As semanas escorreram lentas, tingidas com um tipo estranho de urgência. Patrick percebeu—não que ele fosse o mais atento aos detalhes emocionais, mas era impossível ignorar como Gabriel tinha mudado. Estava mais grudento, mais presente, mais… apaixonado. Do tipo que segurava sua mão mesmo quando ninguém estava olhando, que puxava seu rosto com carinho e dizia coisas como “olha bem pra mim, Pat, quero que você lembre de cada detalhe”.
Ele começou a planejar encontros bobos—no bosque, no telhado da escola, no parque abandonado onde costumavam fumar escondidos. Trazia flores colhidas do quintal da vizinha e poemas escritos com a caligrafia bagunçada dele, alguns tão intensos que Patrick até revirava os olhos… mas guardava todos.
Um dia, Gabriel apareceu com duas agendas cobertas de tecido preto e adesivos coloridos. Entregou uma a Patrick com um sorriso doce e os olhos marejados.
“É nossa história… só pra garantir que o tempo não apague.”
Dentro, havia dezenas de fotos: os dois rindo no sofá, abraçados sob o céu cinzento de Derry, com tinta no rosto após uma briga de pincel. Entre as páginas, ele colou doces, bilhetes, pétalas secas, recortes, e em uma das últimas folhas, um endereço escrito à mão.
Patrick franziu a testa, mas não perguntou. Apenas encarou Gabriel, que desviou o olhar e fingiu estar muito ocupado organizando os recortes na própria agenda.
Havia algo não dito, pairando no ar como o cheiro de chuva antes da tempestade.
Eles estavam jogados no chão do quarto de Gabriel, uma das janelas abertas deixando o vento gelado de fim de tarde bagunçar as páginas soltas da agenda. A fita cassete tocava baixinho alguma banda gótica que só Gabriel conhecia, a voz grave misturando-se com o som suave do lápis deslizando pela pele.
Gabriel estava montado de leve sobre as pernas cruzadas de Patrick, o rosto concentrado, os dedos ágeis e firmes. Seus próprios olhos já estavam mergulhados num esfumado preto profundo, as pálpebras cobertas de tons escuros que se espalhavam como sombra de corvo; a boca pintada de vinho escuro, quase preta, que realçava a pele pálida e o brilho provocante no olhar. O cabelo bagunçado completava o visual — parecia ter saído direto de um disco do Bauhaus.
Ele encostou os dedos delicadamente no rosto de Patrick, espalhando o delineado em um traço dramático e angular, que se estendia além do canto dos olhos. Era algo feroz, mas bonito. Um contorno de escuridão ao redor dos olhos claros de Patrick, que ainda tentava entender como diabos tinha deixado Gabriel fazer isso — e por que estava gostando tanto.
— Para de se mexer — Gabriel murmurou com um sorrisinho. — Você tá quase perfeito.
Patrick bufou, mas não recuou. Sentia o coração bater estranho, meio ansioso, meio quente demais. Tinha alguma coisa naquela calma, naquele momento roubado, naquela maquiagem toda escura refletida no espelhinho rachado… algo que fazia parecer que o tempo parava só pra eles.
Gabriel inclinou o rosto, os lábios quase tocando a pele de Patrick enquanto usava um cotonete para suavizar uma linha. Os olhos deles se encontraram por um segundo, e o ar pareceu suspenso entre as respirações. A luz fraca do abajur deixava tudo mais íntimo — o reflexo do delineado, os cílios pintados, o borrão proposital que escorria um pouco como lágrimas negras.
— Agora sim — murmurou, satisfeito, puxando um espelhinho quebrado e colocando nas mãos de Patrick. — Olha.
Patrick segurou o espelho com certa hesitação, encarando o reflexo. Os olhos pareciam ainda mais intensos cercados pelo preto esfumado, o traço dramático nas têmporas dava um ar animalesco, quase cruel, mas bonito de um jeito que ele não sabia explicar. Um rubor involuntário subiu pelo pescoço.
— Tá rindo de quê? — ele resmungou, semicerrando os olhos quando viu o sorrisinho de Gabriel crescer.
— Nada — respondeu Gabriel, com os olhos brilhando. — É só que você ficou... meu.
Patrick não soube o que responder. Mas em vez de falar, puxou Gabriel pela cintura, fazendo-o desabar em cima dele com um riso abafado. O beijo veio fácil, morno e lento, como se selasse aquele instante num lugar que só os dois conheciam.
Entre beijos e suspiros, o cheiro de maquiagem, fita adesiva e papel fotográfico pairava no ar — e, por um momento, não havia tempo, nem Derry, nem despedidas. Só eles dois, góticos e grudados, rindo baixinho enquanto o céu lá fora escurecia.
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“Você nem sabe o quanto eu queria congelar esse momento e morar dentro dele.”
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Até o próximo capítulo!
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☆•○《✨𝐵𝓇𝑜𝓀𝑒𝓃 𝑀𝒾𝓇𝓇𝑜𝓇𝓈✨》○•☆
FanfictionEm Derry, onde a escuridão e o medo se entrelaçam, Patrick Hockstetter, um jovem atormentado por sua mente fragmentada, acredita ser o único real em um mundo cheio de ilusões. Sua vida muda quando três novos alunos chegam à escola, cada um trazendo...
