Capítulo 25 - Lara

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Há quanto tempo estou nessa tempestade?
Oprimido pelo oceano
Está cada vez mais difícil
Caminhar sobre as águas
Com essas ondas quebrando em minha cabeça.
(Storm - Lifehouse)


Abro os olhos ainda sonolenta. Nem sei ao certo que horas são. Olho para a janela e, apesar da cortina cobrindo-a, sei que é noite.

Tento achar alguma outra posição confortável embora qualquer uma seja ruim com essa haste na perna. Fecho os olhos e penso nos acontecimentos recentes.

Passei uma parte da manhã na casa de Rafael, pois sua mãe fez questão de fazer um almoço para comemorar nosso noivado. Porém, assim que acabamos de comer, disse a ele que não estava me sentindo bem e pedi que me trouxesse para casa.

Rafael se ofereceu para ficar comigo e eu falei que precisava dormir um pouco. Realmente foi isso que fiz. Tomei um comprimido de relaxante muscular e me deitei. Literalmente eu apaguei. Poderiam ter jogado uma bomba ao lado da minha cabeceira que eu não teria escutado e sei que não foi apenas o efeito do remédio: não preguei os olhos ontem à noite.

Eu sonhei inúmeras vezes com um pedido de casamento e, de tudo o que eu imaginei que pudesse sentir, tristeza não fazia parte da lista. Sinto que existe algo faltando dentro de mim. Admiro o anel em meu dedo, realmente lindo, do jeito que sempre sonhei e eu, simplesmente, não sei por que as lágrimas continuam caindo. Meu reservatório de lágrimas já deveria ter secado ontem, lá pelas três da madrugada.

Estico o braço, pego meu celular na mesinha de cabeceira e constato que são quase 22h. Também vejo várias chamadas perdidas, algumas da Patrícia e outras de Rafael. Faço uma nota mental para responder os dois assim que eu recobrar um pouco do ânimo.

Ouço o barulho da TV e sei que minha mãe já chegou do serviço, então resolvo ir para a sala lhe fazer companhia.

Não chegamos tarde do restaurante ontem e, quando voltei para casa, minha mãe ainda estava acordada. Ela já sabia que Rafael iria me fazer o pedido, por isso não precisei entrar em detalhes. Expliquei como aconteceu, fui para o quarto e, assim que tive a oportunidade, coloquei o travesseiro sobre o rosto na tentativa de abafar o barulho do choro.

Eu deveria ser a mulher mais feliz do mundo, mas não sou. Tantas perguntas invadem a minha mente, tantos temores. E se a decisão que eu tomei não foi a certa? Talvez fosse melhor ter dito não, mesmo que eu corresse o risco de ficar só.

Mas e se eu não encontrasse outra pessoa? Se eu perdesse essa chance e ela fosse a oportunidade da minha vida?

E se eu tivesse falado com o Guilherme antes da Karen? Será que ele realmente sente algo por mim? Tantas indagações e nenhuma resposta.

― Oi, mãe, como foi o dia de trabalho? ― Pergunto enquanto tento me sentar.
― Foi bem, filha, tudo tranquilo hoje. E o seu dia? Como foi o almoço na casa da sogra?
―Também foi tranquilo. ― Ela me dá um pequeno sorriso.
― Quer comer algo?
― Não, mãe. Estou bem, obrigada.
― Está dormindo desde que horas?

Fico desconfortável com a pergunta. Minha mãe não é boba e sabe que alguma coisa está estranha.

― Me deitei depois do almoço. Não estava me sentindo bem.
― Tudo isso? Não vai conseguir dormir agora.
― Fico assistindo TV até o sono chegar, se for preciso ― respondo, tentando parecer bem.
― E trate de comer algo.
― Pode deixar!

Em algum momento da noite, envio uma mensagem para Patrícia e Rafael justificando meu sumiço. Fico deitada no sofá por ainda muito tempo depois que minha mãe vai dormir e, mais uma vez, só consigo fechar os olhos na metade madrugada.

Levanto-me bem tarde na manhã seguinte. Tenho olheiras profundas e uma expressão triste. Tento sorrir para o espelho, tento forçar uma alegria, mas ela não existe e eu não consigo fingir.

―Bom dia, filha ― minha mãe me saúda assim que saio do banheiro.
― Bom dia, mãe.
― Estive no mercado mais cedo e comprei isso para você.

Ela me estende uma revista de noivas e eu me perco por alguns segundos olhando a capa.

― Filha? ― ela chama minha atenção.  ― Gostou?
― Ah, claro. Sim. Obrigada, mãe.

Continuo com a revista em minhas mãos sem encontrar coragem para abri-la. Se eu começar a procurar vestidos e a pensar na festa, eu estarei de uma vez por todas assumindo para mim mesma que agora é para valer, que eu vou me casar.

Estou em negação.

Meus olhos pousam outra vez no anel em minha mão e eu não tenho outra escolha a não ser me convencer de que, abrindo ou não essa revista, eu já estou noiva.
Almoço calada e minha mãe respeita meu silêncio. Após o almoço, sento no sofá, fitando a revista que eu havia colocado em cima da mesa de centro. Estou, finalmente, tomando coragem para abri-la quando recebo uma ligação de Patrícia.

― Oi, amiga.
― Oi, amiga uma pinoia! Ficou boba? Ficou maluca? Surtou? Como assim você ficou noiva?
― Como sabe disso? ― Pergunto, sem ânimo algum, embora eu esteja surpresa.
― E o nosso ritual? Eu queimei a foto do defunto; eu estou tentando mudar e você faz isso? Você disse que iria atrás do Guilherme ― Patrícia continua a mil por hora.
― Como sabe que eu estou noiva? ― Insisto.
― A Annelise me contou.
― Anne? ― Pergunto, ainda tentando juntar as peças.
― O Guilherme estava lá no restaurante e eu sei que você encontrou com a Karen.

Não estou com cabeça e nem com saco para tentar adivinhar nada, então sou direta:

― Me deixa entender: o Guilherme contou para a Anne, que contou para você, foi isso?
― Foi, já que você nem se deu ao trabalho de avisar a sua melhor amiga.
― Ai, Patrícia, é complicado...
― Lara, você tem certeza do que está fazendo?

Fico em silêncio, tentando responder essa pergunta a mim mesma.

― Você precisa saber que o Guilherme ficou mal com esse seu noivado.
― Mal? Ele está com a Karen, Pati. Mal ele com certeza não está.
− Amiga, peço licença para te falar algo. Posso?
― Pode.
― Sua retardada! Pare de tirar conclusões sozinha e procure as informações direto na fonte. Eles não estão juntos. Eles estavam lá naquela noite porque o Guilherme queria pedir que ela tomasse um chá de sumiço da vida dele. Ele só ia falar para ela que o namoro deles não tinha volta.

Sou pega de surpresa com essa informação, porém a lembrança da Karen, toda sorridente no banheiro, me deixa irritada.

― A Karen não parecia triste.
― Não importa a Karen. Ele ficou arrasado com seu noivado.
― Arrasado? ― Fico ainda mais irritada.  ― Arrasado por qual motivo? Por que ele gosta de mim?
― É claro!
― Não, Patrícia. Não é claro nada. Ele teve muitas chances para me dizer isso e, em vez de fazê-lo, ele disse que não queria me magoar e me pediu desculpa. ― A irritação continua crescendo dentro de mim. ― Então, não. Não é claro nada! Eu estava a ponto de abrir mão de tudo para ir atrás dele e aí... ― Engulo o choro e diminuo o tom de voz, pois minha mãe está em casa. ― Aí eu o encontro com a Karen, que me fala que os dois estavam lá, juntos. Você queria que eu fizesse o quê? Eu olhei para a mesa dele e o vi esperando por ela enquanto na minha mesa havia um homem se declarando, me pedindo em casamento...

Por mais que tente, não consigo conter as lágrimas. Não quero que minha mãe veja meu estado então trato de encerrar a conversa ali mesmo.

― Olha, amiga, quando você puder, vem aqui em casa e nós conversamos. Eu preciso desligar.

Não a espero falar mais nada. Se eu fizer isso, corro o risco de não parar mais de chorar. Desligo, respiro fundo e limpo o rosto com as mãos.

Abro a revista estúpida de noivas e começo a folhear aos poucos. Cada página exibe um modelo de vestido mais lindo que o outro e eu tento me lembrar daquele com o qual sempre me imaginei entrando na igreja. Por mais que eu force minha mente, não consigo pensar em nada.

Continuo folheando as páginas na esperança de encontrar algo que chame a minha atenção, porém eu não me vejo em nenhum daqueles vestidos. Conforme eu passo as páginas, não vejo mais nada, é como se essa revista tivesse apenas páginas em branco.

Minha cabeça já está começando a ferver. Percebo, finalmente, que o problema, aqui, não é o fato de não ter gostado de nada. O problema é que eu não consigo me ver como noiva.

Estou tão irritada e concentrada em meus pensamentos que mal percebo quando minha mãe se senta ao meu lado.

― Gostou de algum, filha?
― Pra falar a verdade, não...
― Hummm... Achei que você gostaria deste. ― Ela procura o modelo e me mostra. ― Quando você era mais nova, dizia que iria se casar com um vestido assim.

O vestido é perfeito. Tem mangas compridas de renda e um decote comportado. É justo nos quadris e possui uma cauda pequena. Delicado, elegante e eu me lembro que realmente sempre quis um daqueles.

― Ele é lindo, mãe.
― Quando sua perna estiver melhor, você pode começar a experimentar vestidos. Só dá para saber qual modelo combina mais com você quando estiver dentro de um porque no corpo fica bem diferente.

Tento me imaginar caminhando até o altar com aquele vestido, mas minha mente bloqueia qualquer pensamento do tipo. Eu tento imaginar Rafael me esperando lá na frente, mas no lugar do rosto dele eu vejo apenas um borrão, então começo a sentir uma bola se formar em minha garganta.
― Já tem ideia das cores da decoração? ― Minha mãe me pergunta e eu sinto a pressão crescer em minha cabeça. Eu estou lutando para não chorar, mas acho que será em vão. ― Filha?

Olho para minha mãe com os olhos marejados.
― Oh, meu amor, vem aqui. ― Ela me envolve em seu abraço de mãe e eu recomeço a chorar. ― O que foi, meu amor?
― Eu... eu estou tão confusa… ― falo, misturando as palavras com os soluços enquanto me aninho no abraço dela.
― Você não sabe se quer se casar ou não sabe se quer se casar com o Rafael?

Dou de ombros enquanto ela acaricia meu cabelo.

― Meu bem, isso tem alguma coisa a ver com o Guilherme?

Não esperava ouvir aquilo da minha mãe. Saio da posição em que estou para olhá-la.

― Não precisa me olhar com essa cara de espanto, Lara. Eu não sou boba e percebo as coisas. Depois que vocês se conheceram, você mudou muito, minha filha.

Não consigo continuar olhando nos olhos dela e viro o rosto para outro lado em uma postura defensiva.

― Você gosta dele, não é? Ele é um bom rapaz.
― Não! ― Eu não posso suportar até minha mãe me dizendo essas coisas, não consigo lidar com isso. Eu tomei uma decisão e não preciso de mais uma pessoa colocando dúvidas em minha mente. ― Não! Eu não gosto dele. Eu gosto do Rafael. O Guilherme é apenas o cara que me atropelou. Um descuidado qualquer que não prestou atenção no semáforo e, por causa dele eu estou aqui, quase uma inválida, com isso na minha perna. A culpa é dele, a culpa é dele...

Os soluços me impedem de continuar falando. Estou com muita raiva, de mim e da vida. Despejo as palavras sem pensar no que estou dizendo. Eu só preciso sentir raiva porque só assim conseguirei esquecer, só assim conseguirei seguir em frente. Se eu estiver com raiva de Guilherme, conseguirei superar o que eu sinto por ele e a confusão que isso causa em meu coração.

― A culpa não é dele, Lara.
― O quê? ― Pergunto, sem compreender o que ela quer dizer com isso.
― A culpa não é do Guilherme, meu amor. Ele não te atropelou.
As palavras da minha mãe não entram em minha mente e eu continuo olhando para ela esperando uma explicação.

― Bom, ele bateu com o carro dele em você, mas ele não estava errado. O semáforo estava aberto, Lara. Foi você quem atravessou na hora errada. Você poderia ter morrido se ele tivesse furado o sinal, mas como a velocidade do carro ainda estava baixa, graças a Deus, não aconteceu o pior.

Eu olho estupefata para minha mãe sem acreditar no que ouço.

― Nunca entendi o motivo de você pensar que ele estivesse errado, mas como você parou de falar sobre isso, eu até me esqueci de te contar. O Guilherme ficou muito preocupado quando tudo aconteceu, me ligou e deu toda a assistência, mesmo sem ter sido culpa dele. Ele também me contou naquele dia que seu rosto estava todo molhado, que você estava chorando...

Pelo visto, isso é tudo o que eu sei fazer: chorar.

― Lara, quero te contar uma coisa. ― Olho para ela enquanto tento me livrar da inundação que continua a molhar meu rosto. ― Não foi minha intenção, mas acabei ouvindo sua conversa com a Patrícia no dia em que ela quase colocou fogo na casa. Ela é meio maluquinha, mas tem razão nas coisas que te disse: você não pode continuar presa ao passado, minha filha. Eu superei o que o seu pai fez conosco, então você também precisa superar.

Ela me olha com carinho enquanto fala.

― Meu amor, me desculpa por não ter te dado o lar que você merecia. Eu sei que uma presença masculina em casa te fez muita falta, mas, por muitos fatores diferentes, eu tive medo de recomeçar com outra pessoa. Eu trabalhava muito, ficava fora tempo demais e, quando surgiu tempo, eu temi trazer um homem para casa, pois você era muito nova. Foram tantas coisas... Mas você precisa entender que o fato de eu ter ficado tanto tempo só não significa que fui infeliz. Eu fui e sou muito feliz porque eu sempre fui muito bem resolvida comigo mesma. E eu também quero que você seja feliz, Lara. Eu tenho certeza de que você vai conseguir alcançar tudo o que sonha, mas antes de conquistar seus sonhos, você precisa estar bem consigo mesma. Meu amor, não se case por medo de se tornar uma mulher de meia idade sozinha, feito sua mãe. E eu não sou tão solitária quanto você pensa, algumas vezes conheço uns enfermeiros charmosos.

Ela sorri, mas também tem os olhos marejados.

― Lara, não se case por medo de nada, isso só vai te deixar mais infeliz. Não é a presença de alguém em sua vida que vai fazê-la feliz. Você só vai conseguir ser feliz, mesmo dentro de um casamento, se você estiver satisfeita com quem você é.  Meu amor, o Rafael é uma ótima pessoa e, se você acha que não está na hora, converse com ele e esperem mais um pouco. Mas, se seu coração está balançado por outra pessoa, talvez você deva pensar melhor no que está fazendo. E não importa sua decisão final, filha. Apenas não se precipite. Você é jovem e tem a vida inteira pela frente.

Ela me dá mais um abraço apertado e sai da sala, me deixando sozinha com meus pensamentos. Eu continuo olhando aquele vestido enquanto as palavras da minha mãe ecoam nos cantos da minha mente.

Sem perceber, eu havia feito tudo o que ela disse e acabei perdida no emaranhado das minhas próprias confusões e medos. Eu queria encontrar alguém melhor do que meu pai, que não me abandonasse. Não queria passar pelas fases da vida sozinha e acreditava que assim tudo ficaria bem. Mas, na minha jornada, eu acabei esquecendo de mim mesma. Quando Guilherme entrou em minha vida, ele começou a me mostrar isso.

Tiro a aliança do meu dedo e observo-a de perto. Sei que Rafael se esforçará muito para me fazer feliz, sei que ele realmente se esforçará. O que eu não consigo responder para mim mesma é se eu conseguirei fazê-lo feliz. Se eu conseguirei viver toda uma vida me perguntando como teria sido se minhas escolhas fossem diferentes.

Aperto a aliança dentro da mão ao mesmo tempo em que aperto os olhos com força. Não sou apenas eu aqui, são duas pessoas, duas vidas, dois corações. Como posso me comprometer a passar uma vida inteira com alguém se eu mesma não acredito que posso fazê-lo feliz? Como posso ser egoísta a esse ponto?

Recoloco a aliança no dedo, vou até meu quarto, troco de roupa e pego uma bolsa.

― Vai sair, filha?
― Vou mãe. Preciso resolver umas coisas.

Pego um táxi, indico ao motorista o endereço para onde desejo ir e, algum tempo depois, desço na porta de uma grande empresa: o local de trabalho de Rafael.

Peço ao motorista que me espere, pois não vou demorar. Assim que entro na recepção, peço para falar com Rafael.

― Diga que não vou tomar muito de seu tempo ― solicito à moça que me atende.

Entro no elevador e subo até o 10° andar, Rafael me espera na porta do elevador com um ar preocupado.

― Meu amor? Está tudo bem? Você nunca veio aqui antes.
― Podemos conversar a sós?

Ele me guia até sua sala e fecha a porta atrás de nós.

― Aconteceu alguma coisa, Lara?

Fixo meus olhos em sua mesa. É grande e organizada. É da natureza dele ser assim. Meus olhos estão, pela milésima vez, marejados hoje, e eu ainda sinto medo do que vou fazer, mas preciso fazê-lo. Então, olho para ele e pergunto:

― Lembra quando nos conhecemos?
― Claro que me lembro, meu amor ― ele responde, ainda preocupado.
― Você me perguntou se eu estava atrasada. ― Ele confirma com a cabeça. ― Eu me atrasei mais uma vez, Rafael.

Ele continua me olhando sem compreender.

― Você seguiu com sua vida e eu não consegui te acompanhar. Eu me atrasei novamente e acabei ficando para trás. ― Não tento limpar as lágrimas, que agora caem livremente. ― Eu tenho te visto fazer planos, mas sinto que não faço mais parte do seu futuro. Eu mudei e você também mudou.

Sua expressão altera-se no momento em que ele é atingido pela percepção do que eu estou tentando dizer. Enquanto eu tiro a aliança do meu dedo, ele segue meus movimentos com o olhar.

Estendo o braço lentamente, devolvendo a aliança a ele. Rafael pega o anel da minha mão e, ainda sem me olhar, pergunta:

― É por causa dele? Do Guilherme?
― Sim. ― Respiro fundo. ― Mas também é por mim e por você.
− Eu coloquei todas as minhas expectativas e sonhos no nosso relacionamento e acabei me esquecendo de mim mesma. Eu perdi minha identidade, deixei de ser a Lara para ser somente sua namorada e foi preciso que eu sofresse um acidente para perceber isso, então, é por causa do Guilherme. Você estava ocupado lutando pelos seus sonhos enquanto eu estava apenas esperando por você e não, você não estava errado, eu é que estava. Então também é por mim. E é por você porque sei que você daria a vida para me fazer feliz, mas não sei se eu conseguiria te fazer feliz. E isso não seria justo com você.

Uma lágrima solitária cruza o rosto dele.

― Se eu não tivesse te deixado tão sozinha, talvez não tivesse perdido você.

Não consigo respondê-lo, pois os soluços não me deixam fazê-lo. Ele me abraça com força e eu sinto alguns tremores pelo corpo dele. Rafael também está chorando.

― Eu sinto muito, Lara. Me perdoe por não ter sido o homem que você esperava ― ele diz com a voz embargada.

Eu me solto do abraço o suficiente para fazê-lo olhar para mim. Ele tem os olhos vermelhos e vê-lo desse jeito parte meu coração.

― Obrigada por tudo, Rafael, por cada momento. Você foi uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido minha vida.

Rafael tenta sorrir, mas não consegue. Ele beija minha testa enquanto ainda me mantém presa em seu abraço.

― Que você seja muito feliz, Lara. Eu vou sempre torcer por você.

Limpo meu rosto e viro as costas em direção à saída. Antes de finalmente fechar a porta e deixar meu passado para trás, vejo Rafael olhando a aliança que devolvi, totalmente desolado.

Saio do prédio, ignorando os olhares curiosos, e me dirijo outra vez ao táxi que me aguarda.

― Para onde agora? ― O motorista pergunta assim que entro.

Olho pela janela enquanto tomo fôlego.

― Praça Central.


Quando o táxi estaciona em frente à praça, eu ainda choro e não sei ao certo o que estou fazendo aqui. Olho para a fachada do prédio que abriga o escritório de advocacia e, de repente, me sinto paralisada. Não sei se deveria ter vindo.

― Quer que espere outra vez? ― O motorista, um senhor já grisalho, me pergunta.
― Não, obrigada ― respondo, tomando coragem para sair do carro.

Pago pela corrida e me sento em um dos bancos da praça. O escritório está um pouco mais à minha esquerda e eu localizo o carro de Guilherme estacionado em uma sombra, perto da entrada.

Algumas pessoas passam por mim e me olham com curiosidade. Não é de se estranhar, eu estou chorando a cerca de dois dias e meu rosto deve estar bastante inchado. Mas eu não me importo com isso. Eu preciso apenas arrumar a minha própria bagunça interior e o restante do mundo já não me preocupa mais.

Fixo meu olhar na porta do escritório. Estou entorpecida, as pessoas passam por mim e eu já não as vejo, apenas sinto o calor das gotas que continuam a jorrar dos meus olhos. Meus pensamentos estão tão altos que eu sequer ouço os sons ao meu redor.

― Lara? Lara? Está tudo bem? Lara? ― Uma voz distante chama minha atenção. Olho para cima e vejo André. Ele está logo à minha frente, a poucos centímetros de mim. Meus sentidos estão me traindo.

André segura um copo em uma das mãos e me olha como se eu fosse louca. Eu realmente devo parecer uma.

― Lara, o que aconteceu?

Continuo olhando para ele e acredito que demoro alguns segundos antes de apenas balançar a cabeça negativamente.

― Não? “Não” quer dizer o quê? ― Ele continua tentando arrancar alguma coisa, mas eu ainda estou entorpecida. ―Vem, vamos subir. Vou te dar uma água com açúcar, eu acho, não entendo disso. Mas se não for açúcar, a secretária descobre alguma outra coisa para misturar.

Ele me ajuda a ficar de pé e eu continuo, sem saber se devo ir até lá ou não.

― Vem, Lara, eu te ajudo, ― Meu corpo cede e eu o acompanho.

Quando chegamos à recepção, o festival de expressões curiosas continua.
― Aqui, Sheila, segura meu suco para mim. Coloca lá na geladeira, por favor. E escreve meu nome na embalagem para ninguém tomar.

É um prédio de três andares. Não há elevador convencional, existe apenas um elevador especial para deficientes físicos. André me conduz até ele e sobe comigo até o terceiro andar.

Eu sinto que as lágrimas começam a secar. Quando chegamos ao terceiro andar, André me conduz a uma porta, ao lado dela há uma mesa e uma mulher.

― Carmem, teria como você conseguir um copo de água com qualquer substância calmante que você encontre perdida por aí?

Carmem me olha espantada e sai dizendo que vai providenciar.

― Vem, Lara, o Guilherme está aqui.

Travo por um minuto no lugar em que estou. Guilherme está logo atrás daquela porta e eu sequer sei o que vou falar, sequer sei o que estou fazendo aqui.

― Lara? − André toca meu braço e eu recomeço a andar.

Ele abre a porta e entra na minha frente enquanto chama Guilherme.

― Müller?
― Sim? ― É a voz de Guilherme e meu coração responde ao som acelerando um pouco mais.
― Olha quem eu encontrei lá na praça… ― André olha para mim e eu termino de entrar na sala.

Dois PassosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora