Capítulo 20

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  • Dedicado a Girafa
                                    

Sam:

   - Eu sinto falta do Ryan.

   Pamella tira os olhos do teto e deita a cabeça na minha direção. Sei disso mesmo sem encará-la.

   Ela não pergunta se eu comi merda, o que me faz continuar falando.

   - E o único motivo de eu ter falado isso é que eu queria ou precisava, sei lá, confessar para alguém.

   - Fala mais. – pede – Por favor.

   Abro a boca, mas nada sai. De alguma forma, acabo levando um pouco de ar aos meus pulmões e soltando:

   - Tudo era muito diferente até pouco tempo atrás. No último verão, que não faz nem um ano, ele foi meu único centro de estabilidade, e agora a gente mal se fala.

   Pamella não responde.

   - Ele foi meu melhor amigo por tantos anos, sabe? Quando eu precisava de uma presença masculina simplesmente pra me sentir mais confiante, era ele. E também, cara, meu primeiro beijo, meu primeiro namorado, minha primeira vez, meu melhor amigo, confidente, ombro pra chorar, meu “arrancador de gargalhadas”. Ele foi sempre tão importante...

   Minha mente traz de volta nós dois nos despedindo quando saímos daquele parque há alguns meses.

   - O Ryan é tudo o que eu tenho aqui da minha vida antiga, e eu sinto falta. Dele, de passar madrugadas contando segredos e chorando, de ter alguém que ia fingir dançar sapateado quando eu estivesse mal, ou se preocupando com o quanto de álcool eu bebo quando tô em um momento difícil ou alegre demais. Eu sinto falta da voz dele fazendo alguma piada ridícula e de como a gargalhada dele soa no telefone e como isso tornava qualquer dia melhor. E sentir falta não significa que eu queira que aconteça de novo, sabe? Eu só sinto falta, mas não dá pra ter tudo isso de volta.

   Por um momento eu paro, com medo com o que minha companheira de tapete pode estar pensando.

   - Eu amo o Leonard. Sem sombra de dúvidas. Não voltaria com o Ryan de jeito algum, e não quis o Leo só pra superar a traição. Eu realmente amo o Leonard. Só que... tá tudo indo tão rápido, sabe? Não é o Leo, nem foi o Ryan, é só essa coisa de olhar pra trás. Eu “me perdi” totalmente do verão pra cá.

   Ouço Pamella respirar, mas é só isso.

   - Eu sinto falta de ir dormir depois de uma noite ou um dia horrível, onde eu chorei antes de cair no sono ou pensei em como eu queria não existir, e acordar bem melhor porque sabia que ia encontrar o Ryan. Eu sinto falta dele me assustando enquanto eu pegava algo no meu armário, e depois reclamando que tava tudo sempre bagunçado. E de ir àquela pizzaria todo mês, só nós dois. De sentir que finalmente tudo estava dando certo e deitar na rede com ele e planejar nosso futuro, de flertar nas aulas de história há muitos anos, fazer caretas um pro outro sempre que nossos olhares se encontravam quando a gente sentava em mesas diferentes no refeitório.

   - Se eu voltar 365 dias no tempo, - continuo – eu vou estar sonhando com estar com ele de novo, com um único pensamento me acalmando em relação à faculdade: o de que nós dois viríamos juntos. Como amigos, mas juntos. Ou a gente vai estar sentado em algum lugar e ele vai saber exatamente como eu vou estar nervosa e com medo, à beira de uma crise de choro, pensando em como tudo está prestes a mudar, e aí eu vou ser puxada pra um abraço e vou chorar de soluçar, sem precisar de nenhuma palavra dele, sabe? Ou a gente vai estar no cinema com a Lauren e ela vai estar zoando sobre segurar vela, aí ele vai passar o braço pelos meus ombros e fazer alguma piada e eu vou fingir que não estava morrendo de vontade de voltar com ele.

Cartas para WendyOnde histórias criam vida. Descubra agora