Capítulo 4: A família do comercial de margarina

104 13 28
                                    

*Este capítulo pode conter gatilhos: Violência doméstica*

A playlist de Jackson está tocando: I Just Wanna Live – Good Charlotte

"Eu só quero viver

Não ligo para o que eles dizem

Não ligo para o que acontece comigo

Eu só quero viver"

Bart me cumprimentou no exato segundo que cheguei em casa, esfregando o corpo peludo na calça ensopada. Afaguei o bichano, que em resposta, mordiscou-me. Averiguei o horário, Bárbara, William e Patrick chegariam daqui alguns minutos, tempo suficiente para uma rápida chuveirada. Caminhei até o quarto, puxando uma toalha, bruscamente, do cabideiro de madeira. Os remédios me censuraram da escrivaninha. Certo, objetos inanimados não possuem tal poder, mas minha cabeça está tão ferrada, que cada cantinho dessa casa me deixa profundamente desconfortável. Despistei o olhar da medicação, apanhando os desenhos rasgados e arremessando-os no lixo. Não pude evitar o desconforto no peito ao vê-los soterrados naquela lixeira. Ignorei-os, enrolando a toalha nos ombros, indo em direção ao banheiro.

As gotas escaldantes deslizaram por meu corpo, desenhando trilhas avermelhadas na pele. Cerrei os punhos, esmurrando-os no ladrilho do box, repreendendo-me por ter tomado aquela atitude ridícula na cafeteria. Merda, eu deveria ter continuado displicente, estava funcionando perfeitamente... até agora. Espirrei alto, não bastava apenas um, outros três espirros vieram em seguida. Ótimo, além de uma demissão, contraí um resfriado, que aniversário fantástico! Um clarão repentino rasgou o céu nublado, outro temporal estava a caminho. Espero que seja a última tempestade do dia...

Amarrei a toalha na cintura, espiando o desenho de Patrick escapulindo, timidamente, do bolso da calça jeans. Retirei o encharcado pedaço de papel, levando-o diretamente para a escrivaninha. Assim que abri a gaveta, encarei meus rascunhos de enredos, fichas de personagens e desenhos inacabados. É frustrante para caralho observar suas obras abandonadas, mas minha insegurança despedaçou qualquer vestígio de empenho em divulga-las, ninguém se importaria com essas besteiras. O portão da garagem estrondou. Escondi o papel no fundo da gaveta, ignorando pela milésima vez, todos aqueles projetos bestas. Não me importo de qualquer forma...

As vozes de Patrick e Bárbara adentraram a cozinha, assim que terminei de me arrumar, caminhei até o aposento. Meu irmão brincava de esconde-esconde com Bart e minha mãe posicionava as panelas no fogão. Recordo-me perfeitamente do dia em que o bichano chegou em casa, a pequena bolinha de pelos estabeleceu uma aliança instantânea com o loirinho, que na época tinha apenas cinco anos, após o mesmo presenteá-lo com um generoso pedaço de frango assado. Oito anos depois, cá estão eles, mais unidos do que nunca e não nego que tal amizade provoca-me uma pontinha de ciúme, já que quem trouxe o gatinho para esta residência foi eu, mas é realmente fofo vê-los se divertindo.

Despenquei o corpo exausto no sofá, mudando os canais da televisão, distraidamente. Infelizmente não havia nenhum conteúdo irrelevante para esvaziar a mente, decepcionante. Liguei o rádio, Here It Goes Again, do OK Go, diminuiu um pouco o clima pesado que a casa exalava. Meus olhos pousaram no relógio, faltava meia hora para William retornar do serviço, porém nos últimos oito meses, seus atrasos estão frequentes. Alegava que o chefe o soterrava de tarefas, faltando pouquíssimos minutos para o final do expediente. Engraçado que essas "reuniões" urgentes no meio da semana e a agitação com o celular, diziam o contrário. Sem contar as visitas recorrentes ao barzinho da esquina, quase todas as noites eram resumidas a gritaria embriagada até às 3h da manhã. Ele reduzia sua compulsão por álcool, num singelo entretenimento, um inocente divertimento que desmoronava a família...

Muito jovens para tragédias (em revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora