HALEY
Observo Trevor verificar a temperatura de Jason. Hoje ele parece bem melhor, apesar do ferimento ainda estar bem feio, pelo menos a febre se foi. Mas sobre a cama com lençóis brancos, ele quase se camufla de tão pálido. Não vejo Ryan desde a noite passada. E quando Trevor sai eu fico sozinha com Jason. Ele está desperto e nada o impedirá de falar agora.
— Eu sinto muito. — Ele começa. Olho para ele e percebo seu desconforto. Não posso negar que sinto certa satisfação em ver sua reação a minha presença. E a culpa vem logo em seguida. — Eu não fui sincero com você.
— Sincero sobre o quê? — Minha dúvida é genuína.
Ele faz um esforço para sentar na cama, mas parece perceber que a dor do movimento não compensa. Fico dividida entre ajudá-lo ou não. Mas quando tento ajustar os travesseiros para que ele fique na posição desejada ele me despensa. Eu poderia ficar chateada, mas pensar que isso é algo que eu também faria quase me arranca um sorriso. Odeio admitir, mas talvez recusar ajuda sempre que possível, seja algo que também herdei dele e não só esse queixo partido. Volto para a cadeira ao seu lado.
— Sobre meus motivos para ir embora. — Não é surpresa para mim, não engoli essa de que ele procurava vingança pela minha mãe. Ele parece envergonhado. — Haley, você é tão parecida com ela. E eu não... — Ele olha para o teto, e não sei se quer evitar me encarar ou evitar que as lágrimas rolem. Talvez os dois. — Maeve sempre foi um pedaço de mim. Eu a amava tanto e... — Ele passa o dorso da mão na linha d'água. — Mesmo com todo esse tempo eu nunca superei, sabe? Talvez você goste de saber que muito desse tempo eu vivi como um cão. — Algo se agita dentro de mim. Apesar de tudo me sinto um pouco mal por ele. Não digo nada, não por que não tenha nada a dizer, mas porque não acho que é uma boa interrompê-lo. Então apenas espero que ele continue. — Tive sorte de encontrar quem me desse suporte. Um casal de rebeldes. E eu poderia ter voltado quando eu melhorei. Mas eu não conseguia. E admito que foi covardia minha. — Sinto que o motivo maior da vergonha se aproxima. Ele volta a olhar para o teto, pelo mesmo motivo de antes. E odeio que ele não consiga nem olhar para mim. Me reviro na cadeira. — Vocês são tão iguais, e eu não suportaria vê-la todos os dias e saber que não fui capaz de impedir que aquilo acontecesse com a sua mãe. — Mas que porcaria! Minha raiva está quase chegando a superfície e não sei o quanto mais dessa conversa eu ainda poderei ouvir sem explodir. Levanto abruptamente e cruzo os braços.
— E por que voltou, Jason? Por que não ficou onde estava? — Minha voz sai mais contida do que eu esperava. Ainda assim ele parece magoado, mas não me importo. Não acho mais que ele seja merecedor de empatia nem no estado em que está.
— Meus amigos morreram. — Ele se esforça para manter os olhos em mim. E parece arrasado. — E, eu não poderia fugir para sempre. Eu tinha que ver você de novo. E dar a você a chance de fazer o que eu nunca fiz. — Seus olhos estão tristes como nunca vi. — O legado de Maeve, agora é seu. E se você nunca me perdoar, saber disso já é o suficiente. — Não respondo, e ele também não diz mais nada. Não quero deixá-lo sozinho, e me sinto grata quando Trevor volta.***
De volta a base, depois de deixar Dalila na garagem, caminho com Ryan pelo caminho que leva à porta. Saímos cedo da Província de Virgem, e faz pouco tempo desde que amanheceu. O sol está brilhando no céu não muito alto, de um jeito que deixa nossas sombras alongadas. A terra sob a passarela que leva dos portões à entrada ainda está molhada. Ryan e eu não falamos mais do que o necessário. E o necessário se limitou ao meu "já é hora de ir" e o "vamos então" dele. Achei que tínhamos nos aproximado um do outro, e eu estava gostando disso. Será que ele se sentiu pressionado a falar o que houve e está magoado de algum jeito? Ou será que tem algo a ver com a mulher que estava com ele na enfermaria? Não esqueci a intimidade que eles pareciam ter. Ou talvez eu esteja viajando e nada está errado. Mas e se estiver? Droga!
— Ryan, está tudo bem?
—Está tudo ótimo, por que não estaria? — Ele diz com as mãos nos bolsos.
— Não sei, você parece quieto. — Ele me olha com uma sobrancelha erguida. Ryan sempre foi mais retraído. Talvez minha solidão recente tenha me feito acreditar que as coisas tinham mudado.
— Deve ser impressão sua. — Ele diz sem diminuir o passo.
— Acho que sim. — Respondo tentando disfarçar minha frustração.Na parte de dentro da base, nos dividimos. Ele vai na direção da enfermaria e sinto um sentimento estranho se agitar em mim. Me esforço para afastá-lo. Nossa próxima aula começará logo. Algo relacionado a uso de tecnologia, não lembro direito, e me repreendo por isso. Estamos em um treinamento. Chegar a fortaleza rebelde ao norte é meu verdadeiro objetivo. E lá, todas essas aulas vão mostrar a sua importância. Ashley provavelmente vai se sair melhor do que na aula de tiro. Ainda tenho um tempo antes da aula, então resolvo procurá-la. Quarto de número 11. Não é muito longe do meu, o quarto de número 06. Bato na porta e escuto uma voz aguda responder do lado de dentro, com certeza não é Ashley. Só pode ser a colega de quarto. Quando entro, encontro uma mulher loira. Ela está sentada com as cumpridas pernas em borboleta, enquanto trança o próprio cabelo. Deve estar se preparando para a aula.
— Você sabe onde está Ashley?
— Ela não estava aqui quando eu acordei. — Ela responde enquanto dá de ombros. — Mas também não a vi no refeitório. — Ela inclina a cabeça com a sobrancelha franzida como se notasse a estranheza só agora. — Por quê? Vocês são amigas?
— Eu queria falar com ela. — Não respondo a segunda pergunta por que eu não sei respondê-la nem para mim mesma. — Mas eu posso voltar depois. Obrigada mesmo assim.
— Ah, não tem problema. Os amigos da Ashley são meus amigos. — Que amizade rápida. Assinto com a cabeça.Saio para o corredor e encontro Ryan vindo com passos apressados na minha direção. O que está acontecendo?
— Emily e Ashley... — Seus olhos de cores diferentes encaram os meus com uma preocupação atípica. — O carro foi encontrado vazio.
— O que houve? Onde elas estavam? — Digo preocupada.
— Elas saíram em uma missão, mas deveriam ter voltado ainda à noite.Mas que droga!
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Cidade do Sol
Fiction généraleUma sociedade distópica, com mortes misteriosas acontecendo. Duas mulheres completamente diferentes, unidas por um propósito em comum. Há dois lados de Meridia: a Capital Solar, onde o progresso atingiu seu ápice, e as Províncias Solares, onde tudo...