"Ev..." Dave parou na minha frente poucos minutos antes de subir ao palco com a banda. Estava sem camisa, com o corpo já suado e no seu ombro havia uma toalha branca pendurada. "Você está brava comigo?" Ele encarou o chão e coçou a nuca.
Exalei, procurando alguma resposta dentro de mim. Quando as lágrimas vieram, olhei para meus tênis, alguns centímetros distantes do chão, enquanto eu estava sentada em cima de uma grande caixa de som nos bastidores. Meus braços se colaram ainda mais contra meu corpo e minha camiseta preta parecia ter ficado justa sobre minha pele.
"Evelyn..." Ele insistiu, dando um passo a frente.
"Acho que não estou, Dave." Proferi. Meu tom de voz era forte e decidido, mas me sentia fraca e quebrada. O baterista deixou o ar escapar de seus pulmões, aliviado, e bagunçou meu cabelo, mas logo parou ao ver que não havia um traço sequer de graça em meu rosto. Conectei meus olhos aos seus, buscando a certeza de que conseguiria transmiti-lo toda a confusão que os fatos me faziam sentir e ser. "Estou decepcionada." Levantei inesperadamente, sem saber com que força. Parei diante dele, não intimidada por sua altura. "Pensei que estivéssemos juntos nessa de salvá-lo. Você parecia se importar muito. Todo aquele papo sobre "a Courtney faz mal a ele", "há quanto tempo que não o vejo sorrir" e etc."
"Eu sei..."
"Sabe mesmo?" Debochei. "Então por que virou o novo fornecedor do Kurt? Me conte porque você acha que as drogas fazem menos mal para ele do que Courtney." Retomei meu tom sério. Notei que alguns membros da equipe olhavam para nós: alguns tristes, alguns chocados e outros apenas curiosos. Isso não me fez recuar. Apenas cruzei meus braços e esperei por sua resposta.
"Me p-perdoe, cara. Me perdoe. Eu só... parecíamos tão bem, seria divertido." Seus olhos marejaram. "Se você soubesse o quanto me arrependo, Evelyn."
"Você deve perdão a si mesmo, Dave." Seu estado atual não me causou pena. "Você é que está contribuindo para a morte dele. Eu estou tentando fazer o contrário."
Minha rispidez, algo que ele nunca havia sido alvo, deixou-o perplexo. Seus olhos se expandiram como se as palavras fossem amaldiçoadas ou o atingissem como balas de um revólver. Nenhuma resposta foi maquinada por seu cérebro e não seria, mesmo que usasse 100% do órgão. Dave sabia que eu estava certa. Ele ouviu a verdade e ela doeu. Após assentir, dirigiu-se a entrada do palco, sumindo do meu campo de visão.
Puxei todo o ar que pude. Parecia que tinha feito do oxigênio toda a minha coragem e energia e agora estava em falta. Em seguida, expirei-o devagar, o que me ajudou a retomar a calma.
Krist passou por mim, sem o ar que lhe daria a coragem de me ver ou falar comigo. Mesmo que eu não o culpasse, ele fazia isso a si próprio. Sabia o quão péssimo o baixista se sentia, ele nunca tentou esconder. E dele eu senti pena, pena de vê-lo andar por aí com seus ombros caídos devido a irresponsabilidade de outros.
Quando pensei em ir procurá-lo para conversar e dar um abraço, contá-lo que não era sua culpa e que resolveríamos isso, Kurt subiu as escadas. Observei sua figura se movimentar na parte escura dos bastidores. Um cigarro na mão direita, um copo na mão esquerda e a guitarra nas costas. O conjunto do caos, o misto da perfeição. O perigo da morte com o perigo de viver. Meu fôlego já dava sinais de sumiço.
"A minha linda e doce Ev..." Deixou as sombras com um sorriso convencido nos lábios. "Oi..." Disse suave e beijou a ponta do meu nariz.
"Oi. Tudo certo para o seu incrível show? Tudo vai sair melhor que o encomendado?" Provoquei com um sútil trocadilho e me enchi de prazer quando seu cenho franziu. Kurt havia entendido.
"Não vamos fazer isso, anjo, esse jogo..." Soltou das mãos as drogas lícitas, deixando-as onde eu estava sentada antes. "Magoa."
"Só você pode fazer joguinhos? Preferia que eu esperasse você estar de costas?" Ri, enquanto meus olhos me traíam com mais choro.
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Salvando Kurt Cobain
FanfictionKurt Cobain jurou que não tinha uma arma, mas Evelyn Hate sabia que isso era uma mentira.
