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O relógio marcava 7h da manhã quando Maya abriu os olhos. O quarto ainda estava silencioso, a luz do sol invadia pelas frestas da cortina. Ao seu lado, Chico dormia tranquilo, respirando fundo como quem não tinha pressa de acordar.
Com cuidado para não fazer barulho, ela se levantou da cama, pegou o celular e seguiu direto para o banheiro. Escovou os dentes em silêncio e fez sua rotina de skincare, mas os pensamentos estavam longe dali.
O e-mail da Balmain ainda ecoava na cabeça dela. Cinco a oito meses em Paris. Era a oportunidade que qualquer modelo sonharia. Mas também era um passo enorme. Longe de casa, longe do Chico, longe do Rio.
Com um suspiro leve, ela desceu as escadas e foi até a cozinha. Colocou uma playlist tranquila pra tocar e começou a preparar o café da manhã. Fez dois mistos quentes, caprichou no cappuccino gelado e organizou tudo na bancada com aquele toque cuidadoso que só ela sabia dar.
Lá em cima, Chico abriu os olhos e esticou o braço, notando o lado vazio da cama. Sentiu a ausência dela de imediato. Ainda meio sonolento, escovou os dentes e desceu.
A cena que encontrou era a definição de aconchego: Maya de costas, mexendo na frigideira, com o pijama de seda azul-claro e o cabelo preso de qualquer jeito.
— Isso tudo é pra mim? — ele perguntou com um sorriso preguiçoso.
— Quem sabe — respondeu ela, sem virar, mas sorrindo de canto.
Ele se aproximou, passou os braços ao redor da cintura dela e deu um beijo leve no ombro.
— Acordei com sorte hoje?
— Acordou com fome, isso sim.
Eles se sentaram à mesa. Enquanto comiam, o clima era leve, mas havia algo no olhar dela que Chico percebeu. Maya estava inquieta, mesmo tentando disfarçar.
Ele pegou mais um pedaço do misto quente e comentou, olhando pro gato esparramado no sofá:
— O Veiga vive essa vida boa, né? Dorme, come, dorme de novo… não se estressa com nada.
Maya riu fraco e respondeu, debochada:
— Pois é… até ele é mais útil que muito homem por aí.
Chico arqueou a sobrancelha, surpreso com a alfinetada.
— Nossa… atacou o veneno cedo hoje.
Maya deu de ombros, olhando pra ele com um meio sorriso afiado:
— Lindinho, eu quero um homem, até porque cachorro eu tenho em casa.
Chico franziu o cenho e virou o rosto pro sofá, onde Veiga dormia de barriga pra cima.
— Mas você tem um gato.
Ela riu, balançando a cabeça, enquanto dava um gole no cappuccino. O clima seguiu descontraído por uns instantes, mas logo o olhar dela voltou a perder o foco. Aquele pensamento, aquele e-mail… ainda estava ali.
Chico percebeu.
— Tá tudo bem? Você tá meio… distante.
Ela hesitou por um instante, mexendo no guardanapo como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo.
— É só coisa da minha cabeça. Já passa.
— Maya — ele disse firme, pegando na mão dela —, você sabe que pode confiar em mim, né?
Ela respirou fundo. Olhou pra ele por alguns segundos, como se estivesse decidindo se falava ou não. E então falou.
— Ontem à noite, recebi um e-mail da Carol. Uma proposta da Balmain. Eles querem que eu desfile e represente a marca nos próximos meses… mas o trabalho exige que eu fique em Paris. De cinco a oito meses.
Chico ficou em silêncio por um tempo. Processando.
— Uau… Maya, isso é… incrível. De verdade.
— Eu sei… é tudo o que eu sempre quis. Mas…
Ela não terminou a frase. Ele entendeu.
— Mas é muito tempo longe de quem a gente ama, né?
Ela assentiu, olhando pro cappuccino que já esfriava na xícara.
O clima mudou. As palavras começaram a se perder entre os silêncios. Os dois ainda estavam sentados à mesa, mas algo no ar já era diferente. Como se uma pequena distância tivesse se instalado entre eles — não física, mas emocional.
Mais tarde, Chico se levantou. Pegou a mochila que estava encostada no sofá.
— Acho melhor eu ir pra casa… pensar um pouco.
Ela não insistiu. Só assentiu, com um meio sorriso triste.
Do lado de fora, o dia seguia bonito, como se o mundo não soubesse da bagunça que estava por dentro.
Chico caminhava pelas ruas do Rio com a cabeça cheia. Ele sabia que Maya tinha que aceitar. Era uma chance única. Uma catapulta pra carreira dela. Mas também sabia que isso significava uma pausa — ou quem sabe um fim — no que eles estavam vivendo.
E, no fundo, ele também sabia: a vida com ela nunca seria simples. Mas talvez fosse exatamente isso que fazia valer a pena.