05| Feridas

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Massageei as têmporas, sentindo uma dor de cabeça atingir latejante, resultado da noite péssima! Além de um dia fora do comum, não era de se surpreender que isso aconteceria, dadas as circunstâncias. Procurei um remédio na minha bolsa e assim que o encontrei, engoli a pílula, esperando que meus problemas também desaparecessem.

― Dulce? ― Christopher me chamou de dentro do seu escritório.

― O que foi? ― declarei sem vontade.

Esse homem não sabe fazer nada sozinho? Respondi em pensamento.

― Onde encontro os balancetes do mês?

― Na pasta...

― Não achei essa pasta.

Inferno! Levantei da cadeira, respirando o ar devagar. Não compreendia direito meu estado de nervos, Christopher trouxe uma nova versão de mim que eu desconhecia. Apesar da nossa conversa no elevador ter sido esclarecedora por conseguir entender seu ponto de vista, havia algo que ainda me chateava. Toda vez que o encarava, as lembranças do que aconteceu depois que ele partiu reapareciam em minha mente. As feridas do passado se tornavam mais vivas, a dor da perda... Engoli o choro, entrando na sala.

― Impossível, está escrito balancete, bem grande. ― Parei em frente a sua mesa.

― Bom, então acho que preciso de óculos. ― Sua piadinha só me fez ficar mais irritada, um "haha" escapou dos meus lábios.

― Chega pra lá. ― Gesticulei para ele se afastar do computador.

Quando sua cadeira de rodinha saiu do meio do caminho, eu me aproximei, curvando o corpo para acessar o sistema. Narrei o passo a passo ao mesmo tempo que arrastava o mouse para mostrar. Fui no local escrito, meu drive, em seguida localizei um monte de pastas.

― Aí, você clica em financeiro e olha só a mágica. A pasta balancete em caixa alta. ― Desviei o olhar do monitor.

O desgraçado não prestou atenção em nada do que eu falei! Christopher me encarava com um sorriso torto estampado no rosto.

― Não vou explicar de novo, não. ― Arrumei a postura, soltando o ar impaciente.

― Desculpa, eu me distraí. ― Ele se ajeitou na cadeira e eu estreitei os olhos em resposta.

― Pois então, agora você tenta sozinho. ― Decidi voltar para a minha mesa.

― Dulce? ― Fechei as pálpebras, parando de andar. ― Acho que precisamos terminar aquela conversa.

― Já falamos tudo o que tínhamos para dizer. ― Eu me virei e nossos corpos quase se chocaram.

Inferno! Como esse homem chegou tão próximo sem eu perceber? Seus lábios rosados se moveram em uma dança que parecia tão sensual.

― Eu discordo. ― Christopher suspirou. ― Ainda há algumas perguntas que necessitam ser esclarecidas.

Senti uma pontada na cabeça, a maldita dor ainda pulsava insistente.

― O menino é meu filho?

Assim que suas palavras saíram, eu congelei. Seu questionamento me pegou desprevenida.

― Não, não é. ― Ele fitou cada reação do meu rosto. ― Claramente, isso aqui não está funcionando. ― Apontei para nós dois. ― Vou pedir para o RH me transferir.

― Por que eu sinto que tem algo a mais nessa história que você não quer me contar?

Não consegui olhar em seus olhos. Lá no fundo, eu desejava acreditar que poderíamos encontrar um jeito de consertar as coisas. Entretanto, não havia como voltar no tempo. Aquele breve instante em que o bebê descansou nos braços do médico trouxe à tona as feridas que nunca foram realmente esquecidas. Um nó se formou em minha garganta, era uma lembrança que eu tentava sufocar. A sensação de vazio me consumiu outra vez.

Coração FeridoOnde histórias criam vida. Descubra agora