Sam:
- Esse eu fiz pra uma campanha contra o racismo que a Alison promoveu. Foi a primeira da ONG. Não foi muito longe, mas ela gostou do resultado. Eu fiz antes de entrar pro curso de desenho, por isso que não é muito elaborado.
O desenho em questão consistia em várias linhas na vertical, formando tiras, e uma na metade da folha, na horizontal. As de cima estavam sem cor, e as de baixo cada uma com uma cor diferente.
- Tem uma legenda atrás. Ela pediu pra escrever uma frase que ajudasse a entender, porque, segundo ela, "a arte é igual às atitudes das pessoas; difícil de entender se não souber o contexto".
- Isso é verdade.
Viro a folha. A legenda é: Ignorando a cor, é tudo igual.
- Todas as listras têm exatamente o mesmo tamanho. - ele explica - As de cima não foram pintadas pra mostrar que são iguais; as de baixo foram pintadas cada uma de uma cor pra mostrar que é só isso que faz com que elas pareçam diferentes. Gosto de ver as pessoas assim; iguais, mas que parecem diferentes por causa de coisas bobas.
- É uma representação impressionante. – não consigo deixar de lembrar que o Leo tem um problema em pronunciar palavras como “impressionante” e “literalmente”; é engraçado e fofo ao mesmo tempo, pra mim. Ele não gosta de não conseguir pronunciá-las corretamente – Simples, mas cheia de mensagem. Parabéns.
- Obrigado.
Continuamos examinando o conteúdo da caixinha de plástico parcialmente cheia.
- São incríveis. – falo, enquanto espalho mais folhas pelo chão do quarto, tomando cuidado para não deixar nenhuma entrar debaixo da cama, para vê-las melhor – Por que os dragões e outros monstros não são coloridos?
- Os desenhos são uma forma de eu me expressar. Quando desenho monstros e coisas do tipo, é porque eu me sinto ameaçado, e isso é meio “preto e branco” pra mim, se é que essa explicação faz sentido.
- Faz, sim. Por que a maioria deles são dragões?
- Acho que virou tipo uma metáfora. É enorme, ameaçador, amedrontador, forte e sombrio, mas eu consigo lutar contra. – ele vira para o chão e murmura “se eu tiver ajuda”, de uma forma que eu quase não entendi.
- Todo mundo precisa de ajuda. Ninguém consegue matar um dragão sozinho. – falo. Ele concorda, enquanto espalha mais desenhos no chão – Você tem algum favorito?
- Alguns. – sorri - Quer ver?
Faço que sim com a cabeça e ele começa a procurar. Enquanto isso, vejo outros, aleatoriamente escolhidos, conforme Leo espalha as folhas. Alguns são abstratos e confesso que não os entendo, mesmo quando recebo uma explicação.
Escolho um de uma rosa em uma mesinha, com o que eu julgo ser um espelho atrás. Nada mais está pintado, só a rosa bem vermelha.
- Ah, você achou um deles.
- O que esse representa?
- Minha mãe, basicamente. Ela seria a rosa.
- É lindo. Ela deve ter adorado.
- Ela não sabe o que significa. Era um trabalho de artes da escola. A proposta era desenhar alguma coisa do cotidiano que é despercebida e/ou menosprezada por algumas pessoas, mas que você achasse muito importante, só que de uma forma diferente do que ela é. Na verdade, não é só minha mãe, mas ela foi a inspiração inicial.
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Cartas para Wendy
Romance"Pessoas são como flores: não as escolhemos pelo que as torna forte, mas pelo que as torna frágeis. Assim como as pétalas das flores caem, nossas fraquezas também somem, mas isso deixa nosso núcleo exposto demais e, este precisa ser protegido por n...