― Você lembra do dia que a Annie bebeu demais? ― Christopher lavava a louça e eu enxugava.
Quase discutimos arduamente por causa disso, mas decidi não levar essa história muito para frente, pois era bem complicado controlar minhas ações com ele tão perto.― Claro, como esqueceria. ― Uma risada escapou dos meus lábios. ― Sua irmã subiu na mesa, ameaçando fazer um espetáculo para todos os rapazes, tudo por sua causa. ― Bati com o pano de louça em seu ombro.
― Não me arrependo de nada ― Christopher gargalhou. ― Ainda bem que me avisaram que ela iria para o quarto com aquele babaca.
― Era um babaca mesmo, mas também... o mais gato da nossa turma. ― Ele parou de lavar o último prato e me encarou por um segundo. ― A Annie ficou chateada com você por uma semana.
― Você sabe o que ele iria fazer com ela?
― Ai, Ucker, sua irmã não era tão inocente assim ― Balancei a cabeça ao mesmo tempo que seus olhos arregalaram. ― A gente tinha vinte anos! Já estava na hora, não acha?
― Bem... ― Ele me entregou o prato, sem concluir a frase.
― Engraçado que você não reclamou quando nós dois fomos para o bendito quarto. ― Merda! A coragem da bebida às vezes é fogo.
Mantive meus olhos grudados na louça, sem desviar por um segundo sequer. Comecei a deslizar o pano nas bordas, fazendo de conta que era a tarefa mais importante do mundo. Por que tinha que mencionar isso de novo? Um silêncio esquisito se instaurou na cozinha, enquanto lembrava que eu era completamente inocente quando cheguei na cidade, o oposto da Anahí.
― Foi uma situação diferente, Dulce ― Christopher pronunciou assim que tentei guardar os pratos no armário.
Na ponta do pé, com uma certa dificuldade, busquei realizar a tarefa. Então, senti o corpo do rapaz quase encostando no meu, nossos dedos se roçaram quando ele pegou a louça da minha mão. O contato elétrico percorreu minha pele, deixando um formigamento sutil. Eu virei o meu tronco, na intenção de me afastar, entretanto, engoli em seco assim que nossos olhos se encontraram.― Como assim diferente? ― Inspirei o ar, nervosa.
― Porque ao contrário do babaca da turma de vocês que ficou a festa toda se vangloriando que aquela noite "traçaria" a garota mais popular, dentre outras coisas mais chulas, no nosso caso, não foi algo premeditado.
Não mesmo, pensei em seguida. Christopher havia ficado tão puto com o garoto que expulsou todo mundo da casa dos pais. Para acalmar os ânimos, subimos para o tal quarto. Tinha um mês que namorávamos.― Aconteceu de um modo natural ― Ele afagou minha bochecha temeroso.
Encurralada entre a pia e seu corpo viril, inclinei a cabeça, apreciando seu gesto. Então, senti que a sua boca parecia muito próxima. Esperando por um contato, fechei os olhos.― Droga! ― Annie resmungou ao mesmo tempo que ouvimos um barulho.
A loira acabava de tropeçar na mesinha perto do sofá.― Foi mal, finjam que eu não estou aqui. ― Ela rapidamente saiu da sala e depois escutamos o barulho da porta do seu quarto bater.
Atônita, eu ainda processava as cenas. Desviei o olhar, o rosto do Christopher não tinha recuado um milímetro.― Agora tudo isso faz parte do passado ― conclui nossa conversa anterior.
Reunindo um pouco de coragem, eu me afastei de seus braços. Com as mãos trêmulas, entrei no meu dormitório, suspirei cansada, constatando que precisava manter distância desse homem.***
― Então, ontem à noite? ― Anahí me encarou sugestiva. ― Algo que eu deva saber?
Peguei o pote de maçã picada, colocando na mochila do Matheus.
― Nada, não aconteceu nada ― respondi enfezada.
― Se eu chegasse cinco minutos depois... ― ela disse inconformada.
― Anda, Mati! Vamos nos atrasar desse jeito. ― Elevei um pouco a voz enquanto olhava meu relógio de pulso.
― Se você chegasse cinco minutos depois, eu teria cometido o segundo maior erro da minha vida ― sussurrei para a minha melhor amiga.
― Isso é apenas da boca para fora! Porque você continua cometendo o primeiro, ainda é apaixonada pelo meu irmãozinho. ― Ela sorriu levantando as sobrancelhas.
― Bom dia, meninas. ― Christopher apareceu assim que eu resmungava algo para a loira.
― Bom dia, dormiu bem? ― Annie perguntou para amenizar o clima.
― Matheus, já está pronto? ― Saí da cozinha indo atrás do garotinho.
Três minutos depois, caminhei para a sala segurando a mão dele, faltava somente o sapato.― Espero que tenha um ótimo dia ― Annie mencionou bagunçando os cabelos do menino.
― Hoje vai ser o melhor dia! ― Mati respondeu eufórico, calçando o tênis.
― É mesmo? ― Ela se abaixou para ficar do tamanho dele. ― A tia pode saber o motivo?
― Temos aula de música após o recreio.
― Que legal! Por que não fazemos um karaokê no fim de semana? Aí você canta comigo ― Anahí perguntou animada.
― O que é isso? ― Ele me olhou confuso.
― Lembra daquela vez que a gente usou aquele microfone especial? E apareceu as letrinhas para acompanhar? ― O garotinho balançou a cabeça. ― Isso é karaokê.
― Então, combinado. ― Matheus sorriu, formando duas covinhas em sua bochecha. ― Ah, mas o tio Ucker pode participar também? ― Ele apontou para o homem que tomava café em pé na cozinha.
― Eu? ― Christopher pronunciou sem entender.
― É, se não elas vão cantar aquelas músicas melosas.
― Matheus, ele deve ter outras coisas para fazer, querido. ― Peguei a sua mochila de super-herói e coloquei nas costas do garotinho.
― Na verdade, eu ia visitar a mamãe só, estou livre o resto do dia. Hey, por que não fazemos o karaokê lá na casa do papai?
― Ótima ideia! ― Anahí se levantou ficando de frente para mim. ― Como nos velhos tempos. ― Seu tom malicioso não passou despercebido.
― Diz que sim! Diz que sim! ― Mati começou a pular me encarando.
― Tá bom, agora vamos que desse jeito perderá a primeira aula.
― O Ucker leva vocês, melhor não se atrasar, pois ouvi que o seu chefe é muito bravo ― Annie declarou divertida.
― Que mentira! Ele não é nada disso. ― Devolvi entrando na brincadeira.
― Deixa eu buscar a minha pasta... ― Christopher se virou, porém, em seguida, retornou. ― E para a informação de vocês, posso ser muito mau. ― Sua sobrancelha levantou ao me fitar.
Soltei o ar ao mesmo tempo que ele foi em direção ao quarto, minha mente imaginando várias coisas obscenas.― Nossa, muito obrigada, Anahí! ― resmunguei para a loira.
― De nada, disponha amiga. ― Ela piscou para mim, saindo do meu campo de visão.
Inferno! Concluí segundos depois que manter uma distância entre nós dois seria uma tarefa complicada, pois parecia que a cada dez passos para longe, eu dava outros vinte para perto dele.
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Anahí, por quêêê!? Espero que nesse karaokê nos ajude... E Dulce, para de negar que gosta do homem, tá mais claro que água cristalina. (Vou tentar colocar isso na cabeça dela!! )
Beeijos amores, até quinta ;*
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Coração Ferido
Fanfic|+16| Há seis anos, Dulce e Christopher se entregaram a um amor avassalador, uma paixão desenfreada os consumiu, apaixonaram-se perdidamente. No entanto, quando o rapaz recebe uma proposta irrecusável de estudar e estagiar no exterior, o relacioname...