21 | Mentiras

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Eu não sei porque esperava Kurt Cobain irromper pela porta a qualquer momento. Talvez porque ele sempre fazia isso, aparecia do nada, e trazia aquele misto agridoce de raiva e conforto. Porém, os dias passavam e passavam, e eu continuava sem sentir coisa alguma que não fosse o peso da morte dos meus pais.

A culpa é toda minha. Eu os matei.

Engoli mais um gole do chá ao ouvir meus pensamentos. Esperava afogar.

"Bom dia, Ev." Dave me cumprimentou ao sair pela garagem. Havia alegria em seu tom, mas ainda respeito por minha perda.

"Bom dia." Respondi, cobrindo a testa com a lateral da mão, assim conseguia encará-lo sem que o sol machucasse meus olhos.

"Que bom que resolveu sair um pouco. O dia está lindo." Respirou fundo, como se quisesse absorver a natureza do jardim da casa de Krist. Apenas assenti com a cabeça e fitei a grama ensolarada. Meu livro pousado em cima das coxas. "Vou ao mercado. Precisa de alguma coisa?... Ev?"

Voltei para a realidade, sentindo-a como uma facada no pescoço. "Não..." Apressei-me a dizer.

"Certo." O baterista parecia desanimado com minhas reações. Observei virar as costas e seguir para a van.

"Tem alguma notícia de Kurt?" Minhas palavras fazem ele parar de andar. Minhas palavras fazem meu coração parar de bater. Por que não pude simplesmente conter-me? Por que me importava com Kurt, mesmo com todo o resto de mim estando perdido?

Dave volta-se para meu rosto e me sinto feito um fantasma em seu quarto. "Desculpa, o quê?"

"Eu não sei..." Meu corpo se encolheu na cadeira por um instante. Porém isso não durou muito. "Kurt... Cobain... Ouviu alguma coisa sobre ele?" Lembrei do beijo suave dele, no hospital, ainda preso em minha pele. O último momento em que me senti viva.

"Ele foi visto por aí, em cidades próximas. É o que diz a televisão." Seus ombros caem e o olhar se desvia. "Você sabe, drogas, hotéis e ignorar os amigos. Esse é o Kurt." O sorriso mais forçado do mundo levanta-se em seu semblante, e eu imito o gesto.

Então, o vocalista já estava fora do hospital. E eu também, pedi demissão e esperava jamais voltar para lá. Ana esperava o mesmo. Eram tantas memórias que ambas de nós não poderiam suportar, especialmente na presença uma da outra.

Exceto que, eu estava bem de saúde física. Estaria Cobain da mesma forma ou fugiu mais uma vez de sua reabilitação?

O baterista percebeu que fiquei soturna e reflexiva. O barulho do vento nas árvores parecia invadir e deixar nossos ouvidos em uma dança infernal. "Evelyn... pode ficar conosco o tempo que quiser. Até depois de vender a casa dos seus pais. Eu e Krist queremos te ver bem, de verdade."

"Obrigada, anjo. Até depois." Nos despedimos de vez com um breve aceno. O peso de dois mundos conturbados segue em direções opostas.

Voltei para o interior da residência e encontrei o recém acordado Krist, mergulhando biscoitos em sua caneca de leite gelado.

"Olha quem saiu do quarto!" Disse com entusiasmo e riu, forçando-me a revirar os olhos.

"Eu poderia dizer o mesmo, dorminhoco." Brinquei ao pegar uma maçã na bancada.

"É isso mesmo, Ev. É ótimo que se alimente." Encorajou-me e apontou para mim antes de ir atender o telefone. Os meninos têm me motivado bastante durante esses dias, o que me fazia sentir melhor e até sorrir.

Sinalizei que iria tomar banho, apontando para o banheiro e toalha. O baixista fez que positivo com o dedo e logo após verbalizou um "alô".

O quarto que eu estava utilizando era pequeno, mas acolhedor. Havia poucas coisas: um armário, uma cama de solteiro e uma cômoda, e todos os móveis, de alguma forma, encostavam na parede. Isso era bom, pois um espaço pequeno e fácil de organizar mantinha minha mente mais tranquila.

Salvando Kurt CobainOnde histórias criam vida. Descubra agora