Capítulo 1

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Dedicatória:
Para você que sente saudade
daquela pessoa.

Para Jô, você que foi meu Alex Foster até não ser mais.

Nova York, 2019

Ouço o som da campainha do apartamento onde moro há três meses. Pelo visto, mesmo que eu me afaste das pessoas a minha volta deixando bem claro que não quero me ver próximo de ninguém, as pessoas insistem em invadir minha privacidade.

- Oi! - vejo os olhos claros de minha irmã assim que abro a porta - Como você está?

- O que você acha? - ironizo dando espaço para a mesma entrar. Já consigo prever sua reprovação ao perceber a bagunça que o apartamento se encontrava e eu não dou a mínima.

- Pare com isso, estou falando sério. - passa o olhar pela sala tirando meu carregador portátil jogado por lá - Há quanto tempo está presa nesta prisão? - se senta no sofá de couro preto.

- Em primeiro lugar, não estou presa, estou aqui por conta própria. Em segundo, aqui é meu apartamento e é muito confortável para eu querer sair daqui. - me jogo na poltrona em sua frente. Oh, chocolate! Vejo a barra de chocolate em cima da cômoda pequena ao ao lado da poltrona. O pego sem pensar duas vezes. Ultimamente minha fome tem aumentado assim como a pochete no pé de minha barriga.

- Já pensou em uma dieta? - vejo sua sobrancelha bem delineada arquear, formando um perfeito símbolo da Nike de cabeça para baixo.

- Não e nem vou pensar. - dou outra mordida sentindo o gosto do amendoim misturado com o chocolate meio amargo entre meus dentes. É uma sensação maravilhosa.

- O Charlie está com saudades. - comenta me fazendo olhar em seus olhos - Já faz quatro meses. O que a impede de volta a ser como antes?

- Esse assunto de novo? - reviro os olhos levando a embalagem do chocolate até a cozinha não muito pequena daquele imóvel.

- Eu sei que é ruim, mas as pessoas superam, não totalmente, mas superam. Eu superei, até o Charlie superou. É tão difícil assim para você? - cada frase era um sentimento diferente da forma que ela falava.

Sarah, sempre foi assim, até mesmo depois do acidente não mudou nada. Seus claros e sedosos cabelos longos e loiros e seus olhos castanhos cor de mel, seu vestido social branco justo ao corpo que lhe vinha até os joelhos mostrando suas curvas perfeitas, lhe deixava ainda mais bonita, nem parece que tem um filho, é divorciada e já passou por uma depressão quase fatal. Apesar de tudo, ela sempre teve vários defeitos, sua beleza majestosa apenas a encobria.

- Sim! É difícil, Sarah! Parabéns se não é difícil para você assim como todas as coisas que você faz! Sempre é fácil, não é?! - elevo a voz a olhando.

- Claro que foi! Eu fiquei tão abalada quanto você, só que ao contrário, eu superei e você devia fazer o mesmo. Mas sua mágoa te impede. - pega sua bolsa e sai batendo porta a fora.

- Droga! - derrubo um copo de vidro que estava em cima do balcão. Vejo os cacos transparentes se espalharem pelo chão provocando um som estridente. Ouço minha campainha tocar outra vez.

- Esqueceu de dar um último sermão? - pergunto, assim que abro a porta me assusto quando vejo um rapaz franzir a testa para mim.

- Ahm, não, eu só vim entregar esta torta de morango. - um cara não muito mais alto que eu estende a torta que me parecia muito boa por sinal.

Você e sua inexplicável fome, Madilane.

- Ah, desculpe, pensei que fosse outra pessoa. - olho para a torta em suas mãos e logo para seus olhos azuis escuros.

- Tudo bem. Minha tia Clear acabou de se mudar para cá e me pediu para entregar isso à você, um presente de vizinhas ou algo assim. - passa suas mãos por sua nuca e depois pelas ondas de seus cabelos dourados.

- Ah, nossa. - fico surpresa - Eu não sabia que ela havia se mudado para cá. Que indelicadeza a minha. Eu acho que tenho algo para ela, entra aí. - dou espaço para ele entrar.

- N-não precisa. - antes dele terminar de falar, eu já me distancio para pegar algo na cozinha.

- Qual o nome dela? - grito, enquanto ele se aproximava do sofá da sala.

- Ah...Claire. - ele me parecia incomodado com algo. Acho que é pelo fato de eu ter simplesmente obrigado a entrar.

Coitado.

Procuro algo nos armários, na geladeira e encontro um bolo, tinha comprado ontem e não tinha comido. Uma grande surpresa pra mim. O pego me sentindo vitoriosa por ter encontrado algo. Ele era de chocolate e tinha uma cobertura maravilhosa de chantilly. Meu coração doeu só de pensar que quem iria comer não era eu.

- Toma. - me aproximo segurando o prato com cuidado - Espero que ela goste ou melhor, vocês. Não se preocupe, não está estragado ou algo assim. - abro um pequeno sorriso e o vejo fazer o mesmo.

- Claro, eu vou provar. - provar? - Obrigado. - entrego o prato de bolo nas suas mãos.

- Tudo b... - volto para a cozinha e escorrego na água derramada pela cozinha machucando meus pés nos cacos de vidro. Gemo de dor, vendo o sangue em meu pé se espalhar sobre minha pele. O cara na qual não sabia nem o nome se aproximou, surpreendetemente, calmo.

- Cortou fundo. - analisou meu pé - Vem. - passa seu braço por minhas costas e com o outro, por debaixo das minhas pernas me levando até o sofá - Você precisa ir ao hospital. - me inquieto com suas poucas palavras. Eu não gosto de hospitais, são frios, mórbidos, cheiram a pessoas mortas, o que me trazem péssimas lembranças dos meus pais.

- Não! Não...não...não...não. Não precisa. - Quantas vezes eu disse não? Ele estranha meu desespero.

- Isso não se resolve apenas com band-aid. - retruca como se fosse óbvio - Vem, vamos. - rolo os olhos sendo carregada novamente por ele. Desisto de tentar resistir e o deixo me levar quando percebo que ignorava minhas tentativas falhas de ficar em casa.

Quem diria Madilane que um dia você estaria com o pé cortado, indo para um hospital com um completo estranho.

Continua...

Alex Foster Não Presta! Onde histórias criam vida. Descubra agora