Capítulo 7: Boca fechada não entra mosca

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A playlist de Alice está pausada na música: Oh No! – MARINA

"Uma cabeça focada, um coração obcecado

Se eu falhar, vou desmoronar

Talvez tudo isso seja um teste

Porque eu sinto que sou a pior

Então eu sempre ajo como se fosse a melhor"

Estou me sentindo a personificação de um castiçal e constatar este fato, é um tanto constrangedor. Um desconforto ligeiro percorreu meu corpo, ao notar os dedos da garota repousados na nuca dele. Ah não, de novo, não! Que porra é essa, coração!? Deveria preservar a saúde mental do seu dono e exercer sua função de bombear sangue oxigenado em minhas veias, ao invés de se chatear por besteiras, já não me ferrei o bastante nos últimos meses!? Se eu continuar observando esses dois se abraçarem, significa que tenho tendência a ser voyeur? Sacudi a cabeça, retornando para a execução da tarefa de organização, empilhando os livros por letras. Espiei a silhueta dos dois pela janela totalmente preenchida de gotinhas da chuva. A moça deu um passo para trás, sorrindo de orelha a orelha:

– Finalmente arranjei um tempinho livre para te visitar - A mão dela tocou no cotovelo dele, sua expressão transbordava genuína animação - Desculpe ter ficado distante nessas últimas semanas, mas a faculdade, o estágio, os preparativos para a mudança e os ensaios da peça estão arruinando todos os setores da minha vida, estou numa pilha de nervos - Ela apertou levemente a testa, franzindo-a - Sem contar o TCC, essa desgraça consumiu toda a minha sanidade mental ontem de madrugada, não aguento mais revisar aquela porcaria de conclusão e não estar bom o suficiente - Deu um longo suspiro, percorrendo os dedos pelos cabelos azuis. O ruivo repousou a mão no ombro dela, a tensão da mesma amenizou automaticamente - Ainda bem que esse curso está na reta final, não quero mais pisar numa universidade por um longo tempo!

– Desistiu da pós-graduação? - Ela sacudiu a cabeça negativamente.

– Temporariamente, infelizmente minha brilhante ambição acadêmica foi arremessada na lixeira após esses quatro longos anos. Acumular conhecimento é meio desgastante, necessito priorizar o resgate da minha vontade de viver primeiro antes de ingressar neste turbilhão novamente - A garota espreguiçou-se, evitando um bocejo - Queria ter um final de semana tranquilo e relaxar um pou... - Uma coceirinha cutucou meu nariz, ocasionando um espirro nem um pouco discreto, não bastasse um, mais quatro vieram em seguida. Tim moveu a cabeça, surpreso ao notar que havia mais alguém no ambiente, retirando a mão do ombro dela.

– Saúde novamente! - Tim riu, estendendo a mão direita em minha direção e depois movendo-a para a moça - Jackson, esta é a Alice, minha melhor amiga, nos conhecemos desde os dez anos de idade - Ela limitou-se a acenar com a cabeça, disfarçando o nítido desconforto após ele mencionar as últimas três palavras - E Alice, este é o Jackson, nos conhecemos há exatas... - Puxou a manga do casaco, checando o relógio de pulso - Vinte duas horas e trinta e sete minutos - Alice esboçou confusão e surpresa ao saber desta informação.

– Nos conhecemos aleatoriamente ontem de tarde. Eu estava sem um guarda-chuva e Tim acabou me resgatando daquele terrível temporal - O olhar dela era uma incógnita, enterrei as mãos nos bolsos da calça - Conversamos um pouquinho e ele mencionou trabalhar nesta livraria - O ruivo não retirou o contato visual - Como eu estava um pouquinho... - Apertei o dedo indicador com o dedão para enfatizar minha fala - Desesperado por emprego, decidi me candidatar para o serviço hoje mesmo - Alice contraiu as sobrancelhas, delineando um sorriso desdenhoso.

Muito jovens para tragédias (em revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora