Capítulo 3 - LARA

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Acontece que na vida a gente tem

Que ser feliz por ser amado por alguém

(Não Quero Dinheiro – Tim Maia)


          

― Meu Deus! Foi você quem atropelou a Lara? ― Patrícia não consegue esconder que está se divertindo com a situação.

― O próprio. ― Ele se aproxima de mim e estende a mão, esbanjando mais simpatia do que eu estava disposta a aguentar. ― Prazer em conhecê-la. Uma pena que tenha sido nessas circunstâncias.

― Verdade ― respondo secamente. Embora esteja um pouco surpresa, não consigo conter o mau humor e mal olho para Guilherme.

― Você está bem? ― Ele puxa uma cadeira e se senta próximo à cama.

― Bom, uma perna quebrada, um galo na cabeça... ― Tento pensar em mais alguma coisa ruim para complementar minha linha de raciocínio, mas nada me vem à mente. ― Acho que poderia estar melhor, mas vou sobreviver.

― Você está sendo bem tratada aqui no hospital?

― Ah sim, a comida é ótima! Você precisa experimentar a gelatina sem açúcar deles.

A ironia está totalmente evidente em minha voz. Patrícia, que está em pé próximo às flores, percebe que eu não estou sendo muito cordial e interfere na conversa.

― Que flores bonitas! Adoro begônias!

― Patrícia, não tem nenhuma begônia aí ― falo séria.

― Eu não disse que tem, Lara. Só falei que adoro begônias ― ela me responde com voz de criança que acabou de levar uma bronca da mãe e Guilherme sorri ao ouvir a justificativa dela.

― Então, vocês são amigas, primas, irmãs...?

Antes que Patrícia se empolgue e comece a contar toda a história da nossa amizade, me adianto:

― Amigas. ― Tento não estender muito essa conversa.

Minha amiga se aproxima, senta na beira da cama e diz me olhando de cara feia:

― Mas, se você continuar nesse ritmo, até o fim da noite não seremos mais!

― Então... ― Guilherme continua e eu me pergunto se ele não vai desistir de tentar puxar assunto ― você dizia que a comida daqui é ruim?

― Para falar a verdade, só comi a gelatina mesmo. Mas, se o café da manhã for parecido, não sei se vou sobreviver.

― Olha... ― Guilherme começa a dizer algo quando é interrompido pelo toque do meu celular.

Sinto meu coração disparar quando, através do visor trincado de meu aparelho, vejo que é uma ligação de Rafael. Por um instante fico indecisa sobre como atender com Guilherme e Patrícia sentados perto de mim.

― Ahn, é o Rafael, meu namorado. Você poderia... ― Faço menção com a cabeça para que Guilherme me dê licença.

― Já estou saindo também, já fui. ― Patrícia se levanta e vai para perto das flores, junto com Guilherme.

― Oi, amor. ― Atendo sem saber ao certo que entonação usar.

― Amor? Tudo bem com você? Ouvi o recado da sua mãe e fiquei assustado. O que aconteceu?

Embora ansiasse pelo telefonema do meu namorado, eu ainda estou chateada com tudo o que aconteceu.

― Fui atropelada. Vou ter que fazer uma cirurgia para colocar um pino na perna, ou algo assim, não entendo bem. Minha mãe é quem está por dentro.

Dois PassosOnde histórias criam vida. Descubra agora