《37》

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O telefone tocou, cortando o silêncio denso do quarto como uma faca afiada. Era aquele telefone antigo, de disco e fio enrolado, pendurado na parede do corredor da casa dos Hockstetter. Um som irritante, quase metálico, como se o tempo gritasse.

Gabriel abriu os olhos devagar, ainda com os pensamentos enevoados pela noite passada. O céu do lado de fora estava encoberto, cinza como chumbo. A casa estava quieta, e Patrick provavelmente ainda dormia - ou fingia, como fazia às vezes, só para evitar conversas.

Levantou-se sem pressa, os pés descalços fazendo um som surdo no chão de madeira. Pegou o fone antes que tocasse de novo, levando-o ao ouvido com a voz ainda rouca do sono.

- Alô?

Uma pausa. O tipo de pausa que faz o estômago revirar antes mesmo de saber o porquê.

Do outro lado, a voz familiar, tensa. Baixa. Comedida. A mãe dele.

Gabriel se manteve em silêncio por um momento. Só ouvia. As palavras entravam como estilhaços. Algumas feriam mais do que outras, mas ele não deixou transparecer nada. Nenhuma reação. Só o som leve da respiração, contida.

- Entendi... - disse, por fim, com uma calma que não era dele.

Outra pausa.

- Tá. Eu falo com vocês depois.

E então, clic. A ligação morreu. O fio do telefone balançou levemente quando ele largou o fone de volta no gancho.

Ele ficou parado ali por longos segundos, os olhos fixos em algum ponto do vazio. Não havia lágrimas. Nem raiva. Só aquela sensação fria, incômoda, de que o chão sob os pés podia desabar a qualquer momento. Mas não naquele instante. Não ainda.

Gabriel passou as mãos pelos cabelos, respirou fundo e forçou um sorriso. Um daqueles falsos, tão bem ensaiados que até pareciam reais.

Depois, voltou para o quarto como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo ainda estivesse no lugar. Como se ele não estivesse prestes a ser arrancado do único lugar onde algo ainda fazia sentido.

Como se Patrick não fosse a única âncora que restava.

Gabriel voltou pro quarto em silêncio, os passos leves como se não quisesse acordar nada - nem mesmo os pensamentos que martelavam sua cabeça.

Patrick ainda estava ali, deitado de lado, com o rosto parcialmente escondido pelo travesseiro. Os lençóis estavam bagunçados, o quarto tinha aquele cheiro familiar de cigarro, suor e algum desodorante barato. Aquilo, de algum jeito estranho, era conforto.

Gabriel se deitou sem dizer nada, virado pra ele. Só ficou olhando por um instante. Os cílios de Patrick eram longos demais, a respiração dele era lenta, pesada. Parecia mais um animal selvagem que, por algum milagre, dormia sem medo.

Então Gabriel o abraçou. Com força. Como se o mundo tivesse desabado e ele só pudesse se agarrar àquilo. Ao calor, ao corpo. À presença.

Enterrou o rosto no ombro de Patrick, sentindo o cheiro da pele dele, respirando fundo como se aquilo pudesse mantê-lo firme. Como se pudesse prender aquele momento ali, dentro do peito, pra sempre.

Soltou um suspiro longo, abafado contra o pescoço dele. Quente. Quase triste.

Mas não disse nada. Porque, por enquanto, ainda dava pra fingir que o amanhã não existia.

Patrick se remexeu levemente, murmurando algo inaudível, mas não abriu os olhos. Apenas deixou o braço escorregar até envolver Gabriel de volta, puxando-o com aquele instinto bruto e possessivo que só ele tinha - como se seu corpo soubesse que precisava segurar firme, mesmo sem entender o porquê.

Gabriel fechou os olhos. O coração batendo apertado no peito, como se cada batida fosse um lembrete incômodo de que o tempo estava passando. E que alguma coisa, logo ali na frente, estava prestes a desmoronar.

Mas naquele instante... só havia o calor do corpo de Patrick contra o dele, o som abafado da respiração dele e o leve ranger da cama velha cada vez que um dos dois se movia.

Ele queria dizer tantas coisas. Queria contar. Gritar. Implorar pra ficar.

Mas tudo o que fez foi apertá-lo mais forte. Como se, de alguma forma, isso fosse suficiente pra impedir o inevitável. Como se o calor daquele abraço pudesse mantê-los em Derry por mais um segundo. Por mais uma noite.

E então, no silêncio pesado daquele quarto, Gabriel sussurrou - baixo, só pra si mesmo:

"Por favor, não me esquece."

Patrick não respondeu - talvez estivesse dormindo de verdade, ou talvez só fingisse. Mas o jeito como seus dedos se fecharam devagar nas costas de Gabriel fez com que o peito dele apertasse ainda mais.

Gabriel ficou ali, imóvel, sentindo o coração bater contra o de Patrick, como se tentassem se alinhar. Queria gravar aquilo na pele. O cheiro do quarto. A textura áspera do lençol velho. A respiração quente no seu pescoço.

Porque, quando fosse embora... não teria nada disso.

O quarto de hotel barato em Paris, as aulas em outra língua, o peso da família fingindo que ele era outra pessoa - tudo isso ia parecer irreal comparado àquele momento. Àquela cama torta. Àquele garoto quebrado que, por alguma razão, o fazia se sentir inteiro.

Se afastou só um pouco, o suficiente pra ver o rosto de Patrick. Tinha a expressão serena, as sardas espalhadas como poeira de estrelas e o cabelo bagunçado caindo nos olhos.

Gabriel sorriu, triste. Passou os dedos devagar pela bochecha dele e sussurrou:

- Eu te odeio tanto por me fazer querer ficar.

E então fechou os olhos, engolindo o choro, tentando adiar o amanhã por mais um pouco.
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"Naquele silêncio apertado entre os corpos, Gabriel desejou que o tempo congelasse só pra não ter que dizer adeus."

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Até o próximo capítulo

☆•○《✨𝐵𝓇𝑜𝓀𝑒𝓃 𝑀𝒾𝓇𝓇𝑜𝓇𝓈✨》○•☆ Histórias para pegar e não largar. Descubra agora