Capítulo 22

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Carlos acabou pegando no sono depois de perder-se dentro de Laura. Ela ficou ali parada olhando para ele, olhando seu semblante calmo enquanto dentro dela um turbilhão de emoções se agitava. Ao fechar os olhos ela podia ver Carlos deslizando a boca pelo seu corpo e agarrando-lhe todos os lugares com a mão firme, podia lembrar o aperto dos braços dele ao seu redor e como se sentiu maravilhada e preenchida quando consumaram o ato de amor.

Era impossível continuar mentindo para si mesma, aquilo era amor, só podia ser. Com Thomas as noites eram boas e ele conseguia lhe dar orgasmos, mas Carlos era diferente. Não era só o orgasmo infinitamente mais intenso que ele lhe causava, era o aperto em seu coração. Laura sentia-se sempre perdida com a ideia da separação. Com Thomas, quando o sexo acabava cada um virava para o seu lado e dormiam, ou no máximo Thomas jogava seu braço por cima dela e dormiam de conchinha.

Agora ali com Carlos, Laura queria agarrar-se a ele queria continuar nua sentindo-o pele com pele, ainda queria abraça-lo ou apenas continuar vendo-o dormir. Seu coração batendo como um louco só de imaginar passar mais quinze anos longe daquele homem ou até mesmo para sempre. – Mas como poderia estar ao lado dele depois do tanto que o magoara? – Perguntou-se. Carlos queria estar ao lado dela, era evidente, mas sempre que estavam juntos ao ruim, algo realmente ruim acontecia. – Agora tudo estava quieto, mas por quanto tempo seria assim? – Continuou a refletir.

Neste exato momento enquanto Laura se questionava sobre o que fazer agora que havia feito amor com Carlos, ela estava com ódio por saber que Laura estava sozinha na casa de Carlos. Seu querido "parceiro" havia ligado para ameaça-la mais uma vez. No passado ele não fora um completo inútil, mas agora estava tornando-se um.

O plano era simples, separar Laura de Carlos e precisava de um cumplice, enquanto seguia seu caminho foi relembrando-se dos motivos pelos quais pedira ajuda daquele infeliz. Laura precisava estar com alguém do seu nível, Carlos não era o homem ideal para ela. Com os olhos cheios de ganancia e egoísmo ela continuou repetindo para si mesma que fizera tudo o que fizera para o bem de Laura.

As mãos apertaram-se fortemente. – Tinha sido o plano perfeito. Mas minha querida Laura tinha que dar o seu toque afinal. Eu esperava que ela cassasse-se com ele, mas ela é realmente maravilhosa em arranjar bons pretendentes. Laurinha querida você se superou ao escolher Thomas e agora eu estou realmente feliz, mas eu preciso me livrar desse inútil agora. Essa sua investigação está fora de controle e ele só está piorando tudo. Mas não se preocupe eu vou acabar com isso. Você será feliz com Thomas e eu cuidarei para que Carlos seja feliz também, eu prometo.

Com sua voz transformada e sua verdadeira face ela continuou falando sozinha e rindo debochadamente dos seus planos. –Já havia matado antes para o bem de Laura, faria de novo, faria quantas vezes fossem preciso – Concluiu com convicção em sua mente.

Bernardo chegou com a babá antes mesmo que Sofia chegasse para buscar Laura. Mas ela já não estava mais lá. Carlos dormira mais do que deveria e agora não sabia onde Laura estava. Quando acordou com a voz de Bernardo o chamando, olhou para o lado vazio da cama e pulou vestindo a roupa jogada pelo chão. Mas só as suas roupas estavam lá. Pensou que Laura estivesse em sua sala, mas não estava.

Ela foi embora. Pouco antes de Bernardo chegar com a babá em casa, quem passasse pela rua poderia presenciar uma mulher fugindo de suas ações. Laura havia se entregado a Carlos depois de tantos anos e depois de tanto prometer a si mesma que o odiaria até seu ultimo suspiro. Deus sabe que ela teria se entregado um milhão de vezes mais. No entanto, agora fugia como uma covarde, andando apressadamente pela rua com sua jaqueta na mão e os tênis calçados apenas pela parte da frente dos pés. As partes de trás dos tênis eram ruidosamente pisadas por seus calcanhares quando ela fez sinal para o primeiro taxi que viu. Depois da chegada do uber era improvável que alguém ainda andasse de taxi, mas estava tão desesperada por fugir dali que ignorou seu pensamento inútil num momento tão confuso.

Sentou no banco traseiro do taxi recriminando-se por pensar na preferencia dos passageiros entre taxi e uber quando tinha problemas tão maiores. O motorista precisou perguntar o destino mais de uma vez e foi respondido apenas quando ela perguntou-se do por que não estavam andando, ia xingá-lo, mas por sorte percebeu que não havia dito o destino e assim poupou-se de mais uma humilhação.

Laura pediu para que o motorista desse a volta com o carro e a levasse em casa pelo caminho mais longo, pois valeria cada centavo não ter que passar na frente da casa de Carlos de onde fugira. Seu telefone apitou e ela leu uma mensagem dele:

"Onde você está? Sofia veio busca-la? Você simplesmente saiu, poderia ter me acordado. Por favor, pelo menos me avise quando chegar em casa... Estou preocupado".

Perguntou-se como ele consegui simplesmente mandar uma mensagem depois do que haviam feito. – Uma merda que eu vou responde! – Desculpe senhora, o que disse? – Não é com você. Perdão... Me ignore, por favor, apenas me leve ao endereço. – Certo.

Laura ponderou a possibilidade do taxista achar que ela fosse louca, mas simplesmente não se importava. A verdade era que aquele senhor atrás do volante já havia visto tantas loucuras e tantas pessoas que apenas reconheceu os sinais da fisionomia perturbada de Laura e concluiu com exatidão que aquele era só mais um caso do coração.

O carro branco de placa vermelha parou em frente sua casa. Laura pagou e não pegou e desceu do carro. Estava abrindo o portão de alumínio quando Thomas buzinou atrás dela. Ela assustou-se a ponto de dar um pulo para trás virando-se e vendo Thomas sentado atrás do volante do Honda Civic. Ele poderia ter apertado o botão para que o portão da garagem se abrisse, mas ao contrário disso, Thomas esticou-se e abriu a porta do passageiro e fez sinal para que Laura entrasse no carro.

Ela imaginou quantos quilos sua consciência deveria estar pesando naquele momento. Provavelmente fosse mais fácil carregar Thomas nos braços do que as lembranças daquela tarde em sua cabeça, mas não poderia fugir de Thomas como fugiu de Carlos. Ainda era a noiva daquele homem. Questionou-se se chegaria a ser esposa dele, mas caminhou até o carro e sentou no banco ao lado de Thomas.

Olhou para ele com um sorriso azedo enquanto tentava controlar sua respiração ofegante. – Você me assustou. – Precisamos conversar. – Precisamos? Algo sobre os preparativos do nosso casamento? – Vamos para algum lugar tranquilo, longe de nossos familiares e amigos, o que sugere? – Hum... Podemos ir para a praia da Ponta Negra e andarmos no calçadão. – Parece bom.

Thomas deu a ré com o carro e seguiu em direção a avenida do Turismo que leva a praia da Ponta Negra. Foram o caminho em silêncio e Laura contentou-se em mandar uma mensagem a Sofia avisando que não estava mais na casa de Carlos e que estava indo andar na praia com Thomas. Terminou dizendo que se explicava mais tarde.

Quando chegaram a Ponta Negra, Thomas estacionou o carro e andou de mãos dadas com Laura até descerem toda a escadaria e chegarem à areia da praia. Ele parou na beira do limite entre asfalto e areia. Abaixou-se para desamarrar os tênis de Laura deixando-a descalça. Ela não teve reação senão deixá-lo fazê-lo. Thomas penas tirou seus sapatos de couro refinado e amarrou os tênis e seus sapatos pelos cadarços jogando-os em seu pescoço.

Quando terminou segurou Laura pela cintura levantando-a do chão e firmando-a novamente com os pés na areia. A atitude inesperada fez com que ela desse um gritinho agudo seguido por risadas leves e verdadeiras. – Fazia tempo que eu não a via sorrir assim. – O sorriso de Laura foi diminuindo até tornar-se uma fina linha em seu rosto. – Eu achei que sentir areia sobre seus pés fosse relaxa-la um pouco. – Me ajudou muito. Obrigada. – Podemos sentar perto do rio? – Sim. Podemos sim.

Ela respondeu enquanto balançava a cabeça positivamente animada com a ideia de um tempo de sossego olhando o rio. Passaram alguns minutos assim até que Thomas sentiu que poderia começar o seu jogo. – Eu sei de tudo Laura.

Seu coração parecia ter parado de bater. Estava morrendo. Depois de tudo ela morreria assim.  

O Tempo que estive aquiOnde histórias criam vida. Descubra agora