Kurt finalmente estava comigo no carro. Seattle ficava cada vez mais longe e ele parecia contar cada centímetro que nos afastávamos de sua cidade. O dia chuvoso não contribuiu para facilitar com que o vocalista aceitasse ir para clínica. Foi necessário que eu, Krist, Dave e até Courtney implorássemos e o baterista ainda o arrastou para dentro do veículo, prometendo um soco em seu rosto caso ele oferecesse alguma outra resistência. Após lágrimas e muitos desejos de melhora, eu e Kurt partimos.
O brilho da estrada molhada e cercada por altos pinheiros verde-escuros dava maior contraste ao silêncio em que estávamos. Kurt parecia distante e absorvido pela paisagem. Seu cabelo caía em sua testa e ele apoiava seu queixo em sua mão. Pelo canto do olho, o observava envolto em seu suéter de lã amarelo mostarda e sua camiseta preta. Eu estava nervosa com sua atitude e não sabia o que fazer. Tornei meu lábio inferior vítima de mordidas, enquanto tentava focar no caminho.
"Sabe o que eu escrevi naquela nota, Evelyn?" Me assustei com o som repentino de sua voz.
"Não, eu não a li." Respondi e segurei uma lágrima. Ele me encarou com seus olhos azuis cintilantes e acendeu um cigarro. Sua expressão era de surpresa, como se eu houvesse cometido um crime. "Quer me contar?" Perguntei, estranhando seu comportamento.
"Não acho que seja o momento."
"O fim pareceu um bom momento para contar?" Soei amarga.
"Era antes do fim ou nunca, Ev." Respondeu, voltando seus olhos aos pinheiros. Meu corpo todo tremeu e eu não sabia se era por sua última fala ou o novo apelido que me dera. Ev soava maravilhoso vindo de seus lábios.
Engoli em seco. A curiosidade aos poucos confrontando minha garganta e exigindo com que insistisse. "O fim não chegou. O nunca também não precisa." Abaixei meu olhar e apertei com força o volante, atenta a sua resposta.
Kurt não respondeu, apenas expirou e fechou os punhos ao seu lado.
Será que estou incomodando-o? Pensei, ao sentir o clima tenso e triste. O que posso fazer para deixá-lo melhor?
Nós nos conhecíamos há tão pouco tempo... Revirei todas as nossas lembranças juntos para tentar encontrar algo que ele amasse e estivesse ao meu alcance. Palavras cruzadas? eu não as tinha no carro. Violão? Muito menos.
Música.
De repente, na minha cabeça, a voz embriagada de Cobain surgiu. "Eu amo Beatles. Pra Caralho." Sorri, lembrando de seu rosto fofo e sonolento ao dizer isso, apesar do contexto, e logo coloquei um CD para tocar.
A música In My Life preencheu o interior do carro. O vocalista se virou para mim, grato. Tive que me manter firme ao ver seus olhos serem inundados. Por sorte, ele desviou o olhar antes que eu pudesse desabar. Cobain começou a tocar uma guitarra invisível e marcava o ritmo da música com seus coturnos pretos. Pela primeira vez, fixou seus olhos no caminho que tinha a sua frente e em segundos, cantava entre sorrisos. Me juntei a ele e entoamos Yesterday, Let It Be, I Want to Hold Your Hand e outras, mas Something... Something foi algo especial, um momento que não esqueceria tão cedo e que me assombraria quando eu deitasse para dormir.
"You're asking me will my love grow. I don't know, I don't know..." Nos olhamos à medida que a canção deixava nossos lábios. "You stick around, now it may show. I don't know, I don't know..." Sorrimos de bochecha à bochecha, elevando o tom cada vez mais. Parecíamos felizes, estávamos felizes. Estar com Kurt era fácil, a vida era bela com ele. Ele era belo. Tinha brilho em sua alma e eu não deixaria com que ela se fosse tão cedo. Kurt precisava conhecer-se e se apaixonar por si mesmo, assim como eu sentia estar por ele.
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Salvando Kurt Cobain
FanfictionKurt Cobain jurou que não tinha uma arma, mas Evelyn Hate sabia que isso era uma mentira.
