Um vestido de festa, um par sapatos de salto de cetim, um smoking, uma gravata borboleta e mais uma porção de peças de roupa e acessórios estavam jogados pelo chão de uma suíte qualquer na mansão da família Souza no bairro de Laranjeiras. O quarto era iluminado por nada além da luz da lua cheia que entrava pelas janelas e uma lamparina a gás, já que os andares de cima não possuíam energia devido à problemas na manutenção da casa.
– É aqui que dói? – Perguntou Vitória, enquanto acariciava a cabeça de Benício, que estava deitado em seu peito no meio de suas pernas.
– É. – Respondeu ele, mole, sentindo os carinhos dela.
– Deverias procurar um médico. Talvez ele te receite algo para estas enxaquecas.
– Não precisa, elas logo passam. E, além do mais, eu tenho uma médica particular. – riu.
Alguns segundos de silêncio.
– Benício.
– O quê?
– Estás ciente de que não estudei medicina, certo?
Mais silêncio.
– É o quê!? – Perguntou ele, perplexo, virando-se para ela.
– Não acredito! – riu – Como assim não sabias disso!?
– Como assim, Doutora?
– Não em medicina! Sou arqueóloga, por que diabos eu seria formada em medicina?
– Eu não sei, pensei que fosse médica de gente morta ou assim. – riu – Você mesma disse isso!
– Era brincadeira!
– E eu deveria saber!?
– Inacreditável. – riu – Muita gente assume que sou médica, é normal. Geralmente evito corrigir para não soar condescendente. Mas meu doutorado é em Biologia, gracinha.
– Meu Deus... Mas, espere! Aquele dia, em Petrópolis, na casa de tua prima quando minha irmã deu a luz, me lembro claramente de Helena me chamar de imbecil de dizer que você era médica!
– Estavas desesperado! – riu – Não irias confiar que eu sabia o que estava fazendo se ela chegasse e dissesse que eu era uma paleoantropóloga.
– Então, como sabias o que estava fazendo!?
– Também sou enfermeira, imbecil. Fiz muitos partos. E você sabia disso, mas mesmo assim não confiou em mim na hora! Minha prima apenas lhe fez calar a boca por um momento. Poderia ter dito apenas que eu era Doutora, teria o mesmo efeito.
– Eu estou chocado, ofendido e atordoado. Acho que precisarei de alguns anos para superar todo o trauma desta informação.
– Ah, sim. – revirou os olhos – E a tua enxaqueca? Passou?
Benício riu, levantou-se e tateou o chão com os pés a procura de suas calças.
– Irei na dispensa buscar algo para comermos. O que queres? – Perguntou ele enquanto vestia as calça.
– Brie. – Respondeu Vitória, com um sorrisinho bobo. – Uma garrafa de vinho tinto também.
– Ótimo, provavelmente são as únicas coisas que tem nessa casa. – riu.
Benício pegou sua blusa de baixo na cama, beijou a boca da amante e saiu do quarto em direção às escadas. Estava quase na cozinha quando o estranho e inesperado som da campainha ecoou pela casa. Primeiro, ficou confuso – há muitos anos não escutava aquela campainha tocar e o som lhe trouxe uma sensação esquisita, meio nostálgica. Pensou que pudesse ser engano, alguém perdido ou buscando informações. Cruzou o salão e foi em direção à porta. Parou por um momento e lembrou-se que a garagem estava destrancada e por isso foi até a porta da biblioteca e a trancou, apenas por desencargo de consciência. Chegou no olho mágico da porta da frente e surpreendeu-se com a figura revelada ali.
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Castro e Souza
Ficción históricaVENCEDOR #Wattys2018 Em 1925, dois membros da alta burguesia carioca - os belos herdeiros Vitória de Castro e Benício de Souza - tornam-se cúmplices de um crime quase perfeito, mas acabam colocando suas próprias reputações em jogo para ocultar seus...