, mas não consigo dizer nada a ela. O que eu poderia falar?

Que sou um monstro e faço as pessoas sofrerem?

Que minha vida não tem mais sentido depois que ela se foi?

Que perdi totalmente o ânimo de viver como uma mulher normal?

- Me perdoe... era eu quem devia estar no seu lugar.

As poucas palavras deram lugar a um choro intenso por alguns minutos. São tantas coisas para serem ditas, só que ninguém está me ouvindo. Fui abandonada por todos, e fiz questão disso.

- Sabe... eu conheci uma menina alegre. Acho que seriam boas amigas, já que você seria praticamente obrigada a passar um tempo com ela. - sorri, enquanto enxugava algumas lágrimas do meu rosto. - Ela se chama Isabella, mas é o oposto de você. Apesar de tudo, eu gosto dela, mesmo ela me atrapalhando um pouco as vezes, não sinto raiva alguma de sua presença.

Recordei-me de Maria Eduarda correndo pela mansão. Geralmente brincávamos de pique-esconde, e devo dizer que tínhamos muito tempo juntas. Esse era mais um pretexto para que eu pudesse passar mais tempo com minhas filhas, já que Maria Fernanda também estava presente.

As duas eram grudadas, e agora vejo claramente o efeito que a morte de Maria Eduarda causou em Maria Fernanda. Ela nunca mais se abriu com ninguém, e ainda não aceita o fato de sua irmã pequena ter morrido.

Maria Eduarda ainda não tinha três anos completos quando Maria Fernanda comemorou seus 5 anos de idade. No momento que ela foi apagar as velas, falei para que minha filha fizesse um pedido, e só depois soprasse as velas. Momento depois nenhuma vela ficou acesa, e ela me observou bastante alegre. Lembro-me até hoje daquele dia...

Flashback ON

- Fez o pedido? - perguntei após todas as velas estarem apagadas.

- Sim, mamãe.

- Que bom, filha.

- Eu pedi para que eu cresça rápido e possa proteger minha irmãzinha de todo mal. Para sempre.

Olhei para Mafê, e senti grande orgulho em ouvir palavras tão profundas e bonitas de uma criança tão pequena.

- Não precisava me falar. Estou orgulhosa por estar pensando em sua irmã.

Alguns segundos depois já estávamos abraçadas. Eu me contive muito para não cair no choro, já que se tratando das minhas filhas me torno uma mulher bem chorona, confesso.

- Posso abraçar vocês também, mamãe? - Madu falou as palavras emboladas, claramente com pequeno ciúme de não ser incluída. Ri e a chamei para perto.

Tenho que agradecer a Deus, já que somos uma família abençoada e feliz...

Flashback OFF

Ao lado do túmulo da minha filha está o dela.

Helena...

Eu realmente não tinha assunto algum com a minha falecida esposa. Essa palavra chega a ser estranha para quem não conhece a minha história.

- Eu não devia ter concordado em enterrá-las uma ao lado da outra. Você não merece a filha que tem!

O que eu conseguia era sentir mais ódio, e essa era minha deixa para sair do cemitério, já que Maria Eduarda não merece tanto ódio em meu coração.

THE LOST - Simone & Soraya.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora