Capítulo 1: Apatia ambulante

307 25 44
                                    

A playlist de Jackson está pausada na música: Unwell  Matchbox Twenty

"Mas eu não sou louco, só estou um pouco indisposto

Eu sei que nesse momento não dá para perceber

Mas fique por aí e talvez você veja

Um outro lado meu"

Argh, ressaca desgraçada da porra. Sinto um cheiro desagradável de suor, meu estomago está doendo tanto e esse gosto amargo de cerveja, ainda navega em minha língua. Hum, quanta originalidade, mais um início de capítulo com o protagonista acordando, criativo demais. Bom dia para você também, qual é a sensação de renovar sua vigésima primeira temporada de vida? A mesma de sempre, ódio reprimido e tédio constante, nada demais. Suspirei, repreendendo o mau-humor matinal e a intensa ressaca martelando a cabeça. É bem complicado esbanjar empolgação antes das dez da manhã, especialmente quando esse sol desgraçado torra a porra da minha cara.

Tentei levantar a cabeça pesada, sendo impedido por um monte de imagens distorcidas da madrugada passada. Copos vazios esparramados no balo, zunido insuportável, minha boca sendo devorada por outras. Apagão. Mais um pouco de álcool, forte enjoo, só mais um copo de cacha. Apagão. Os uivos grotescos de William estavam pximos demais. Apagão. Dois bêbados numa sala, certamente daria merda. Você é um inútil! Palaves embriagados, empurrões desajeitados. Pare de perder tempo com essas merdas! Lágrimas quentes, o tapa ricocheteando meu rosto. Tenho vergonha de ser seu pai! Apagão. Um miado esganiçado me despertou do transe.

Ergui a cabeça de novo, deparando-me com os longos bigodes do felino barulhento. Bart pousou a pata branca em meu antebraço, remexendo a extensa cauda, que lembrava muito um espanador. A bola de pelos alaranjada, miou novamente, as pupilas estavam do tamanho de jabuticabas. Acariciei o bichano, que em resposta, mordeu meu dedo indicador. Ele também acordou de "bom humor", que gracinha. Filetes de luz percorreram o quarto, iluminando a organizada fileira de jogos e mangás na estante, os cadernos de desenho esparramados no chão, os CD's das bandas de rock alternativo encima do velho rádio e os quadrinhos do Deadpool e Watchmen jogados na escrivaninha. Obrigado procrastinação nossa de cada dia pelo estupendo trabalho de "arrumação".

Avistei a cartela esburacada de comprimidos, ao lado do calmante, quase vazio. Tenho que terminar logo essa porra. Espreguicei a coluna dolorida, ouvindo o estalo seco dos ossos. Oh não, as consequências de meus negligentes hábitos de saúde estão finalmente aparecendo, como assim universo? É uma das diversas desvantagens em ser um viciado em jogos, mas o importante é continuar mantendo a posição de platina. Peguei o controle remoto do rádio, libertando a canção Guts, do All Time Low do aparelho eletrônico. O despertador do celular esbravejou... porra! Estou atrasado para caralho!

Afastei a coberta num pontapé, arremessando corpo exausto, para fora da cama. Ignorei a insuportável dor de cabeça, pegando agilmente a calça jeans, meias, cueca e a camiseta preta com estampa de Cowboy Bebop dos cabides. Joguei o amontoado de tecidos na tampa da privada e tomei uma rápida ducha quente, vendo as gotas ardentes desenhando linhas avermelhadas por cada centímetro de minha pele pálida, desejando que todo o cansaço emocional, mental e existencial, escorresse pelo ralo. Enrolei a felpuda toalha na cintura, espalmando as mãos no espelho embaçado.

Muito jovens para tragédias (em revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora