Com meu carro, contornei por cerca de meia hora o pequeno parque central, que ficava do outro lado da avenida. Meus pulsos doíam e meus dedos inchavam, reclamando por estarmos ainda sem rumo. Queria estacionar do outro lado da rua e ligar para alguém do telefone público. Queria ultrapassar o lerdo táxi. Queria colidir contra o ônibus parado no sinal. Entretanto, de alguma forma, eu sempre voltava para estradinha que levava a Cobain. Então, recusava a mim mesma e dobrava a esquerda, seguindo a avenida e contornando novamente o parque.
Quando o perdi, eu havia perdido a mim mesma. Agora, não sabia a quem salvar. Não sabia mais se ele tinha salvação. Não sabia se eu tinha amor próprio suficiente para me escolher em seu lugar.
Meus olhos, apesar de cansados, não poderiam se fechar. O choro havia lhes conferido a sensação e aparência de um soco. As lágrimas eram ácidas como limonada, mas eu nunca o confundiria. Meus braços tensionaram sobre a direção à medida que eu observava os cabelos loiros de Kurt ao vento. Distante, na rua do outro lado da que eu estava, ele dirigia a van da banda, provavelmente levando Krist e Dave para o ensaio. Tremi, não sei se de raiva, decepção ou ambas, ao notar que o vocalista não exibia as mesmas características que eu. Era como se nunca tivéssemos discutido ou... terminado. O que diria para os meninos? Que eu estava bem, que me amava, que eu havia ido visitar meus pais?
Ugh. Meu estômago revirou-se com os pensamentos.
Finalmente, soube para onde ir. Estar sozinha naquela casa soava confortável, como não ter que estar no meio da tempestade e encarar a verdade. Com esse escudo a disposição, fiz o caminho de volta, o mesmo que me levara para longe dele. Cruzei o portão com a cautela de uma gata abandonada tentando roubar algo do jardim de uma propriedade qualquer. Ignorei todos os banais detalhes da entrada e suas lembranças, ainda que até o brilho das pedras me trouxessem o brilho do luar de tantas noites com Kurt, e estacionei.
Talvez pela última vez, empurrei a porta, sentindo a madeira gelada e ouvindo seu ranger familiar, som rústico ficaria para sempre na minha mente: a música de entrada do inferno que havíamos tornado paraíso. A deixei aberta, pois sairia rápido. Eu só precisava pegar o essencial: algumas roupas e documentos. Não tinha muito para deixar para trás além do vocalista. O sol entrava e batia em minhas costas, não me aquecendo. Passos lentos e inseguros tocaram o chão, me guiando para a base da escada. Subia-a, estranhando a estante de bebidas organizada, mas parcialmente vazia, e os cinzeiros limpos novamente. A ausência do caos me fazia questionar se eu havia de fato significado algo para Cobain. Comparei o presente com o dia em que nos conhecemos e como a instabilidade o perseguia e obtinha tudo dele.
Por que a frieza lhe rodeia dessa vez? Pensei, parando na metade dos degraus.
Não havia tempo para isso. Chacoalhei a cabeça, afastando a pergunta e cheguei ao corredor do segundo andar.
Talvez receber amor não fosse o cálice de Kurt Cobain. Talvez amar sem reciprocidade fosse, por isso ele escolheu Courtney Love. - Limpei uma nova lágrima. - Decifrá-lo nunca foi difícil, nem necessário. Costumávamos ser cristalinos... Porém as coisas mudaram, e mudaram para o pior.
Cheguei ao quarto principal atordoada pelos pensamentos altos demais, mas infelizmente não cega. Um frio torturante percorreu minhas pernas até o pescoço e tive que me segurar na guarnição da porta para não cair. Na cama estava deitada uma garota de cabelos negros e sedosos, espalhados até seus ombros. Essa escuridão era imitada pela lingerie de renda. Repousava pacífica, cercada por dois copos e garrafas de vidro, e seu respirar era leve. Um anjo caído com a certeza de que tudo ali era seu, incluindo Kurt. Uma das camisas dele estava presa em sua mão. Me senti fraca, parecendo que eu não havia comido algo há meses. De fato, o que vivi com o vocalista foi uma mentira ou um sonho. Ele estava fazendo de tudo para deixar isso claro. O quão inocente eu havia sido para acreditar que não poderia ser pior.
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Salvando Kurt Cobain
FanfictionKurt Cobain jurou que não tinha uma arma, mas Evelyn Hate sabia que isso era uma mentira.
