Preconceito E Viagens

4.5K 286 7
                                        

No dia seguinte Alessandra acordou bem cedo, Jonas ainda estava dormindo e foi direto à casa de Julia.
– Oi querida tão cedo?

– Sim. Como você está? – Disse Alessandra me dando um beijo no rosto.

– Estou bem e você como está?

– Bem, olha meus parabéns você acertou em cheio.

– Está falando do quê?

– Do “gaydar”. O Jonas é gay mesmo.

– Eu sabia.

Comemorei ainda não sei porque, mas comemorei. Na verdade, sei, sem concorrências héteros.

– E ele me disse que meu pai Está apenas fazendo o de sempre. Mandou ele para me vigiar acredita nisso?

– Pois é eu sabia. Pelo pouco que me falou do seu pai, e o Jonas?

– Disse que não vai entrar no jogo do meu pai.

– Então está do seu lado?

– Do nosso lado. Ele até gostou de você. – Disse Alessandra sorrindo.

– Hum amiga!!!

– Para com isso. Com você está?

– Bem, tive uma ótima noite que só não foi melhor por que não estava comigo. E tenho uma notícia nem tão boa.

–  Notícia ruim?

– Sim, meu pai não está muito bem. Vou te que viajar para ver como ele está.

– Mas não é perigoso?

– Acho que não, ele disse que não tinha perigo.

– Mas e o patrão louco dele?

– Bom, isso já faz muito tempo ele já desistiu de ser louco. E além do mais devem ter sido só ameaças.

– Mais do jeito que você falou. Parecia muito pior que isso e bem recente.

– Eu sei, mas não se preocupe ele nem deve lembrar mais de mim.

– Está bem. Eu ainda estou pensando como vai ser chegar na faculdade na segunda.

– Bom vai ter que saber lidar com a situação.

– Eu não sei se estou preparada para isso.

– Às vezes parece que você nunca viveu uma situação como essa.
– Mas eu nunca vivi, lá na minha cidade todo mundo sabia quem era meu pai, ninguém se arriscava a zombar de mim. E eu também escondia tudo de todos.
– Tem certeza que era por isso?

– Não teria outro motivo.

– Talvez você apenas estivesse mais livre, mais solta.

– Como assim?
– Sabe, eu já fui vítima de preconceito várias vezes amor, e por muito tempo, muitas vezes me senti frustrada pelo que as pessoas diziam, ou pensavam. Eu assistia noticiários e pesquisava notícias de gays assassinados, e chegou um momento em que achava que todos poderiam querer me matar se soubessem que eu era lésbica. Quando eu andava na rua achava que todos estavam me olhando.

– O que isso quer dizer?
– Só mudei de postura quando decidi esquecer os outros e pensar só em mim. Percebi que perdia muito tempo fugindo de um fantasma que só existia para mim. Preconceito é um fantasma interior que assombra quem não está disposto a fazer nada para mudar.

– Então está me dizendo que preconceito não existe e além de tudo é culpa nossa?
– Não, estou dizendo que se passássemos menos tempo gritando e chorando diante das atitudes insanas dos homofóbicos e gastássemos mais tempo fazendo coisas para mudar o mundo no geral para mostrar à comunidade LGBT de forma positiva provaríamos automaticamente que estão errados. Não digo que não exista, mas se vivermos dessa ideia apenas, não vamos ficar à vontade para sermos nós.
– Ainda não entendi.
– Está bem. Você é esperta. Einstein era retardado até que inventou leis que mudaram a história da física. Pelé era só mais um negro correndo atrás de uma bola, até que se tornou o que melhor se esperava de um artilheiro. Nós seremos só mais uns gays e lésbicas até que mostremos a que viemos. Coisas positivas sabe, coisas de fato boas, além de meras gritarias.

– Já pensou em fazer política?

– Não eu não penso nem de longe.

– É uma excelente teoria.

– Então entendeu?
– Sim, mas no meu caso não adianta eu inventar a teoria da relatividade na faculdade, na segunda feira, todos vão zombar de mim.
– Pode ser, mas o que fará a diferença é o que vai fazer com o que eles vão dizer.

– Vou lembrar disso.
Ela me olhou de um jeito que nunca tinha olhado antes e aquilo de certa forma até me espantou era como se Alessandra estivesse me conhecendo mais não desde o primeiro dia e sim daquele dia em diante.
-Você é um encanto. – Disse ela me dando um beijo de leve no rosto.

– Que bom que descobriu.
– Tenho que ir, faça boa viagem.

– Cuide-se.

– Pode deixar.

Alessandra foi embora e eu entrei para arrumar as malas, afinal tinha uma longa viagem a fazer.

Pode ser amorOnde histórias criam vida. Descubra agora