Capítulo 12 - Patrícia

19.3K 1.9K 460
                                        




                  

(...) Você tem um caminhar rápido e estalado e um olhar frio e duro

       E se seus olhos pudessem falar, eles diriam que eles simplesmente não se importam

       Antes de vaguearem para se esconderem em suas órbitas.

       Você tem suas cicatrizes e você tem suas marcas de nascimento

       Você tem Toronto escondida em seu quadril.

       Você tem seus segredos

       Você tem seus arrependimentos

       Querida, todos nós temos.

       (Betty  - Brook Fraser)





       5h30min.

       O despertador me arranca de um sonho qualquer e me traz outra vez para minha realidade. Ainda falta muito para o fim de semana? Preciso me lembrar de procurar um emprego no qual eu não tenha que acordar tão cedo.

       Sem enfrentar a fila para o banheiro, e essa é a única vantagem de ser a primeira a acordar, tomo um banho bem quente, visto o uniforme, penteio o cabelo e faço uma maquiagem leve. Quando termino, já começo a ouvir o barulho do pessoal acordando.

       Moro com meus pais, minha irmã e minha sobrinha em uma casa de três quartos e apenas um banheiro. Um banheiro! Um dia, vou conseguir comprar meu apartamento e terei o meu próprio banheiro.

       Passo um pouco de perfume, faço um bauru e saio mastigando.

       ― Bom dia, pai. Bom dia, mãe. Até mais tarde― cumprimento-os enquanto saio.

       Penduro os óculos escuros no pequeno decote da blusa do uniforme e pego o ônibus, como de costume. Sentada na janela, observo os primeiros movimentos da manhã. Assim que os raios de sol começam a ficar mais fortes, coloco os óculos e também os fones de ouvido. Ouço alguma coisa que levante meu astral.

       Vinte minutos depois, desço a duas quadras de onde trabalho. Sinto o vento balançando meus cachos e, no embalo da música que escuto, me preparo para passar em frente à construção de um edifício

       ―Nooossa! Que morena linda. A nora que minha mãe pediu a Deus!

       ―Vai te catar, projeto de pigmeu.

       ― Gatinha nervosa!!!

       ― Vê se te enxerga, morcego banguela.

       Passo, pisando duro e eles começam a rir. Já é uma rotina: todos os dias eles fazem isso e suspeito seriamente que seja apenas para descobrirem até onde vai a minha criatividade com apelidos insultantes. Nunca ficam chateados, apenas caem na gargalhada.

       Chego no laboratório pronta para iniciar minha jornada glamorosa de recolhimento de dejetos humanos, recebimento de cantadas de idosos tarados e aguentar calada o mau humor que a grande maioria da população mundial tem no período matinal.

       Abro o laboratório e minha colega de trabalho, Glorinha, chega logo em seguida e começa a ligar os equipamentos.

       ― Bom dia, Pati.

       ― Bom dia, Glorinha. Como foi a noite?

       ― Tranquila. E a sua?

       ― Também, na medida do possível.

Dois PassosOnde histórias criam vida. Descubra agora