A playlist de Jackson está tocando: Apocalypse Dreams – Tame Impala
"Estou chegando mais perto?
Será que eu irei chegar lá?
Será que isso importa mesmo?"
Durante todo o percurso do ônibus, vigiei a proximidade e velocidade dos automóveis, temendo uma colisão súbita. Oh não, péssimo sinal. Direcionei a atenção para os apartamentos à venda, anotando mais telefones no bloco de notas do celular. Deveria averiguar casas e não cubículos amontoados numa única construção, porém não ambiciono um imóvel deste porte, a mera possibilidade de enraizar-me definitivamente, é desconfortante. Sem contar que a praticidade e rapidez em organizar cômodos menores, pouparia gastos desnecessários com produtos de limpeza. Geração Y e seus complexos com acomodações a longo prazo.
Retornei o olhar para os carros, outro desejo material inexistente na minha listinha, afinal sou um desastre na direção de qualquer tipo de veículo. O nível é tão crítico, que até hoje não sei andar de bicicleta e não tenho o menor interesse em aprender. E por mais inacreditável que pareça, após quatro tentativas frustradas em realizar uma baliza sem atropelar nenhum cone ou desligar o carro no meio da embreagem, passei no exame de direção aos dezenove anos, basicamente na força do ódio. Até hoje não relei no volante novamente, mas o importante é que minha carteira de motorista está impecável.
Finalmente cheguei no ponto de descida, avistando o modesto mercadinho na esquina. A ligeira vontade de comprar uma inocente latinha de cerveja, pairou na minha mente, apressei o passo, dissipando o desejo venenoso no caminho. Bart recepcionou-me, saltando do sofá, a bola de pelos deu várias cabeçadas na minha perna, ganindo por carinho. Agachei-me e acariciei o felino manhoso, que em menos de três segundos, se cansou da minha atenção e enterrou as unhas em meu braço, trilhando três arranhões superficiais. Dizem que ao decorrer da convivência, os animais de estimação tendem a se comportar como seus respectivos donos e Bartolomeu está ficando bem temperamental ultimamente.
Bart miou, sentando ao lado do potinho de ração. Enchi o recipiente com mais peixinhos multicoloridos, o gato abocanhou-os avidamente, apanhei a tigela de água e levei-a até a pia. Enquanto lavava a mesma, notei duas garrafas amarronzadas vazias, abandonadas ao lado da lixeira. William costumava consumir essa merda dentro de casa somente em datas comemorativas, entretanto, após o incidente de três anos atrás, ele diminuiu a frequência consideravelmente e limitou-se a encher o caneco, bem longe da residência. Pelo visto, ontem foi um dia favorável para reviver este velho hábito. Mordi o lábio inferior com força, repreendendo-me por cogitar à vontade em resgatar algum vestígio do líquido amargo.
Devolvi a tigela de água para o gato, caminhando até o quarto, insuportavelmente asfixiante. Joguei a mochila no chão e abri a janela, torcendo que a leve brisa, arejasse o aposento abafado. Restabeleci o ritmo normal da respiração, policiando-me em não estalar mais os dedos. Posso exercitar estas mãozinhas nervosas em outra atividade bem mais interessante... não tem ninguém para atrapalhar e será rápido. Puxei as cortinas, retirando alguns lenços de papel do fundo da gaveta do armário, uma camisinha acabou saltitando, retornei a fujona para dentro da meia. Sentei na beirada da minha cama, desfivelei o cinto, descendo a calça até os calcanhares. Assim que comecei a retirar a cueca, o portão da garagem estrondou de repente. Cacete! Dei um soco no colchão, puxando as roupas depressa, meu rosto estava em chamas.
Enquanto andava de volta para o armário, reparei no volume aumentando na calça... ah merda, merda, merda! Arremessei os lenços no armário, agarrando a primeira toalha que vi, que por sinal, era totalmente estampada de tigres, encaminhando-me para o banheiro. Assim que virei a chave, despi-me numa agilidade pasmosa, reparando na tonalidade carmim na bochecha. Peguei no armarinho uma pomada para desinchar o machucado, que nem latejou ao meu toque. A memória da primeira surra, continua sendo a mais dolorida. Girei o registro do chuveiro, todo o estresse da manhã, desintegrou-se com a espuma. Bom, preciso resolver algo pendente agora, se me der licença.
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Muito jovens para tragédias (em revisão)
Romance(Em revisão) Jackson deseja ser um desenhista desde criança, porém as memórias do passado conturbado, o afastamento repentino do melhor amigo e a insegurança com seu futuro, o fizeram se afastar do que mais ama. Recentemente, o álcool tem se tornado...