Capítulo 18 - Promessas e A Menina do Cabelo Azul

11 2 27
                                    

(Karina Coast)

—Escuta aqui sua bruxa safada, pare de brincar comigo!

Eu bradei indignada na frente do espelho do banheiro.

Estava usando apenas minha lingerie azul e o medalhão verde da Delphine para me conectar com ela, quando decidi que tiraria satisfação a respeito da magia.

Como eu posso ser um tipo de “escolhida” (leiam com muuuuitas aspas) se tenho um controle horroroso da magia? Em um momento estou impressionando um mago-emo-super-nerd e no outro pareço uma humana completamente normal?

Antes eu fosse normal mesmo do que ficar passando por toda essa encheção de saco por um destino que eu nem sei se quero.

Eu odeio isso!

—Quer saber? Eu desisto! Vou voltar a estaca zero, como se nada mágico tivesse acontecido! A vovó concordaria.

Provoquei ainda sem resposta.
Ia me virar para terminar de me vestir quando pesquei uma figura de soslaio. Fiquei sem fôlego.

Merda.

—Você era uma tarada em vida? Podia tentar aparecer, sei lá, no quintal de vez em quando... —perguntei olhando para a garota sombria com o rosto deprimido e cabelos no rosto.

É impossível se acostumar com a falta dos olhos.

Por favor, não fale assim.

A voz que ela usou foi tão penosa que me senti mal.

—Desculpa, foi só uma brincadeira.

Encolhi os ombros envergonhada.

—Desculpe por não ter te chamado também. É só que eu estava meio ocupada...

E é claro que não queria ver alguém nesse estado. Eu não sou covarde, não posso ser quando isso tem a ver com almas vagantes e espíritos aprisionados —foi o que vovó me ensinou —, mas também não sou de ferro.

Quando vai cumprir com sua palavra, bruxa? —ela perguntou em um tom suplicante, a voz quase de uma criança.

Quase não. Ela era uma criança. Por trás daquela aparência aterrorizante, tinha uma criança da idade de Bree que havia morrido. E não teve uma morte tranquila, mas uma perturbadora o bastante para impedir que aquela garotinha descansasse em paz.

Essa constatação me fez sentir um lixo de pessoa.

Como eu pude ignorá-la todo esse tempo?

—Eu estou... estou aprendendo magia. Vou achar a casa branca. Vou me esforçar, se você puder esperar...

Com a boca aberta em assombro ela me interrompeu:

Eu já esperei demais! Demais! Tempo demais!

Ela começou a gritar com as mãos na cabeça, a voz ficando cada vez mais aguda e fina.

—Eu... eu vou dar jeito. Preciso de sua ajuda. Preciso de mais pistas! —pedi em quanto ela esgoelava no banheiro.

Meus ouvidos ardiam, mas eu precisava de informações se quisesse ajudá-la.

Engoli em seco e coloquei as mãos próximo de onde ficavam os braços dela.

Não consegui tocá-la verdadeiramente, mas eu podia sentir um formigamento em minhas palmas e uma brisa, como se eu estivesse tentando pegar uma corrente de ar.

—Por favor fique calma —pedi com a voz mais suave que consegui.

Ela abriu a boca chocada com o que eu estava fazendo.

—Desculpa, eu...

Você é paranormal —ela soou incrédula.

—Como? —questionei confusa.

Não sinto a magia. Eu já vi bruxos antes... Você era uma bruxa... —ela tentou me agarrar de volta em desespero. —Você era uma bruxa!

—Como assim? Eu... eu sou uma bruxa. Eu fiz magia faz uns dois dias. Ontem também...

Não! Você mudou! Você mudou! Aquele dia você fez magia. Agora não é mais bruxa! Não é mais bruxa!

Eu não estava entendendo nada. Não sei o que são paranormais.

Não fazia sentido. Como eu podia ser bruxa em uma hora e em outra não?


(...)


—... e foi isso o que aconteceu —contei para Max no caminho para as duas primeiras aulas do dia, que seria inglês.

—Suas manhãs são sempre serenas e agradáveis assim?

Ele riu apesar de estar com uma cara de quem estava seriamente pensando sobre o que eu disse.

—Você nem faz ideia. Essas coisas de magia estão acabando comigo.

—Não só contigo, Kara. Acredite.

Ele parecia tão confuso quanto eu, mas ao contrário de mim que estava com ódio da situação como um todo, ele parecia desgostar especificamente da ideia de não saber como resolver aquilo.

Reparei que as olheiras sob seus olhos estavam mais escuras do que no dia anterior.

Quer dizer, não ligo muito, mas sei lá, talvez eu esteja um tiquinho, quase nada, microscopicamente preocupada.

Cartas aos Mortos (Delphine E Os Doze Cavaleiros - Livro 1)Onde histórias criam vida. Descubra agora