Capítulo 03 - Breve Passeio

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HALEY

TREZE ANOS ANTES

Minhas mãos estão tão geladas que minhas unhas começam a ficar roxas. Com elas escondidas nos bolsos, abro e fecho os dedos desesperada por um pouco de calor. O expresso deixou a Província de Saturno há algumas horas, e já consigo ver os arranha-céus da Cidade Solar, meu coração palpita de ansiedade. Minha mãe dorme no banco ao meu lado. Olheiras claras se formaram nos seus olhos faz alguns dias. Ela não tem dormido bem. Encosto a cabeça no seu braço e ela me aninha. Minutos depois estamos descendo na estação.

Minha tia Elisa não sabe que estamos indo visitá-la, então ela não está vindo numa esfera nos buscar. Pessoas das províncias não tem a pulseira que dá acesso à esfera, e que na verdade, também dá acesso a quase todo tipo de tecnologia da Cidade Solar. Ao invés disso uma longa caminhada nos aguarda. Nunca vim aqui antes, e ter mais tempo para andar pela capital me anima.

Maeve segura minha mão enquanto caminhamos ao lado do Rio Espelhado. Depois de alguns minutos caminhando, chegamos no centro da Cidade Solar, e estaremos cruzando o rio logo. Solto sua mão e paro a caminhada, encantada com o que vejo. Há uma plataforma no meio do rio que abriga uma imensa esfera dourada rodeada por três anéis em movimento. A luz do sol refletida no monumento, faz a esfera parecer mágica.
— O símbolo da Cidade Solar!— Grito empolgada me aproximando da beirada do rio.
— Solares é mais do que o símbolo da capital. — Ela se junta a mim. Seus olhos carregados de descontentamento. Ela leva a mão ao pingente pendurado no pescoço. — Este monumento é um insulto ao que Solares representa. — Não entendo bem o que ela quer dizer. Se ela repudia Solares, porque carrega consigo o mesmo símbolo? Com minha mãe segurando minha mão, nós voltamos a andar.

Chegamos na casa de Elisa e tocamos a campainha. Ela aparece segundos depois, a cópia perfeita da minha mãe, com exceção das roupas. Maeve veste um jeans velho e uma camiseta cinza. O cabelo castanho, assim como o meu, está preso em um rabo de cavalo. A aparência cansada não ajuda. Minha tia Elisa veste uma camisa branca, e uma calça preta folgada. Acessórios estão espalhados pelo corpo, sua pulseira também assumiu um tom dourado para combinar. Os cabelos castanhos estão presos em um coque, e a pele clara tem um brilho saudável. Seus olhos castanhos se arregalam de surpresa e seus dentes se exibem em um sorriso.

— Maeve! Por que não avisou que estava vindo? — Ela puxa minha mãe para um abraço.
— Decidimos de última hora. — Minha mãe me contou ontem sobre a nossa vinda. Por que ela mentiria? Abro a boca para perguntar mas seus olhos me advertem e eu permaneço em silêncio. Elisa se abaixa para ficar na minha altura.
— E como está minha menina? — Ela põe carinhosamente uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. — Meu deus, Maeve, a coitadinha está tremendo de frio. Entrem logo antes que ela tenha hipotermia! — Eu não teria uma hipotermia, é claro, mas minha tia é a pessoa mais protetora que eu conheço, talvez paranoica, e eu não tenho por que discutir.

Entramos na casa, e o calor me envolve. A sala enorme está ocupada por móveis modernos, tudo em tons de bege, branco e amadeirado. O porcelanato no chão é tão brilhante que consigo ver meu reflexo. Elisa pede a um empregado que nos traga um chá. Ela não tem empregadas mulheres. Uma escolha esperta, afinal foi assim que ela conquistou o status que tem. Há dois anos ela foi empregada na casa de um casal, e acabou se envolvendo com Joseph, marido da mulher que pagava seu salário. Agora ela e o filho vivem com todo esse luxo.

— Onde está Simon? Haley quer brincar com ele. Não quer, Haley? — Balanço a cabeça concordando. Não o vejo desde que ele veio morar aqui. Sinto falta da companhia.
— Ele está lá em cima, brincando. Primeira porta, Haley. É só subir. Mas não vá correndo, não quero que se machuque.

Ignorando o pedido de Elisa, subo as escadas a toda velocidade, ansiosa para revê-lo. Abro a porta e meus pensamentos voam pela minha boca.
— Simon, você não vai acreditar! Eu trouxe minhas bolinhas de gude, e dessa vez... — Me interrompo quando vejo o quarto dele, que mais parece um parque de diversões. Não que eu já tenha visto algum de verdade, mas as revistas do vovô podem ser muito informativas.
— Haley! Quer ver meus brinquedos? — Antes que eu responda, uma menina sai do banheiro, e fica nervosa quando me vê. Ela também tem a nossa idade. — Ah, essa é a Ashley, ela, hum... tem medo de pessoas, ela é da minha escola. Ashley essa é a Haley, minha prima, ela é da província que eu morava. — Ele nos apresenta brevemente.
— Muito prazer, Ashley. — Ela dá um aceno de cabeça. Depois de um tour pelos brinquedos, Ashley vai embora e eu fico sozinha com Simon. — Acho que ela não gostou muito de mim. — Digo um pouco chateada e ele olha pra mim surpreso.
— Tá brincando? Sabe quanto tempo precisei sentar com ela pra receber meu primeiro aceno de cabeça? Duas semanas inteiras!

Descemos pra cozinha, por que Simon está com fome. Mas percebo que minhas bolinhas de gude ficaram no quarto, volto para pegá-las. No caminho vozes exaltadas me chamam a atenção. Me aproximo para poder ver. Minha mãe e Elisa estão de pé perto do sofá.
— Elisa, você não entende? Essa pode ser a única esperança para nós! — Minha mãe segura o pingente pendurado no pescoço, hábito que ela tem quando está nervosa.

— Eu não vou expor Simon a um perigo como esse! Ele tem tudo aqui, Maeve! Estamos seguros! — Elisa está com uma mão na cintura e outra na testa, como se sentasse conter uma enxaqueca.
— Vejo que seus propósitos agora são outros. — Minha mãe parece profundamente decepcionada. Elisa não responde. De que propósitos ela está falando?
— Acho para mim já deu, vou procurar Haley. — Seu tom de voz está mais baixo agora, ela está magoada. Não sei o que essa discussão significa, mas sei que eu não deveria ter ouvido.

Corro para a cozinha o mais rápido que posso. Minhas bolinhas não vão voltar comigo hoje. Simon começa a comer seu sanduíche quando me vê chegar correndo, com minha mãe já se aproximando. Meus olhos dizem tudo que ele precisa saber. — Haley, isso tá muito bom! Prova o seu logo. — Ele fecha os olhos apreciando o lanche e fingindo normalidade.
— A gente já tá de saída, Simon. Vai ter que ficar para outro dia. — Minha mãe surge na porta e pega minha mão.

— Vou preparar para viagem, então. Só um minuto. — Ele sabe que a comida da província não é nem de longe suficiente. Minha mãe também, então ela não protesta.

Já lá fora, uma esfera se aproxima. Elisa encosta a pulseira e uma porta se abre. Minha mãe olha para ela.
— Elisa, pense bem no que vai fazer. — Minha tia não tem mais o bom humor de quando nos recebeu.
— Minha decisão já foi tomada, Maeve. Tenha uma boa viagem.

Entramos na esfera e minha mãe fecha os olhos enquanto coloca as mãos no rosto. Envolvo ela com meus braços e ela me dá um sorriso triste, seus olhos carregados de preocupação, e em seguida um beijo na testa. Queria acreditar que tudo vai ficar bem, mas sei que o que quer que tenha tirado o sono da minha mãe nas últimas noites, não vai passar tão cedo. 

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