Bônus - Patrícia

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Tudo o que vai, volta!
(What goes around, comes around - Justin Timberlake).


Através da janela do carro, vejo a paisagem que passa rapidamente. Pastos exibindo o verde vivo devido às chuvas recentes e diversas árvores atravessam rapidamente o meu campo de visão. O dia está tão bonito que tenho uma súbita (e rara) vontade de estar lá fora, fazendo qualquer coisa ao ar livre.

Ligeiramente empolgada, desço a janela até a metade para sentir o vento. Um bafo quente atinge em cheio meu rosto e minha empolgação se desfaz instantaneamente. O que é isso? A antessala do inferno? Nem parece que andou chovendo!

― Você não é muito nova para estar na menopausa? ― André me pergunta enquanto eu fecho o vidro fazendo uma careta.
― Não estou na menopausa!
― O ar-condicionado do carro não está sendo o suficiente?
― Sou feita de fogo, amor. Não é qualquer coisa que me refresca.

André dá uma gargalhada e eu reprimo uma risada. Pretendo manter minha pose de deusa do fogo.

Ele está concentrado dirigindo, seus olhos estão escondidos atrás dos óculos escuros e ele agora possui um meio sorriso nos lábios. Deixo escapar um suspiro: como sou apaixonada por esse moreno!

Volto a olhar para a estrada que se estende à minha frente até onde meus olhos não conseguem mais alcançá-la. Depois de quase seis horas dentro desse carro, falta bem pouco para chegarmos à cidade natal de André.

Finalmente vou conhecer meus futuros sogros e o lugar no qual André cresceu. Confesso que é uma experiência assustadora. E se os pais dele não gostarem de mim? E se for tudo um fracasso?

André me contou que os pais dele são muito tradicionais. Seu José, o pai dele, costuma julgar o caráter da pessoa pelo primeiro encontro. Se ele não gostar da pessoa na primeira impressão, não é necessário mais nenhum esforço para conquistá-lo, pois ele fica inacessível. Dona Ana, a mãe, é muito ciumenta. Gostava demais da ex-noiva de André e sempre que ele mencionou qualquer outra mulher depois do término dos dois, ela se mostrava insatisfeita.

Como não ficar em pânico?

― Ainda nervosa? ― Ele questiona enquanto estou pensando na distância da casa de André até a rodoviária. Se algo der errado, eu preciso de um plano de fuga arquitetado.
― Mais ou menos ― É uma meia verdade. ― Sua cidade tem rodoviária? ― Pergunto como quem não quer nada.
― É claro que tem. Você não está indo para outro mundo. Está apenas indo para um lugar menor. Por quê?
― Humm... por nada. Curiosidade ― Certo. Tenho um plano A. Devo criar um plano B? Pedir carona na beira da estrada como um andarilho errante talvez?
― Fica tranquila, Pati. Se meus pais não gostarem de você, nós ainda temos a opção de fugir e nos casarmos escondido ― ele interrompe meus devaneios.

Retribuo o encorajamento em forma de piada com um sorriso fraco. Meus olhos avistam uma placa verde à distância e, à medida que o carro avança, consigo ler os dizeres de boas-vindas. Estamos chegando e eu sinto vontade de me teletransportar novamente para minha casa, longe de pais severos e ex-noivas.

― Estamos quase lá, morena.

Mais quinze minutos e entramos na cidade. Meus olhos avaliam tudo cuidadosamente. As ruas são estreitas e as casas possuem arquitetura antiga. Nos vários bares pelos quais passamos, pessoas estão sentadas nas mesas, bebendo e conversando. Meu Deus! Se a entrada da cidade já tem cara de uma viagem ao passado, imagine o interior dela.

André continua dirigindo e percebo que, por baixo dos óculos, ele observa minha reação.

― Como você conseguiu viver tanto tempo aqui? Não tem prédio em lugar nenhum! Existem ao menos sobrados nesse lugar?

Dois PassosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora