Pelas seis da manhã, os colonos já estavam a postos para prosseguir a pé a expedição em direcção a oeste. Antes de partirem, verificaram a amarração do bote e, depois de decidido o melhor caminho a seguir, Cyrus Smith recomendou expressamente que não se fizesse uso das armas de fogo quando se aproximassem do litoral. Esta precaução desagradou bastante a Pencroff, que, de boa vontade, mandaria umas cargas de chumbo aos javalis e cutias que, pelos vistos, abundavam por aqueles sítios! Três horas depois, os colonos viram o caminho barrado por um curso de água desconhecido, com poucos metros de largo e uma corrente fortíssima. O leito rochoso e irregular apresentava uma série de declives e rápidos, tornando a navegação impraticável.
- E agora, senhor Cyrus? Estamos cortados? - perguntou Pencroff.
- Não passa de uma ribeira! Podemos atravessar a nado - sugeriu Harbert.
- Não vale a pena - atalhou Cyrus Smith. - É evidente que este ribeiro corre para o mar, portanto, se seguirmos pela margem, vamos dar à costa. A caminho!
O terreno não apresentava dificuldades ou obstáculos de maior, pelo que a marcha decorria com rapidez; também por ali não era visível qualquer pegada ou outro indício da passagem de seres humanos. Finalmente, por volta das dez e meia, Harbert, que seguia na dianteira, parou de repente, soltando uma exclamação:
- Olha o mar!
Não restavam dúvidas! Sem qualquer zona de transição, o arvoredo terminava abruptamente mesmo à beira do oceano, enquanto o regato se despenhava de um último declive. Que contraste entre aquela costa e a outra onde o destino os lançara! Ali não havia muralha de granito, rochas ou escolhos pelo mar fora, sequer uma praia! Perante aquela orla florestal admirável, onde, porém, seria impossível qualquer acostagem, o plano inicial foi alterado.
Os colonos tinham deixado a Casa de Granito com a intenção de explorar a costa ocidental, após o que regressariam pelo mesmo caminho, isto é, descendo o Mercy no bote. Agora, parecia-lhes mais proveitoso prosseguirem a exploração para sul, contornando a costa meridional até casa.
O almoço foi rápido e os colonos retomaram a marcha seguindo a orla da floresta junto ao mar. Pelas seis da tarde, mortos de cansaço, atingiram o promontório sul em forma de cauda de réptil, pormenor que lhes chamara a atenção lá do alto do monte Franklin. A partir dali, a floresta recuava novamente para o interior e o litoral apresentava o aspecto habitual, de rochedos e praia de areia. Mas escurecia e impunha-se encontrar abrigo para a noite.
Aquela parte da costa, bastante batida pelo mar, era pródiga em reentrâncias e cavidades nas rochas, pelo que Harbert e o marinheiro não demoraram muito a encontrar uma gruta que lhes pareceu adequada. Dispunham-se a entrar para inspeccionar melhor o local, quando ouviram um rugido medonho que vinha lá do fundo!
- Para trás! - gritou Pencroff. - Os grãos de chumbo das nossas espingardas numa fera com um rugir destes fazem o mesmo efeito que grãos de sal.
E os dois amigos correram a esconder-se atrás de um penedo.
À entrada da gruta, perfilava-se um jaguar com cerca de um metro e sessenta da cabeça ao começo da cauda! O animal avançou e pôs-se a olhar em redor, com o pêlo todo eriçado... Nesse preciso momento, Gedeão Spilett surgiu no campo de visão dos dois companheiros entrincheirados; de carabina apoiada no ombro, avançava lentamente para a fera. A dez passos de distância, parou e fez pontaria. Harbert e Pencroff sustinham a respiração... Nisto, o jaguar encolheu-se todo e saltou! Mais rápido, o repórter fez fogo e o animal caiu morto com uma bala entre os olhos.
Smith e Nab acorreram ao ouvir o disparo. Nesse momento, já Pencroff estava a admirar o jaguar e a imaginar como a respectiva pele ficaria bem numa das paredes do salão da Casa de Granito!
- Ah! Senhor Spilett, se o senhor soubesse como eu admiro a sua calma e a sua pontaria! - exclamou Harbert, entusiasmado.
- Ora, meu rapaz, terias feito a mesma coisa! - respondeu o repórter. - E agora, companheiros, por que esperamos para entrar no abrigo?
- Alto lá, que podem aparecer outros! - alarmou-se o marinheiro.
- Se fizermos um bom lume à entrada, não há um que se atreva a entrar - garantiu Spilett.
E vai daí começaram a amontoar grande quantidade de lenha diante da gruta, enquanto Nab tratava de esfolar o jaguar.
Cyrus Smith encaminhou-se para uma pequena mata de bambus, que avistara ali perto, e cortou umas quantas canas que misturou na pilha de lenha. Assim que acenderam a fogueira, começaram a soar estampidos que nem petardos e fogo-de-artifício! Eram as canas de bambu a estalar com o lume e só a barulheira que faziam chegava e sobejava para assustar as feras mais afoitas! Este engenhoso processo de afastar animais indesejáveis não foi, porém, invenção do engenheiro. Conforme explicou aos amigos, já Marco Polo o referia nos relatos das suas viagens, como sendo muito utilizado pelos Tártaros nos acampamentos da Ásia Central. Bem, o certo é que os nossos exploradores puderam comer e dormir em paz naquela gruta de chão de areia macia.
Ao raiar da aurora, o grupo pôs-se a caminho. Diante dos colonos, estendiam-se quilómetros de uma costa ainda desconhecida, e que, segundo os cálculos do engenheiro, devia terminar no cabo em forma de garra que, por sua vez, limitava a sul a grande baía dos pântanos onde aparecera o caixote misterioso.
Os nossos amigos caminhavam pela beira-mar, enquanto Top corria ao longo da floresta, farejando e buscando como era seu hábito, quando o marinheiro, sempre atento aos pormenores do mar, observou:
- Se algum navio arribasse a esta praia, era certo e sabido que se perdia! Olhem os bancos de areia e acolá os recifes... Que raio de sítio!
- Mas sempre ficariam destroços! - alvitrou o repórter.
- Qual quê! Só se nas rochas, que estas areias engolem tudo num abrir e fechar de olhos! Até o casco de um navio respondeu Pencroff.
Mas, apesar de procurarem por entre todas as rochas e recifes com que topavam, não acharam um único vestígio de naufrágio.
A meio da tarde, já relativamente perto do cabo da Garra, chegaram os colonos a um recorte pronunciado da costa, uma espécie de estreita enseada que formava, por assim dizer, um pequeno porto natural. A enseada, invisível do lado do mar, era rodeada por frondosa mata de pinheiros marítimos que subia suavemente em direcção ao planalto. Gedeão Spilett propôs que se fizesse ali uma paragem e todos concordaram de bom grado. A caminhada aguçara-lhes o apetite e, minutos depois, devoravam as provisões que Nab tirara da sacola. Depois do lanche, Cyrus Smith pegou no óculo e pôs-se a esquadrinhar atentamente, não só a linha do horizonte, como a parte do litoral que lhes faltava percorrer. Porém, não avistou coisa alguma... Nem sombra de navio no mar, nem um único destroço ou objeto suspeito em terra.
- Bem, pelos vistos resta-nos a consolação de ficarmos com a ilha Lincoln só para nós! - comentou Gedeão Spilett.
Mal esta frase fora dita, surgiu Top a correr, vindo da mata, com um pedaço de tecido preso na boca! Nab apressou-se a tirar-lhe o farrapo dos dentes e o cão desatou a ladrar, correndo para trás e para a frente como a pedir que o seguissem.
- Pode ser que esteja acolá a explicação para o meu grão de chumbo!- disse Pencroff.
- Pode ser um náufrago! - sugeriu Harbert.
- E talvez esteja ferido! - acrescentou Nab.
- Ou morto! - rematou o repórter.
E lançaram-se todos atrás do cão. Ao cabo de cinco minutos de corrida precipitada através do pinhal, Top estacou diante de um pinheiro gigantesco. À primeira vista, não havia ali nada de suspeito, e, todavia, o cão não parava de ladrar.
- Então, Top, o que é isso? - perguntou Cyrus Smith.
De repente, a resposta veio de Pencroff:
- Ah! e esta agora? Quem havia de dizer que os destroços que tanto procurámos em terra e no mar, afinal estavam no ar!
E o marinheiro apontava para o topo da árvore, donde pendia uma espécie de enorme farrapo esbranquiçado!
- Ora ali está, meus amigos, o que resta do nosso balão! E que porção de pano, e do melhor, para fazermos camisas, lenços e o resto...! Então, senhor Spilett, o que é que tem a dizer de uma ilha onde as camisas nascem nas árvores como fruta?
Era, na verdade, uma circunstância afortunada para os colonos, aquela de o balão ter caído na ilha e de ter sido encontrado e, como é bom de ver, a alegria de Pencroff foi efusivamente partilhada. Contudo, urgia tirar o invólucro do balão lá de cima, tarefa tão arriscada, quanto trabalhosa.
Nab, Harbert e o marinheiro treparam ao pinheiro e só ao cabo de quase duas horas é que conseguiram desprender não só o tecido, como também as molas, as guarnições de cobre, as redes e a âncora do aeróstato, que julgavam perdido no mar. Em suma, caíra-lhes do céu uma autêntica fortuna!
- Este tecido que aqui temos, senhor Cyrus, chega e sobeja para as velas de um bom barco de vinte toneladas e ainda sobra para nos vestirmos! - exclamou o marinheiro.
- Veremos, veremos! - respondeu o engenheiro.
- Mas até lá, convinha guardar tudo em lugar seguro lembrou o jovem negro.
Nab tinha razão. Era impensável carregar aquele material tão pesado até à Casa de Granito e, enquanto não houvesse caminho para trazer a carroça, o importante achado devia ficar escondido. Assim sendo, arrastaram a tela e os restos do balão até à enseada e puseram tudo a bom recato numa espécie de gruta dissimulada entre os penhascos.
Nestes trabalhos foi a tarde passando, de modo que já escurecia, quando os colonos contornaram o cabo da Garra para a baía dos pântanos. Daí a nada, chegavam ao local onde, uns dias antes, haviam recolhido o caixote e, nesse momento, realizaram que toda a expedição à costa ocidental e litoral sul da ilha Lincoln não só não lhes fornecera a mais pequena explicação para tão misterioso achado, como em nada esclarecera a questão do grão de chumbo encontrado no pecari! Estava escrito que aquele dia, 1 de Novembro, não acabaria sem que ocorresse outro acontecimento inesperado.. e providencial! Preparava-se Pencroff para cortar uns quantos troncos e improvisar uma jangada que lhes permitisse atravessar o Mercy e chegar a casa, quando, subitamente, o jovem Harbert, que passeava ao longo da margem do rio, gritou, apontando para montante:
- O que é aquilo que ali vem rio abaixo?
- Mas é o nosso bote, macacos me mordam! Pelos vistos, partiu-se a amarra... Ora não podia aparecer em melhor altura!
Era, efetivamente, o bote dos colonos que voltava sozinho da nascente do Mercy, arrastado pela corrente da vazante. Nab e o marinheiro, munidos de varapaus, correram a suster a embarcação e puxaram-na para a margem. Cyrus Smith foi o primeiro a embarcar, verificando que a ponta da corda estava gasta como se tivesse roçado constantemente contra uma superfície áspera.
Gedeão Spilett, que subira a seguir, disse baixinho:
- Mas que coisa tão....
- Estranha! - concluiu o engenheiro, também a meia voz.
Estranha, ou não, fora uma coincidência feliz. Tivesse a barca passado a outra hora, que não naquele preciso momento, e seria arrastada para o mar. Os outros embarcaram e umas quantas remadas bastaram para os pôr do outro lado, junto à foz. Puxaram o bote para a areia e encaminharam-se para as escadas... Nesse momento, Top começou a ladrar furiosamente e Nab, que tinha ido à frente e procurava no escuro a extremidade da escada de corda, soltou um grito. A escada desaparecera! Cyrus Smith ficou paralisado, sem articular palavra. O que poderia ter acontecido? Os outros começaram a procurar às apalpadelas ao longo da muralha de granito, não fosse o caso de a escada se ter desprendido e caído na praia... Mas não! Quanto a saber se algum golpe de vento levantara a escada, deixando-a presa nalgum ponto da falésia, só de manhã isso seria possível.
- Se é uma brincadeira, é de muito mau gosto! - vociferava Pencroff. - Isto de uma pessoa chegar a casa e não poder entrar, não tem graça nenhuma! Mais a mais, estafados como estamos.
- Não tem estado vento... - murmurou Harbert.
- Ouçam, amigos, com esta escuridão não podemos fazer nada. Vamos esperar pelo romper do dia e logo se verá... - decidiu o engenheiro Smith. - Dormimos nas Chaminés que sempre é melhor do que ficar ao relento.
Mal clareou a madrugada, o grupo de colonos aproximou-se cautelosamente da Casa de Granito, de armas preparadas para qualquer eventualidade. Mal olharam lá para cima, soou uma exclamação unânime: a porta estava escancarada! Não havia dúvida de que alguém entrara em casa, na ausência dos colonos.
A primeira escada, da porta ao patamar de rocha, estava no lugar, mas a parte inferior fora puxada para cima.
Pencroff chamou em voz alta, mas não houve resposta.
- Que grandes patifes! Instalados como se a casa fosse deles... Ah! os piratas, com trinta mil diabos!
O sol subia no horizonte iluminando plenamente a fachada da Casa de Granito, mas o aspecto era da maior calmaria e não se via vivalma... Até era caso para duvidar que a casa estivesse ocupada, se não fosse a porta aberta e a escada recolhida! A única coisa que podiam tentar era apanhar a ponta da escada, içada até ao patamar a meio da muralha, e puxá-la; por sorte, tinham um arco, flechas e cordas nas Chaminés, e Harbert foi escolhido para levar a cabo a proeza. Amarrou uma corda à seta, fez pontaria e disparou. A seta cortou os ares e foi prender-se na escada! Ia o rapaz puxar pela ponta da corda para desprender a escada, quando um braço apareceu à porta e içou as escadas para dentro de casa! Ao mesmo tempo, surgiam às janelas umas criaturas peludas e de tamanho considerável a fazer acenos e caretas na direcção dos colonos...
- O quê? Não querem lá ver! Os invasores são macacos. Esperem aí, que eu já lhes digo! - berrou Pencroff, disparando um tiro para uma das janelas.
Uma das criaturas caiu redonda na praia. Era um animal corpulento, do tamanho de um homem. Depois de um breve exame, Harbert virou-se para o marinheiro:
- Olha, Pencroff, não são exatamente macacos... São orangotangos, da ordem dos antropomorfos e, para além do seu aspecto quase humano, são espertíssimos!
- Pois sim, pois sim... Macacos ou orangotangos tanto me faz! Só queria saber é como vamos entrar em casa! - arrepelava-se o marinheiro. - De parvos é que não têm nada! Vejam lá se eles aparecem outra vez à janela! Ai os estragos lá em casa... e a razia na despensa!
Os colonos esperaram mais umas boas duas horas, mas nem um único orangotango se deixou ver.
Cyrus Smith achou melhor esconderem-se todos, para ver a reação dos intrusos. Nesse meio tempo, Nab e Pencroff foram à capoeira do planalto buscar uns pombos-da-rocha para o almoço. O tempo foi passando e a situação mantinha-se. Era desesperante!
- Ah! se eu apanho essa macacaria toda cá em baixo! Quantos serão? - perguntou Pencroff, feito uma autêntica fúria.
- Que situação mais ridícula, realmente! - desabafava o repórter. - E o pior é que não vejo maneira de lhe pôr fim...
- Há uma maneira... - disse, de repente, o engenheiro. - A entrada pelo escoadouro do lago!
- Com mil diabos! E eu que não me lembrei disso! - exclamou Pencroff.
A abertura do escoadouro, agora tapada com pedregulhos, teria de ser novamente destapada, mas não havia outra solução.
Os colonos correram às Chaminés a buscar as picaretas e já subiam a caminho do lago, quando começaram a ouvir uma chinfrineira medonha! Os orangotangos guinchavam e Top ladrava ao desafio...
- Toca a correr! Vamos ver o que é - disse o repórter.
Na Casa de Granito, a situação alterara-se radicalmente! Tomados de tão súbito quanto inexplicável terror, os quadrúmanos saltavam de janela em janela, até que atiraram a escada e desataram a descer empurrando-se uns aos outros... Na precipitação da fuga, alguns nem esperaram vez e lançaram-se para a praia, caindo estatelados. Dali a nada, havia uma boa dezena de orangotangos mortos na areia e outros tantos a fugir em direcção ao bosque do Jacamar.
- Hurra! Hurra! - gritava o marinheiro, que foi o primeiro a subir a escada.
A Casa de Granito estava um verdadeiro caos, mas depois de uma inspeção meticulosa, os colonos verificaram que a desarrumação era maior que o estrago propriamente dito. O resto do dia foi dedicado às tarefas de limpeza e arrumação, mas Cyrus Smith, por mais que pensasse no assunto, não atinava no motivo da súbita e aterrada fuga dos orangotangos. Mais outro acontecimento que ficava por explicar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Ilha Misteriosa
RandomSinopse: A história começa nos Estados Unidos da América, durante a guerra civil, durante o cerco de Richmond, Virginia, a capital dos Estados Confederados da América (Sul). Cinco americanos do norte, prisioneiros, decidem fugir utilizando um meio p...
