Alto, grisalho e um pouco perturbado. Cautelosamente Carlos observava o sujeito a sua espera sentado na mesa da Subway. Pelo que Carlos sabia aquele homem continuava vivendo com sua renda classe média, mas marcara aquele encontro em um dos bairros mais ricos da cidade.
Carlos prolongou-se em analisar a situação em seus mínimos detalhes, aprendera um pouco disso pela convivência com Pacheco que estava sentado no volante ao seu lado no carro, observando tudo pelo mesmo ângulo. Estavam andando muito próximo do perigo para abrir mão da cautela e agora carregava em suas costas a segurança de Laura.
Da janela do carro pôde observar a mescla de altos prédios comerciais, escritórios e casas. O bairro "Vieiralves" poderia ser definido pelas arquiteturas clássicas e a calma. Não se via pessoas andando pelas calçadas bem planejadas, provavelmente pela condição financeira das pessoas que frequentavam aquele bairro, só se via carros e mais carros.
O homem permanecia sentado aguardando enquanto Pacheco contava quantas vezes ele havia olhado ao redor tentando perceber se alguém o observava ou se havia sido seguido. O que parecia ser inútil já que eles o estavam observando de fato e o homem permanecia alheio.
Louco. Dizem que a primeira impressão é a que fica, bom pelo discurso daquele homem não podia ser diferente. Carlos criara mil esperanças de descobrir algo realmente significativo, mas perdera seu tempo e quase a sua vida indo encontrar um louco. Não era de se admirar que a mãe de Laura tivesse se apaixonado por aquele homem. Até para Carlos era visível a gentileza e a bondade daquele jovem senhor. – No entanto, os acontecimento devem tê-lo tirado do rumo – Concluiu Carlos. Afinal não seria incomum.
Para Carlos tudo aquilo era perda de tempo, mas Pacheco insistia que até o mínimo detalhe poderia ser importante e era por isso que permaneceram sentados por duas horas e meia ouvindo até a mais absurda das declarações.
Depois de sair dali Pacheco foi dirigindo em silêncio para deixar Carlos em casa. De tempos em tempos Carlos soltava uma respiração mais profunda que significava exatamente o quanto estava frustrado. Pelos anos que Pacheco estava envolvido com aquele caso, como costumava chamar por mero profissionalismo, Carlos já havia se tornado seu amigo pessoal. Uma de sua regras mais concretizadas era a de que o cliente nem sempre precisava saber de tudo, se soubesse algumas coisas poderia interferir nas descobertas futuras e na resolução do caso.
Carlos, no entanto, não se aplicava numa regra geral. Ele não era incrivelmente dominado pelas emoções como a maioria das pessoas, pelo menos não havia sido até aquele momento. Pacheco já havia notado que desde a chegada de Laura na cidade o amigo havia se tornado mais impulsivo, mais cuidadoso e mais emocional. Talvez fosse apenas o sentimento primitivo que nutria por aquela dama.
Decidiu por fim que compartilharia com Carlos o que pudesse, mais do que compartilharia com qualquer outro cliente, mas Pacheco acabara se tornando emotivo também e não conseguia lidar com a frustração do amigo.
Carlos remoía as palavra do ex-namorado da mãe de Laura tentando encontrar qualquer coisa que fizesse sentido ou fosse realmente uma pista significativa, mas não encontrava nada. –Ouça senhor Ribeiro, em alguns casos interrogar uma testemunha é a parte mais difícil, por exemplo, às vezes a única testemunha é uma criança de imaginação fértil. A criança cria maneiras de explicar o que ela ainda não entende e essas maneiras muitas vezes é o gênio da lâmpada, o Papai Noel ou o Bicho Papão. O que quero dizer é que este parece ser o caso aqui. Sei que se trata de um adulto, mas no fim das contas, não passa de uma mente criando explicações para o que não se consegue explicar. – Se são apenas invenções continuam não tendo utilidade. Só perdemos tempo. – Muito pelo contrário senhor. A arte de interrogar alguém assim está em discernir até que ponto o depoimento é verídico e em que ponto foi inventado. E onde foi inventado achar a verdadeira explicação para os fatos. Por se tratar de um adulto com o mínimo de censo comum isso torna-se ainda mais fácil.
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O Tempo que estive aqui
Roman d'amourLaura era uma menina doce, aberta e muito inteligente. Jamais se imaginou que a jovem promissora fosse se apaixonar por Carlos, ainda que o jovem fosse tão exemplar quanto Laura. Dominada por um pai ciumento e incentivada por um tio muito romântic...
