André berrava em meio à penumbra.
O rapaz lutava por sua vida, tentando arranhar, esmurrar ou mesmo chutar a mão que puxava seu tornozelo, o arrastando através da escuridão eterna. Tamanho breu não o deixava enxergar um palmo à frente do nariz, engolindo seus gritos assim que eles saíam da sua boca.
— LETÍCIA! VERA!
Ninguém respondia. Estava sozinho de novo, afundando em um mundo feito de sombras.
O chão sob ele, antes áspero, se tornou liso, ganhando a textura de um assoalho empoeirado. Tal poeira o atacava sem dó, grudando em sua pele e fazendo seus olhos lacrimejarem. André tateou ao seu redor, procurando qualquer frestinha onde pudesse se segurar, mas aquele piso não tinha uma falha sequer. Era como deslizar em um espelho.
O medo mastigava seus pensamentos.
Por fim, o aperto na sua perna se desfez, sem prévia ou aviso, e o rapaz se sentiu largado, abandonado na mais completa escuridão. André logo se sentou, o coração enlouquecido, arfando tal como se tivesse corrido uma maratona. Suas costas ardiam, suas mãos latejavam; seus olhos doíam enquanto tentavam enxergar onde ele estava.
"...o quê?"
André se pôs de pé, atordoado, quase perdendo o equilíbrio. O breu que o cercava era tão espesso que parecia sólido, como se pudesse tocá-lo caso esticasse os braços. Sentiu-se encurralado, preso em uma gaiola cuja chave foi jogada fora.
Teve a impressão de que as sombras o encaravam de volta.
— ...pessoal? — a voz do rapaz estava fina, com medo de existir. — Alguém-
Ouviu um clique seco, e uma luz acendeu acima da sua cabeça, iluminando todo o local.
André se viu dentro de um cômodo circular, de aparência antiquada, com nenhuma saída ou entrada à vista. Estaria totalmente vazio se não fosse pelas dezenas de espelhos que cobriam as paredes, dos mais diversos tipos e tamanhos, refletindo seu choque de todos os ângulos. Um lustre extravagante descia do teto, a fonte de toda aquela luz, lançando sombras afiadas sobre seus ombros.
O rapaz se encolheu, o desconforto pesando na boca do estômago. Estava suando e tremendo ao mesmo tempo. Tentou respirar o mais baixo possível; o ar ali era abafado, com cheiro de mofo, fazendo seu peito coçar por dentro.
Teve vontade de rasgá-lo com as próprias unhas.
"Que diabos é isso agora?"
Por onde quer que olhasse, havia um reflexo o olhando de volta, exibindo o mesmo pânico que corria por suas veias... mas as semelhanças acabavam por aí. Alguns daqueles reflexos pareciam mais magros; outros, mais altos. Alguns mal eram visíveis atrás do pó e do limo que cobriam seus espelhos, se assemelhando a silhuetas perdidas na neblina.
Não gostava disso, não gostava nem um pouco. A ideia de ter tantos olhos sobre ele o apavorava... ainda mais quando esses olhos eram os seus.
Eram esses os olhares que André havia sentido na escuridão?
O rapaz logo se virou em direção ao maior espelho da sala, tão grande que se espreguiçava do teto até o chão, emoldurado em ouro polido. Sua superfície brilhava de tão limpa, refletindo o lugar inteiro em seus mínimos detalhes. O reflexo de André ali, inclusive, parecia completamente normal... mesmo que ele ainda estivesse vestindo aquela fantasia medonha de palhaço. Era o mais normal que podia parecer, pelo menos.
André franziu o cenho, desconfiado. Aproximou-se do espelho à passos lentos, mantendo sua respiração sob controle, e estudou o objeto mais a fundo.
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Oneirofobia
HorreurOneirofobia: o medo extremo de sonhar. Três jovens adultos, atormentados por pesadelos terríveis, se juntam para investigar e deter as estranhas entidades que assombram seus sonhos. No processo, eles aprendem que seus medos podem ser muito mais pr...
