O sol se punha lentamente, banhando a cidade em um tom alaranjado que parecia tingir tudo de uma nostalgia suave. Elijah não parava de falar sobre seu jogo favorito, suas palavras se atropelando na excitação, enquanto Melanie, como de costume, retocava o batom vermelho, o movimento fluido e elegante de seus dedos contrastando com sua atenção à narrativa caótica de Elijah. Ela balançava a cabeça de vez em quando, em um ritmo lento, como se o som da voz dele fosse uma trilha sonora reconfortante.
— Sério, Melanie, você precisa jogar! — Elijah exclamava com uma paixão desmedida. — O sistema de combate é insano, e a história… Ah, nem sei por onde começar!
Melanie sorriu de lado, ainda focada no espelho de bolso. — Parece ótimo, Elijah. Mas duvido que algo supere o brilho deste batom. — Ela piscou, lançando-lhe um olhar cúmplice, antes de fechar o espelho com um clique sonoro.
Enquanto isso, Gabriel caminhava ao lado de Patrick, a conversa fluindo naturalmente entre os dois. Patrick, geralmente reservado, encontrava-se genuinamente envolvido nas palavras do garoto gótico. Gabriel falava sobre músicas que ele gostava, histórias engraçadas de sua infância na França, e de tempos em tempos, fazia questão de elogiar Patrick.
— Você já ouviu a nova do The Cure? — Gabriel perguntou, com um brilho de entusiasmo nos olhos. — Acho que você vai gostar. É sombria, mas tem algo... profundo. Meio como você, Patrick.
Patrick sentiu algo que há muito tempo não experimentava: calor. Uma sensação estranha, mas reconfortante. Ninguém jamais o elogiava, muito menos mostrava interesse em sua opinião. Era como se Gabriel tivesse acendido uma pequena chama em seu peito, uma luz que Patrick não sabia que existia mais. Ele não estava acostumado a ser notado assim, muito menos ser visto de forma tão... genuína.
— Não... — Patrick murmurou, a voz um pouco mais baixa do que gostaria. — Eu não conheço essa banda, mas... parece interessante.
Gabriel riu suavemente, um som leve e agradável, enquanto se inclinava um pouco mais perto de Patrick, os olhos fixos nele. — Eu sabia que você ia gostar. Vou te mostrar depois. Quem sabe a gente possa ouvir juntos?
Patrick assentiu, um pequeno sorriso tímido surgindo em seus lábios. Ele não estava acostumado com essa atenção, essa curiosidade sobre sua pessoa. Mas Gabriel... ele não era como os outros. Ele não estava apenas falando por falar. Gabriel realmente parecia interessado.
E, na verdade, havia mais em Gabriel que ele não dizia em voz alta. Ele não mencionava como os olhos verde-cinza de Patrick eram desarmantemente lindos, profundos e ao mesmo tempo misteriosos, como se escondessem mundos que ele ainda não havia explorado. Não falava como o formato dos lábios de Patrick, rosados e um tanto finos, parecia irresistível para ele. Para Gabriel, Patrick parecia uma pintura inacabada, um enigma que ele desejava desesperadamente resolver.
Em seus pensamentos, Gabriel não podia deixar de imaginar Patrick como uma obra de arte. Seus cabelos escuros, desgrenhados e quase rebeldes, combinavam perfeitamente com a palidez de sua pele, criando um contraste que lembrava os retratos de anjos caídos que ele costumava ver em livros de arte antiga. Havia algo etéreo em Patrick, como se ele não pertencesse completamente a este mundo, mas a outro plano, algo mais sombrio e fascinante.
Gabriel se pegava imaginando como seria pintar Patrick. Em sua mente, ele via uma tela grande, com Patrick retratado em um estilo vitoriano, vestido com roupas escuras e dramáticas, mas com uma luz suave e dourada destacando seus traços delicados. Talvez ele estivesse de pé à beira de um penhasco, olhando para o horizonte distante, seus olhos cinzentos brilhando com uma melancolia silenciosa, enquanto o vento balançava seus cabelos. Seria uma cena bela e trágica, como a própria essência de Patrick.
Gabriel quase podia sentir a textura da tinta sob seus dedos enquanto esboçava a imagem mental. Ele o pintaria com traços cuidadosos, realçando cada detalhe, cada linha de seu rosto fino e cada nuance de seus olhos intrigantes. Patrick, o anjo caído, pensou Gabriel com uma admiração secreta. Perdido entre os mortais, mas ainda assim radiante, intocável... incompreendido.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Patrick falou algo que Gabriel quase não ouviu.
— Você... parece entender as coisas de um jeito diferente — disse Patrick, hesitante, como se não soubesse se queria admitir isso.
— Talvez seja porque eu não vejo as pessoas como os outros veem. — Gabriel deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Gosto de ver além do que os olhos mostram.
Patrick não sabia o que dizer. Havia algo sobre Gabriel que o deixava desconcertado, mas não de uma forma ruim. Talvez fosse o fato de que, pela primeira vez, ele não sentia que estava escondendo algo de si mesmo. E isso era novo. Era libertador, mas também assustador.
Os dois continuaram a caminhar, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Gabriel fazia perguntas — coisas simples, como o que Patrick pensava sobre certos assuntos ou o que ele gostava de fazer nos seus momentos de solidão. E a cada resposta, Gabriel sorria, como se estivesse reunindo pedaços de um quebra-cabeça invisível que apenas ele podia ver.
Patrick nunca tinha conhecido alguém como Gabriel. Ele não sabia o que esperar dessa nova amizade, mas algo dentro dele dizia que, pela primeira vez, ele poderia se permitir confiar em alguém. Talvez, apenas talvez, ele pudesse se permitir ser visto como ele realmente era. Não o garoto estranho que todos evitavam, mas alguém com quem valia a pena passar o tempo.
E quando Gabriel olhou para Patrick mais uma vez, um pensamento surgiu em sua mente, como um eco silencioso: Eu poderia pintá-lo todos os dias, e ainda assim nunca capturaria completamente sua essência.
Eles estavam prestes a cruzar os portões da escola, e Gabriel sabia que havia algo especial em Patrick. Algo que ele estava determinado a descobrir, camada por camada.
.
.
.
.
.
.
"Naqueles breves momentos ao lado de Gabriel, Patrick sentiu algo que nunca havia experimentado antes: a estranha e confusa sensação de ser visto, verdadeiramente visto, por alguém que parecia entender o que ele sempre tentou esconder."
______________
Foi isso^^
Espero que estejam gostando!
1023 palavras.
VOCÊ ESTÁ LENDO
☆•○《✨𝐵𝓇𝑜𝓀𝑒𝓃 𝑀𝒾𝓇𝓇𝑜𝓇𝓈✨》○•☆
FanfictionEm Derry, onde a escuridão e o medo se entrelaçam, Patrick Hockstetter, um jovem atormentado por sua mente fragmentada, acredita ser o único real em um mundo cheio de ilusões. Sua vida muda quando três novos alunos chegam à escola, cada um trazendo...
