Duas semanas tinham passado, desde que Smith e Spilett haviam localizado o escoadouro das águas excedentes do lago.
Foram dias de trabalho intenso para a pequena colónia, empenhada em levar por diante o plano de fazer ir pelos ares parte da parede de granito que sustinha as águas do lago. Para tanto, precisavam de obter uma substância explosiva, que foi conseguida a partir das pirites xistosas que existiam em abundância na jazida de hulha. Após diversas manipulações e morosos processos químicos sob orientação de Cyrus Smith, o sulfureto de ferro extraído das pirites foi transformado em sulfato, do qual se obteve ácido sulfúrico; seguidamente, por combinação deste com salitre, resultou ácido azótico. Por fim, o ácido foi posto em contacto com a glicerina extraída da gordura do dugongo, fornecendo diversas camadas de um líquido oleoso e amarelado.
Desta última operação se ocupou Cyrus Smith, sozinho e longe das Chaminés, dado que envolvia sério risco de explosão.
Quando voltou para junto dos companheiros, trazendo na mão um recipiente com o tal líquido, limitou-se a dizer-lhes: "Nitroglicerina!"
- E é com esse licor que vamos fazer explodir os rochedos? - perguntou Pencroff, incrédulo.
- Exatamente! - retorquiu o engenheiro. - E quanto mais resistência a rocha oferecer- e nós sabemos que o granito é duríssimo - tanto maior será o efeito da nitroglicerina.
No dia seguinte, 21 de Maio, logo de manhã cedo, o grupo de mineiros improvisados dirigiu-se à penedia de granito, que funcionava como uma espécie de dique a conter as águas do lago. Era ali que o engenheiro tencionava abrir uma brecha por onde a água poderia sair, pondo a descoberto o orifício do escoadouro subterrâneo.
Pencroff e Nab, munidos de picaretas, lançaram-se ao trabalho com tanta destreza e ardor que, pelas quatro da tarde, o buraco estava pronto para receber a carga de nitroglicerina.
Na falta de fulminantes, Cyrus Smith preparou uma mecha de fibra vegetal embebida em enxofre, acendeu-a e correu a abrigar-se junto dos companheiros. Uns vinte e cinco minutos depois, o tempo que a fibra levou a arder, retumbou uma explosão tão violenta, que toda a ilha parecia estar a ser sacudida por um terramoto! Os nossos colonos, apesar de estarem bem a uns três quilómetros de distância, foram parar ao chão. Refeitos do abalo, subiram a correr ao planalto, direitos ao sítio da explosão.
Do peito de cada um saiu, então, um formidável "hurra!". O dique de granito abrira uma fenda considerável, e dessa fenda escapava-se agora uma torrente de água, que se despenhava do planalto e caía na praia de uma altura de quase cem metros! Os colonos foram às Chaminés buscar picaretas, paus ferrados, cordas de fibra, isca e pederneira, e regressaram ao lago, dirigindo-se imediatamente à margem sul. Uma olhada foi suficiente para verificar que o plano do engenheiro resultara em cheio! Efectivamente, o abaixamento do nível das águas pusera a descoberto a abertura do escoadouro, a qual lembrava uma dessas sarjetas que se vêem à beira dos passeios. Cyrus Smith aproximou-se e verificou que o túnel escavado pela força das águas era apenas ligeiramente inclinado, tornando-se assim praticável a descida. Era sua convicção que, em alguma parte, haveria uma cavidade suficientemente ampla para ser aproveitada como habitação.
- Então, senhor Cyrus, o que nos detém agora? - perguntou o marinheiro, desejoso de se aventurar pelo estreito corredor. - Olhem como o Top já lá vai à frente!
- Está bem! - disse o engenheiro. - Vamos lá, mas às escuras é que não... Nab, corta aí uns ramos resinosos.
Acesos os archotes, os colonos enfiaram pela abertura do túnel e começaram a descer, atados uns aos outros com cordas.
O chão, de rocha molhada e escorregadia, recomendava toda a prudência. Avançavam, pois, muito lentamente e sem trocar uma palavra, emocionados por se aventurarem pelo interior do maciço de granito, tão velho como a própria ilha... Teriam descido cerca de trinta metros, quando lhes chegaram aos ouvidos sons vindos lá do fundo.
- É o Top a ladrar! - exclamou Harbert.
- É mesmo! - disse Pencroff. - E parece que está zangado.
- Em frente, meus amigos! Não larguem os paus ferrados! - comandou Cyrus Smith.
Os latidos do cão, cada vez mais nítidos, exprimiam uma estranha raiva. Dominados pela curiosidade e sem cuidar nos perigos que podiam correr, os cinco homens deixavam-se praticamente escorregar pelo túnel, até que, de repente, a passagem alargou e desembocaram todos numa vasta caverna.
Ali estava o Top a correr de um lado para o outro e a ladrar furiosamente. Nab e Pencroff agitaram os archotes bem alto e em todas as direcções, enquanto Cyrus Smith, Gedeão Spilett e o jovem Harbert se mantinham atentos, empunhando os varapaus e prontos para qualquer eventualidade. Mas a enorme caverna estava vazia! Não havia sinais de outro ser vivo para além dos colonos e do cão, que, entretanto, continuava na maior agitação.
- É forçoso que haja por aqui uma saída qualquer das águas para o mar... - murmurou o engenheiro.
- Realmente - acrescentou o marinheiro -, e todo o cuidado é pouco, não caiamos nós nalgum buraco!
- Anda, Top! Busca! - gritou Cyrus Smith.
O cão, excitado com a voz do dono, correu para o extremo da caverna e pôs-se a ladrar ainda com mais força. Seguiram-no os colonos e foi então que, à luz dos archotes, descobriram a boca de um poço. Sem demora, Smith arrancou um galho aceso de um dos archotes e lançou-o no abismo.
Minutos depois, a chama extinguiu-se lá no fundo com um leve crepitar, indicando que o galho atingira uma camada de água, isto é, o nível do mar. Calculando o tempo gasto na queda, o engenheiro concluiu que o mar se encontrava a cerca de trinta metros abaixo do nível da caverna e observou:
- Já temos casa!
Os desejos dos colonos estavam, assim, em grande parte realizados, graças ao acaso e à sagacidade do chefe. A partir de agora, dispunham de um abrigo seguro e suficientemente amplo para ser dividido, com paredes de tijolo, em diversos compartimentos. As águas do lago, que dantes atravessavam a caverna, não mais voltariam... O lugar estava livre! Contudo, duas questões importantes ficavam por resolver: a primeira era a iluminação natural da futura morada; a segunda prendia-se com a dificuldade de acesso pelo túnel do lago.
Ora, durante a descida, o engenheiro notara que a parede anterior do escoadouro não era tão espessa quanto as outras, o que o levava a encarar a possibilidade de se abrirem ali uma porta e janelas, bem como de se instalar uma escada exterior.
Destas ideias se apressou a dar conta aos companheiros.
- Mãos à obra, senhor Cyrus! - respondeu logo Pencroff.
- A picareta já aqui está! Por onde começamos?
E, cheio de entusiasmo, atacou o granito no local indicado pelo engenheiro. Durante duas horas, o penedo faiscou aos golpes do picão empunhado pelo marinheiro, que, de tempos a tempos, era rendido por Nab e pelo repórter. E tão bem trabalharam os nossos amigos, que ao cabo desse tempo a parede cedeu e a picareta, com o impulso, caiu para o exterior!
- Viva! Viva! e mais "vivas"! - gritou Pencroff.
Cyrus Smith espreitou pela abertura. Lá em baixo, a uns vinte ou trinta metros, ficava a praia e, logo adiante, o ilhéu; depois, era o mar imenso a perder de vista. A luz do dia entrava agora, produzindo um efeito tão mágico no interior da caverna, que os colonos não contiveram uma exclamação de admiração! Com efeito, dir-se-ia que estavam no interior de uma catedral, verdadeira obra-prima da Natureza, com paredes altíssimas rematadas em abóbada, sustentada por pilares de granito e meias colunas laterais.
- Ah! meus amigos - exclamou Cyrus Smith -, quando iluminarmos convenientemente este sítio e tivermos quartos, despensas e armazéns, esta parte central será destinada a museu e sala de estudo... Será o nosso salão!
- E que nome vamos pôr à nossa nova casa? - perguntou Harbert.
- Casa de Granito - respondeu o engenheiro.
E a denominação foi recebida com uma estrondosa salva de palmas.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Ilha Misteriosa
De TodoSinopse: A história começa nos Estados Unidos da América, durante a guerra civil, durante o cerco de Richmond, Virginia, a capital dos Estados Confederados da América (Sul). Cinco americanos do norte, prisioneiros, decidem fugir utilizando um meio p...
