Se eu deixar você partir eu nunca saberei
Como minha vida seria tendo você perto de mim.
(If I Let You Go - Westlife)
Estou concentrado em uma leitura quando ouço a porta se abrindo e André me chamando.
― Müller?
― Sim? ― respondo, sem tirar os olhos dos papéis.
― Olha quem eu encontrei lá na praça… ― Levanto os olhos e vejo Lara entrando com dificuldade após André.
Seus olhos estão vermelhos e inchados. Ela havia chorado. A resposta automática do meu corpo é sair detrás da minha mesa e caminhar em direção a ela.
― Lara? Você está bem? ― Ela me olha, mas não diz nada. Tem o semblante carregado e parece ser de tristeza.
― Aqui, água com açúcar. ― Carmem chega neste momento e estende um copo para Lara, que toma o conteúdo devagar, com o olhar perdido. Assim que Carmem sai, André também se manifesta.
― Eu vou deixá-los a sós. ― Ele fecha a porta atrás de si.
Puxo uma cadeira e peço que ela se sente, mas Lara apenas nega com a cabeça.
― O que aconteceu? Por que você estava chorando?
― Eu… ― ela começa a falar, mas não conclui a frase.
Estou ao lado da cadeira que havia oferecido a ela. Lara está em pé, próxima à porta, amparada pelas muletas.
― Por que você nunca me falou? ― Ela pergunta e eu prendo a respiração.
O que ela quer dizer com isso? Será que ela sabe que eu me apaixonei por ela?
― O que eu nunca te falei? ― Pergunto cautelosamente.
― Que você não me atropelou.
― Lara, do que você está falando? ― Fico um pouco decepcionado e confuso.
― Não foi você. Fui eu quem atravessou quando o sinal estava aberto.
― Ah, isso. ― Dou um longo suspiro. ― Eu não achei que fosse importante.
― As primeiras vezes que nós nos vimos eu fui grossa com você, te culpei, mas você não disse nada...
Ela tem a voz embargada, parece que a qualquer momento começará a chorar e eu simplesmente não sei o que está acontecendo com ela.
― Lara, para mim não importa quem foi o errado. Nunca importou. Eu só queria ter a certeza de que você ficaria bem.
― Mas você teve essa certeza. Você sabia que eu estava bem e...
― E não fui embora? É isso que você ia dizer? ― Ela balança a cabeça afirmativamente e eu continuo. ― As coisas mudaram a partir daquele acidente, depois que você entrou na minha vida. Eu não consegui ir embora, não consegui deixar você.
Sinto-me completamente frustrado. Olho para o rosto dela, para as lágrimas que descem uma a uma e preciso me controlar para não a abraçar, confortá-la. Ela está noiva e eu tenho que respeitar os meus limites e os dela também.
Mas, ao mesmo tempo, eu quero dizer que ela não deveria ter feito aquilo, que não deveria ter aceitado se casar com Rafael.
Ela está na minha frente com o rosto molhado, falando coisas desconexas e eu estou uma pilha de nervos. Vou até a janela para tentar organizar meus pensamentos e a visão da praça, lá embaixo, me faz começar a pensar com clareza.
― O que você estava fazendo na praça, Lara?
Ela desvia o olhar e eu dou alguns passos em sua direção.
―Você não veio aqui apenas para me perguntar o porquê eu nunca te contei que o sinal estava verde. Você não pode ter vindo aqui apenas para isso.
Lara permanece calada e eu sinto um impulso crescendo dentro de mim.
Ela aceitou se casar e eu resolvi lutar para enterrar o que sinto, mas agora Lara está aqui, na minha frente, e não foi à toa que chegou até aqui, ela veio me procurar. Lara também sente algo por mim, só pode ser isso.
― Você está aqui porque sabe que as coisas mudaram para você também depois daquele acidente ― eu afirmo embora ainda tenha receio de estar errado.
Estou cansado de esconder meus sentimentos, de mascarar minha dor e viver de migalhas. Talvez seja tarde demais, mas eu não pretendo enterrar o que sinto sem que ela saiba. Ela vai ouvir.
Dou mais alguns passos em sua direção e continuo falando:
― Você veio até aqui, Lara, porque você sente algo por mim. Talvez você não entenda o que se passa no seu coração, só que eu sei, perfeitamente, o que se passa no meu. Eu me apaixonei por você. Me apaixonei e cometi a burrice de não ter te contado antes. Tive medo de que você me visse como irmão e se afastasse quando soubesse, então me calei e Deus sabe como me arrependo disso! Mas eu não tenho mais nada a perder aqui.
Dou mais um passo em sua direção.
― Aquele beijo não foi um erro ou um acidente. Aquele beijo foi real e você nem faz ideia do quanto eu sonhei com aquele momento. Eu penso nisso todos os dias, Lara, o tempo todo. Enquanto eu podia, tentei disfarçar o que eu sentia, mas eu não tenho mais dezesseis anos. Sinceramente, estou cansado de me esconder e não vou mais fazer isso. Não vou mais deixar as oportunidades passarem. Quando a vida me abrir uma porta, eu vou entrar. E você também deveria fazer isso! Você deveria parar de esperar pelas pessoas e viver sua própria vida. Sabe, eu pensei que você estivesse mudando, procurando um curso, investindo em si mesma, mas parece que não... Por que você veio me procurar se aceitou se casar com o Rafael? Sabe por quê? Porque, no fundo, você não sabe se tomou a decisão correta, mas o medo da mudança te apavora. Você tem medo de se arriscar, Lara. Por isso, fica relendo livros que já conhece, porque você fica confortável dentro de finais que pode prever. Você fez um círculo e vive lá dentro, na sua zona de conforto. Só que isso não te faz feliz, isso não te satisfaz, não te preenche. Me responde, você vai viver toda sua vida assim? Vai ser o suficiente passar pela vida apenas existindo? Lara, respire fundo, se arrisque, pule, mas não fique do jeito que você está. Você será infeliz assim. Eu não estou te pedindo para terminar com seu noivo e ficar comigo, estou pedindo que dê uma chance a si mesma de tentar mudar o rumo da sua vida.
Todas essas palavras que eu acabo de dizer a ela valem para mim também. Eu preciso me arriscar mais, tentar mais. Lara está ali em minha frente, em silêncio, me olhando com esse ar de fragilidade e indecisão. Ela está noiva, mas ainda não está casada e, se decidir se casar, tudo bem, eu aceitarei. Mas, enquanto eu puder fazer algo, eu vou tentar.
Dou mais um passo em direção a ela e ficamos frente a frente. Olho dentro dos olhos de Lara e sinto a adrenalina percorrer meu corpo. Talvez eu nunca mais a veja se fizer o que eu quero fazer agora, mas há uma porta entreaberta aqui e eu vou passar por ela e descobrir o que me espera do outro lado.
― Quer saber? Que se dane o “não estou te pedindo para terminar com seu noivo e ficar comigo”! Eu quero que você fique comigo!
Coloco uma mão em seu pescoço e a outra em sua cintura trazendo o corpo dela para junto do meu. Não dou tempo para que ela retroceda e se afaste, eu a beijo. Coloco meu coração, minha vida nesse beijo. Quero que ela saiba a intensidade do que eu sinto por ela. Quero que ela sinta, através desse beijo, como eu estou apaixonado e como quero fazê-la feliz.
Ela retribui o beijo com a mesma intensidade e vontade. Lara apoia-se em mim, abandonando as muletas que caem no chão e eu paro de beijá-la apenas por dois segundos enquanto rio do som da queda. Mergulho outra vez de cabeça no beijo e, se meu celular tocar agora como na primeira vez, juro que o jogarei na parede.
Minhas mãos tocam o rosto dela, prendendo-o delicadamente em direção ao meu. Assim que ela abre os olhos, eu digo em um fio de voz:
― Eu estou apaixonado por você, Lara. Fica comigo?
Não consigo ver sua reação, pois, após três rápidas batidas, Carmem abre a porta.
― Com licença. Ah, me desculpem. ― Ela fica vermelha ao se dar conta do que está acontecendo aqui dentro. ― Não queria...
Mas o que acontece comigo? Todas as vezes sou interrompido. É muito azar! Respiro fundo e tento conter a irritação. Lara se afasta um pouco, mas continua se apoiando em mim, já que as muletas estão no chão.
― Não tem problema, Carmem.
― Seu pai está aí fora com dois clientes e pediu que eu dissesse que é urgente.
Tinha que ser agora?
― Eu… preciso ir. ― Lara resolve voltar a falar e tenta, em vão, alcançar uma das muletas no chão. Carmem a socorre antes que eu consiga mover qualquer músculo.
Eu não posso deixá-la ir, não posso correr o risco de que aconteça o mesmo que aconteceu em nosso primeiro beijo.
― Nossa conversa ainda não acabou, Lara.
Ouço mais batidas na porta.
― Guilherme, podemos entrar?
É a voz de meu pai.
― Claro, entrem.
Ele entra na sala acompanhado por dois homens e fica aparentemente surpreso ao encontrar Lara lá dentro.
― Lara, como vai? ― Ele pergunta e ela responde, extremamente sem jeito.
― Tudo bem, e o senhor?
― Tudo ótimo.
― Eu estava de saída, foi um prazer revê-lo. ― Lara está com dificuldades para fazer contato visual.
― Igualmente.
Carmem a acompanha e tudo o que eu peço aos céus é que seja lá qual for o motivo da reunião, não demore muito.
Infelizmente, minhas preces não são atendidas e, além da demora para o término da reunião, tenho que lidar com dois assuntos urgentes que tomam quase toda minha tarde. Por volta das 17h, pego as chaves do carro e estou de saída quando André me pergunta aonde eu estou indo com tanta pressa.
― Vou atrás da Lara.
― Hum... vá lá, Príncipe Encantado! ― ele diz, ao mesmo tempo em que ri.
― Idiota ― grito enquanto saio.
― Adolescente apaixonada. ― Ouço-o enquanto paro em frente à mesa de Carmem.
― Carmem, a Lara falou para onde ia?
― Não, senhor, ela não disse nada.
― Obrigada. Até amanhã.
Desço os três lances de escada enquanto tento falar com ela pelo celular, mas a ligação cai direto na caixa postal. Ligo para dona Suely, porém em casa Lara ainda não havia chegado e, por fim, tento o celular da Patrícia: ela também não tem notícias.
Começo a ficar preocupado. Logo vai escurecer e eu não faço ideia de onde Lara pode estar.
Será que ele está com Rafael? Esse pensamento me faz estremecer e eu continuo dirigindo até perceber que estou chegando ao parque. Já é tão familiar vir para cá que eu faço o trajeto automaticamente.
Guio o carro até o local de costume e, quando desligo o motor, percebo que há alguém no banco em que eu costumo me sentar. Estou ligando a ignição novamente para ir embora quando dou uma última olhada e percebo que conheço aquela silhueta: é ela.
Desço do carro e caminho em sua direção. Meu coração está a ponto de sair pela boca, agora, de uma vez por todas, eu vou resolver essa situação.
Lara nota minha aproximação, porém continua olhando para o lago. Me sento a seu lado e olho na mesma direção que ela.
― O céu por si só já dá um espetáculo todo fim de tarde. Refletido na água fica ainda mais bonito… ― ela diz, ainda sem me olhar.
De fato, é um efeito magnífico. Os tons avermelhados do céu refletidos na água criam uma atmosfera, de certa forma, nostálgica.
― Você tinha razão, Gui. Acerca de todas as coisas que disse sobre mim. Desde a primeira vez em que você me trouxe aqui, eu me pergunto como pôde me conhecer tão bem em tão pouco tempo.
Eu sei o motivo. Ela sempre exerceu um certo fascínio sobre mim. Lara é, ao mesmo tempo, tímida e extrovertida, alegre e melancólica, sempre controversa. Desde o princípio, ela me deixou intrigado.
― Eu sempre te ouvi e procurei te entender. Sempre prestei atenção não apenas às palavras que você dizia, mas àquilo que você não dizia também.
Seu olhar ainda estava perdido na tarde que caía.
― Lara? ― Ela, finalmente, olha para mim. ― Eu não vou pedir desculpas por tê-la beijado. Eu não me arrependo de nada.
Seu rosto agora está mais suave e ela não parece triste ou tensa. Tem olheiras, porém não está mais chorando. Seguro uma de suas mãos e a coloco sobre o meu peito.
― Consegue sentir isso? ― Ela observa sua própria mão aberta em meu peito por um segundo e volta a me olhar.
― Sim.
― É assim que eu fico quando estou perto de você.
Lara dá um longo suspiro e retira, lentamente, sua mão do meu peito. Por um instante, eu tenho medo de que ela se esquive, mas então ela faz a mesma coisa que eu e conduz minha mão até seu coração. Lara pousa sua a mão sobre a minha.
― Consegue sentir isso? ― Ela me pergunta e eu sinto seu coração bater acelerado. Sua respiração está totalmente descompassada.
― Sim ― respondo, olhando em seus olhos.
― É assim que eu fico sempre que penso em você. ― Ela sorri, ainda tímida, e eu não consigo conter o sorriso que toma conta do meu rosto.
Sua mão ainda mantém a minha sobre o seu coração e, só então, noto que é a mão direita e que não há nenhuma aliança ali. Procuro com os olhos o anel na outra mão, mas não há nada também. Lara percebe o que meus olhos procuram e pergunta:
― Procurando algum anel?
Apenas balanço a cabeça sem ainda compreender.
― Rafael e eu não estamos mais juntos. Terminei o noivado hoje, antes de te procurar.
― Por isso você estava daquele jeito... ― Começo a entender.
― Terminei com ele e, quando dei por mim, estava lá na sua porta. Dei um passo no escuro...
Eu havia dado um sermão em Lara, dizendo que ela precisava sair da zona de conforto quando, na verdade, ela já havia dado o primeiro passo em direção a isso. Eu é que precisava ter tomado alguma atitude.
Sei que é cedo para fazer o que eu quero, mas eu não posso mais perder oportunidades. Lembro de André dizendo que eu deveria ser menos shakespeariano e agir mais, então, assim como Lara, também dou um passo no escuro e arrisco.
― Eu pensei que tinha te perdido de vez naquela noite no restaurante e não consigo suportar a ideia de que isso possa acontecer outra vez. Sei que é cedo ainda, mas já perdi tempo demais e não quero mais perder um minuto sequer. ― Seguro uma de suas mãos enquanto acaricio seu rosto com a outra. ― Lara, fica comigo? Faça de mim o homem mais sortudo e feliz do planeta, seja minha namorada?
Os olhos dela sorriem para mim.
― Você mudou minha vida, Guilherme. Obrigada por me atropelar.
― O prazer foi todo meu ― digo, rindo do que acabo de ouvir.
Lara aproxima o rosto do meu e, por alguns segundos, não se move.
― Você é real? ― Ela sussurra.
― Pergunte à sua perna ― respondo e, finalmente, um grande sorriso toma conta dos lábios dela antes que, por fim, ela me beije.
Meu coração não cabe dentro do buraco destinado a ele em meu peito. Ele quer sair dali e gritar para todo mundo ouvir o quanto está feliz. Quando terminamos de nos beijar, eu a abraço e enterro minha cabeça em seu cabelo para sentir o cheiro dela. É um daqueles momentos em que você se sente totalmente pleno, realizado.
Se pudesse escolher um momento no tempo para congelar, sem sombra de dúvidas seria esse. Lara encosta a cabeça em meu ombro e nós ficamos sentados naquele banco observando os tons avermelhados se tornarem negros, observando o dia terminar.
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Oi, gente! Queria muito agradecer todos os comentários, são minha parte favorita. Eu me divirto muito com as coisas que vcs escrevem e, claro, os elogios me incentivam a continuar ( embora eu meio que tenha me aposentado rs).
Escrever é muito bom, mas ter vcs como leitores é infinitamente melhor.
O livro está quase no fim, mas ainda temos umas tretas pra resolver, então, continuem firmes que estamos na reta final... bjs e abçs.
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Dois Passos
RomanceDois passos. 5 segundos. Um atropelamento. Com um galo na testa, a perna quebrada e o coração partido, Lara se vê obrigada a passar o final de semana, que deveria ser perfeito, em uma cama de hospital, vendo todas as tentativas de salvar seu relacio...
