CAPÍTULO 9 - GUILHERME

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Capítulo narrado pelo Guilherme, gente.

=)

*****



Como é que nós nunca nos aproximamos quando todas as estrelas estavam alinhadas?

(...)

Nada mudou porque eu ainda sou realidade e ela é ficção

Ou eu, talvez, seja imperfeitamente formado nessa contradição.

(Fact Fiction - Mads Langer)


Anne insiste para que Lara fique um pouco mais. Ela olha o relógio e, após constatar que já passam das 19h, diz que não quer abusar da boa vontade de ninguém. Ela não está abusando, a tarde foi ótima e tenho certeza de que a noite também seria, mas não insisto. Talvez ela queira apenas ir para casa descansar um pouco.

― Você podia voltar mais vezes, o dia foi ótimo ― Annelise diz.

― Obrigada, Anne ― ela responde, sentindo liberdade para chamar minha irmã pelo apelido. ― É só convidar que eu venho. Acho que consigo explicar ao taxista como chegar aqui.

― Táxi? Não senhora ― Anne interrompe. ― Vamos marcar de novo e o Gui traz você, não traz? ― Ela me dá um olhar inquisidor. Não seria sacrifício nenhum trazer Lara aqui.

― Claro que sim! Basta as madames me avisarem ― respondo, gostando sinceramente do fato de Lara e minha irmã terem se dado bem. ― Vamos? Vou devolver você.

Lara sorri e há algo nesse sorriso, algo que não consigo definir, mas que começou a mexer comigo.

Depois que Lara se despede de todos, empurro a cadeira de rodas até o carro e, outra vez, ajudo-a a subir. Para mim não é uma tarefa chata ou difícil. Gosto de fazer isso, pois cada vez que ela se apoia no meu ombro, consigo sentir o cheiro que ela exala: uma mistura cítrica e adocicada.

Coloco a cadeira de rodas na carroceria e entro.

― Gostou da tarde, Lara?

― Muito! Uma das melhores que já tive ― ela responde e parece ser sincera.

Contemplo mais um pouco o sorriso em seu rosto, tentando imaginar o que se passa na cabeça dela.

Desde que a conheci, é assim: quando me dou conta, estou observando-a minuciosamente, tentando adivinhar seus pensamentos. Algumas vezes, a expressão em seu rosto é um enigma e me perco tentando ler seu semblante para entendê-la melhor.

Lara abaixa a cabeça, desconcertada pelo meu olhar insistente, e ajeita o vestido. Dou marcha à ré e logo ganho a rua.

Com um olhar rápido vejo como a noite está bonita e uma ideia me ocorre.

― Lara?

― Sim?

― Antes de te levar para casa, posso te levar a outro lugar?

Eu não sei explicar o motivo, simplesmente não quero que o dia termine, quero prolongá-lo o máximo que consigo. Cada vez que preciso me despedir de Lara, sou invadido por um receio, um medo bobo: medo de não vê-la mais.

A primeira vez que me encontrei com Lara no hospital, toda aquela situação com as flores e com Patrícia foi engraçada, mas percebi, instantaneamente, que Lara não estava bem.

Dois PassosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora