24| Realidade

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   Cocei os olhos, despertando, a luz suave da manhã penetrava pelas frestas da cortina, preenchendo o cômodo com uma luminosidade dourada. Observei Christopher dormir sereno, o cobertor revelava parte do seu peito desnudo enquanto uma mão descansava sob o meu corpo. Um sorriso involuntário se desenhou nos meus lábios, lembrando de alguns flashes da noite passada. Ele traçou um caminho de beijos do meu pescoço até o ventre, dedicando sua atenção a essa parte, como um jardineiro meticuloso que preparava o solo para plantar, sua boca macia deixou um rastro de carinho na minha pele, fazendo-me sentir amada e desejada. Cada carícia era a jura do nosso amor, à ideia de construir uma família juntos, um gesto de ternura, fortalecendo os laços que nos uniam.

Suspirei, ainda não acreditando, pois definitivamente tínhamos dado um passo grande na nossa relação. Com cuidado saí da cama, vesti o robe, precisava ocupar a cabeça senão iria enlouquecer imaginando tantas coisas para o futuro. Peguei o celular, à procura de uma faculdade de Artes, animada pelo conselho do Ucker em retomar os estudos. Fitando a tela concentrada, dei um pulo de susto quando a campainha ecoou pelo ambiente.

― Já vai! ― Gritei ao mesmo tempo que me levantava do sofá, calcei a sandália para caminhar até a porta. ― Pois não? ― respondi assim que avistei uma mulher loira, alta, de corpo esguio no batente.

Hi! Seus olhos azuis me encararam inseguros. 

I'm looking for my fiancé.

Your fiancé? I think you knocked on the wrong door.

Baby... ― Ela passou por mim, encontrando Christopher no meio da sala.

Minha boca quase foi ao chão pelo espanto, não, não, isso não tá acontecendo! Enquanto o rapaz perguntava como a moça chegou ali, meus olhos se arregalaram surpresos, ela informou que pegou o endereço com o assistente dele.

― Noiva!? ― vociferei exaltada.

― Dulce, me deixa explicar. ― Ele tentou vir na minha direção.

Balancei a cabeça, levando as mãos na testa, uma raiva começou a ferver dentro de mim. Bufando, eu me movi para fora do apartamento, desci os degraus correndo e parei no hall. Busquei pelo ar com a impressão de que meus pulmões falhariam a qualquer instante.

― Dul...

― Não me segue! ― falei alterada. ― Eu sou uma idiota mesmo, você também prometeu as mesmas coisas para ela? Casar? Filhos? Meu Deus! ― disse inconformada pela minha imbecilidade.

Os sinais estavam bem na frente do meu nariz, preferi ignorar completamente aquelas ligações que o rapaz sempre saía para atender, muito burra! A realidade acabava de bater na minha porta, todo o meu faz de conta indo para o ralo... Fitando-o, as lágrimas quase escorreram pelo meu rosto.

― Isso foi há muito tempo.

― Engraçado, não é o que aquela mulher pensa ― retruquei irônica.

― Nós temos umas pendências para acertar, não imaginei que ela viria até aqui.

― Poupa sua saliva, Christopher, não me interessa os motivos ― exclamei indiferente. ― Noiva? Sério? ― declarei em um sussurro, por não acreditar.

― Eu tentei te esquecer, Dulce. ― Ucker enfiou as mãos no bolso do moletom. ― Foi um grande erro, não consegui. ― Sua voz soava desesperada.

Eu sentia raiva e desapontamento por saber que ele procurou construir uma família com outra pessoa.

― Eu abri meu coração para você, por que não me contou isso antes? ― Travei a garganta, lutando para não chorar.

― Fiquei com medo de te perder, de qual seria a sua reação. ― Ele se aproximou para me tocar, eu recuei de imediato. ― Não desejava te magoar.

― Parabéns, fez tudo certo ― resmunguei sarcástica.

― É o sujo falando do mal lavado, né? ― Christopher enrugou a testa. ― Se eu não tivesse retornado, você me diria sobre o nosso filho? Ou esconderia isso pra sempre?

― Se ele estivesse vivo, eu contaria! ― As lágrimas que segurava, rolaram pela bochecha. ― Mesmo não querendo, não deixaria a criança ser privada desse convívio.

Limpei o rosto com o dorso da mão e continuei, cheia de ressentimento.

― Quer saber? Dessa vez eu escolho por nós dois. ― Ergui o queixo, para parecer determinada. ― Volta para Nova Iorque, chega de brincar de casinha aqui.


Virei o corpo, marchando para longe, sem sequer desejar ouvir sua resposta. Cada passo que eu dava, uma dor latejava no meu coração.

― Dulce, aonde você vai? ― O rapaz elevou a voz para me chamar.

― Pra qualquer lugar.

À medida que andava pela rua, as pessoas me encaravam de um jeito esquisito, certeza que era por causa do meu traje: o robe.

― Amiga? O que aconteceu? ― Encontrei Anahí no meio do caminho.

― Uma longa história, não quero ver a cara do seu irmão tão cedo!

― Ih, caramba, a coisa foi feia ― ela resmungou. ― Por que não vamos para o meu estúdio?

― Tá bom.

― Tenho uma novidade, eu ia passar no mercadinho da esquina para comprar bebida e comemorarmos ― Annie comentou mexendo na alça de sua bolsa. ― Quase liguei para você agorinha para saber se estava em casa...

― Que novidade?

― Primeiro o álcool, depois as fofocas. ― Piscou para mim enquanto se dirigia para o estabelecimento.

Quinze minutos depois, entramos em seu estúdio de fotografia, que em um domingo se localizava as moscas. Ainda bem, pois senão, seria difícil conversarmos em paz.

― Quem começa? ― declarei logo depois de beber o vinho.

― Eu! ― Ela levantou a mão. ― Já vi que seu caso é mais delicado, então, vamos falar de algo bom antes.

Anahí deu um gole com muito entusiasmo no seu líquido vermelho e após limpar a boca me encarou de um jeito travesso.

― Poncho e eu marcamos a data do casamento! ― Explodiu em felicidade. ― Daqui a oito meses subiremos no altar, nem acredito que conseguimos conciliar nossas agendas.

― Uau ― respondi surpresa. ― Meus parabéns, amiga! ― Ergui o copo da bebida para a gente brindar.

A loira juntou o seu em uma comemoração enquanto tagarelava do quanto foi difícil encontrar uma data disponível na igreja que ela sempre desejou: a catedral metropolitana. Eu senti meus olhos marejarem à medida que Annie descrevia os detalhes, sua animação me deixou ainda mais emotiva a respeito dos últimos acontecimentos. Fiquei muito contente por ela, mas sua novidade só me mostrou o quanto a minha realidade era completamente diferente.

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Ih deu ruim aqui, Ucker vacilou nessa, hein... Hoje tô sem pano para o Ucker, quem é da tropa que quer pegar ele na saída? Agora entendi porque tava com a consciência pesada, né! 

O próximo poste se tudo der certo, sai na sexta gente, então até mais ;* 


Coração FeridoOnde histórias criam vida. Descubra agora