Acontece que na vida a gente tem
Que ser feliz por ser amado por alguém
(Não Quero Dinheiro – Tim Maia)
― Meu Deus! Foi você quem atropelou a Lara? ― Patrícia não consegue esconder que está se divertindo com a situação.
― O próprio. ― Ele se aproxima de mim e estende a mão, esbanjando mais simpatia do que eu estava disposta a aguentar. ― Prazer em conhecê-la. Uma pena que tenha sido nessas circunstâncias.
― Verdade ― respondo secamente. Embora esteja um pouco surpresa, não consigo conter o mau humor e mal olho para Guilherme.
― Você está bem? ― Ele puxa uma cadeira e se senta próximo à cama.
― Bom, uma perna quebrada, um galo na cabeça... ― Tento pensar em mais alguma coisa ruim para complementar minha linha de raciocínio, mas nada me vem à mente. ― Acho que poderia estar melhor, mas vou sobreviver.
― Você está sendo bem tratada aqui no hospital?
― Ah sim, a comida é ótima! Você precisa experimentar a gelatina sem açúcar deles.
A ironia está totalmente evidente em minha voz. Patrícia, que está em pé próximo às flores, percebe que eu não estou sendo muito cordial e interfere na conversa.
― Que flores bonitas! Adoro begônias!
― Patrícia, não tem nenhuma begônia aí ― falo séria.
― Eu não disse que tem, Lara. Só falei que adoro begônias ― ela me responde com voz de criança que acabou de levar uma bronca da mãe e Guilherme sorri ao ouvir a justificativa dela.
― Então, vocês são amigas, primas, irmãs...?
Antes que Patrícia se empolgue e comece a contar toda a história da nossa amizade, me adianto:
― Amigas. ― Tento não estender muito essa conversa.
Minha amiga se aproxima, senta na beira da cama e diz me olhando de cara feia:
― Mas, se você continuar nesse ritmo, até o fim da noite não seremos mais!
― Então... ― Guilherme continua e eu me pergunto se ele não vai desistir de tentar puxar assunto ― você dizia que a comida daqui é ruim?
― Para falar a verdade, só comi a gelatina mesmo. Mas, se o café da manhã for parecido, não sei se vou sobreviver.
― Olha... ― Guilherme começa a dizer algo quando é interrompido pelo toque do meu celular.
Sinto meu coração disparar quando, através do visor trincado de meu aparelho, vejo que é uma ligação de Rafael. Por um instante fico indecisa sobre como atender com Guilherme e Patrícia sentados perto de mim.
― Ahn, é o Rafael, meu namorado. Você poderia... ― Faço menção com a cabeça para que Guilherme me dê licença.
― Já estou saindo também, já fui. ― Patrícia se levanta e vai para perto das flores, junto com Guilherme.
― Oi, amor. ― Atendo sem saber ao certo que entonação usar.
― Amor? Tudo bem com você? Ouvi o recado da sua mãe e fiquei assustado. O que aconteceu?
Embora ansiasse pelo telefonema do meu namorado, eu ainda estou chateada com tudo o que aconteceu.
― Fui atropelada. Vou ter que fazer uma cirurgia para colocar um pino na perna, ou algo assim, não entendo bem. Minha mãe é quem está por dentro.
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Dois Passos
RomanceDois passos. 5 segundos. Um atropelamento. Com um galo na testa, a perna quebrada e o coração partido, Lara se vê obrigada a passar o final de semana, que deveria ser perfeito, em uma cama de hospital, vendo todas as tentativas de salvar seu relacio...
