Sinto-me tocada ao ler o cartão e a culpa vem com mais força dessa vez. Eu havia sido totalmente rude com Guilherme no dia anterior e, ainda assim, ele retribuiu o mal com o bem.
Coloco a mão na testa e abaixo a cabeça pensando em como me permiti ser refém das minhas emoções. Ainda estou remoendo meu remorso quando ouço batidas na porta.
― Quem é?
― Sou eu. Guilherme. A enfermeira falou que você já havia acordado e... resolvi subir e dizer bom dia pessoalmente. Posso entrar?
Um leve pânico toma conta de mim. Eu acabei de acordar, nem tive tempo de ir ao banheiro ainda.
― Eu... eu preciso ir ao banheiro...
― Pode deixar que eu te aju...
Guilherme entra no quarto, mas fica estático perto da porta após me olhar e perceber meu rosto assustado. Devo estar com o rosto amassado, cabelo revirado e, de brinde, olhos inchados.
― Ah, me perdoe. Pensei que você quisesse minha ajuda para ir até o banheiro. Acho que entendi errado ― ele se justifica.
Guilherme está desconcertado e evita me olhar diretamente. A visão dele em minha frente, sem saber se coloca as mãos nos bolsos ou se as deixa livres, faz com que eu me sinta soterrada pelo peso do remorso por tratá-lo tão mal no dia anterior.
Decido, nesse instante, que meus problemas pessoais não vão mais interferir no meu humor, não hoje pelo menos.
― Não tem problema! Na verdade, estava mesmo precisando de ajuda para chegar até o banheiro. Se você não se importar ― tento quebrar o clima estranho.
― Claro que não. Eu te ajudo.
Guilherme vem até a cama e me ajuda a levantar. Encontro uma certa dificuldade para me apoiar no ombro dele, provavelmente porque ele é alto, uns dez centímetros mais do que eu. Além do fato de que, dependendo do movimento que eu faça, minha perna dói bastante.
Apoio-me no ombro esquerdo de Guilherme e vou pulando, sem encostar a perna direita no chão, até o banheiro. Trajeto difícil e constrangedor para ser feito com um desconhecido.
Fecho a porta, olho para o espelho e me assusto com a imagem refletida. O cabelo está totalmente bagunçado, o galo quase sumiu completamente, mas uma mancha roxa se formou embaixo do meu olho.
Recordo-me de que, na manhã anterior, antes de sair de casa, me olhei no espelho e parecia outra pessoa, totalmente diferente da pessoa que vejo agora, e não apenas no exterior. Hoje, não vejo refletida no espelho a esperança que havia ontem.
Há uma escova de dente ainda na embalagem e um creme dental ao lado dela. Deduzo que sejam para mim, já que sou a única no quarto. Escovo os dentes, molho as mãos e passo no cabelo, amarrando-o em um rabo de cavalo. Dou uma última olhada no espelho, respiro fundo, conto mentalmente até três e abro a porta.
Guilherme ainda está lá, em pé, esperando para me ajudar a voltar para a cama. Faço o percurso de volta apoiada novamente no ombro dele, tentando ignorar a dor que sinto na perna. Percebo que ele usa um perfume levemente amadeirado. Gosto do cheiro.
Ele me ajuda a me sentar na cama e, assim que me arrumo, um silêncio incômodo preenche o quarto.
― Hummm... obrigada ― quebro o silêncio. ― Por me ajudar e pela cesta de café da manhã. Você se lembrou do que eu disse sobre a comida daqui.
Guilherme ri.
― Comida de hospital é deprimente, né?
Sinto um grande alívio ao perceber que ele não parece chateado pelo dia anterior, mas sei que, ainda assim, preciso pedir desculpas pelo meu comportamento.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Dois Passos
Storie d'amoreDois passos. 5 segundos. Um atropelamento. Com um galo na testa, a perna quebrada e o coração partido, Lara se vê obrigada a passar o final de semana, que deveria ser perfeito, em uma cama de hospital, vendo todas as tentativas de salvar seu relacio...
